Conflito na Síria: a consolidação do eixo Pequim-Moscou?

Por Edemilson Paraná

O sangrento conflito na Síria tem sido perversamente didático em nos demonstrar os descaminhos do chamado “ocidente” na administração de sua hegemonia no sistema mundial de Estados. Em outra ocasião, o blog tratou da brutal crise humanitária que o episódio desvela. Com a recente entrada da Rússia no conflito, cumpre ressaltar outro importante aspecto: o eixo estratégico Pequim-Moscou parece começar a se solidificar, e um dos grandes responsáveis por essa aliança é o próprio ocidente, que age de modo desastroso na região.

Sabe-se que, dentre outros, um dos objetivos manifestos de Washington para o Oriente Médio é justamente o combate à influência russa na região, com seu consequente isolamento geopolítico. Não é de hoje. As duas guerras do Iraque e do Afeganistão estiveram impregnadas dessa disputa. Em tática similar à ativada na Ucrânia, trata-se de empurrar o Urso para dentro da floresta: para além da península arábica, Iraque, Afeganistão, Síria e o cobiçado Irã compõem o cinturão ianque dos sonhos.

Somada à ofensiva direta aos seus principais aliados na região, à queda dos preços do petróleo (por fatores administrados e também inesperados) e às sanções econômicas draconianas dirigidas ao país, muito parece empurrar a Rússia para um inevitável conflito. É pois o que acontece também na Síria. Passados quatro anos de guerra, Putin, um exímio estrategista, aproveitou a brecha aberta pela própria intervenção desastrosa dos EUA e seus aliados no país (que turbinou jihadistas sunitas como os do ISIS) para dizer o seu sonoro “não”, reforçando as posições de Assad. Como o rei está nú, não há muito o que fazer: é patente o fracasso do ocidente em lidar com o monstro que ele mesmo ajudou a criar. Washington protesta, mas está praticamente sem opções neste momento.

Em outra trincheira, a China que, diga-se, nunca morreu de amores por Moscou, começa acumular motivos para se juntar, ao menos indireta e conjunturalmente, ao time. Sabe-se da importância que o ocidente tem para o atual modelo de crescimento do país e também das velhas disputas com os russos por zonas de influência “compartilhada”. Mas o redesenho de sua estratégia de desenvolvimento econômico, que volta-se para dentro, somada à disputa estratégica por posições na África e na América Latina (com especial ênfase em terras, finanças e infraestrutura) fazem crescer seus desacordos com os EUA e seus aliados. A isso somam-se as tensões econômica e financeira que vive o país e os constrangimentos impostos pelo bloco oposto que, além do controle do sistema de Estados e da engenharia financeira mundial, usa e abusa de sua confortável posição como administrador do “dinheiro mundial”, o dólar.

Sabemos que quando se trata de proteger o sistema dólar o Tio Sam não costuma transigir: Saddam e Kadafi pagaram caro a ousadia de transacionar petróleo diretamente em Euro. Pois é justamente o que Rússia e China começam a fazer: para além de cooperação e exercícios militares conjuntos, transações diretas (em especial de gás e petróleo) em moeda local e o ensaio de uma engenharia financeira alternativa. É bom para ambos, mas desagrada profundamente Washington.

Tudo somado, há um conjunto de outras questões aqui não abordadas que demonstram estarmos ainda distantes de um quadro de crise e rearranjo estrutural do atual sistema mundial de Estados. No entanto, pelo pouco que é possível afirmar, é notável a solidez que, aos poucos, adquire o eixo geopolítico Pequim-Moscou. O que isso aponta para o futuro? Difícil saber. O que se passa na Síria, no entanto, é um bom termômetro e ainda pode ter muito a nos contar a respeito. Vale acompanharmos atentamente.

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3 comentários sobre “Conflito na Síria: a consolidação do eixo Pequim-Moscou?

  1. Daniel 07/10/2015 / 14:32

    Permita-me discordar de alguns pontos cruciais do seu texto:

    É comum em análises, especialmente e sobretudo aquelas feitas pelos próprios estadunidenses, a confusão entre a política externa dos EUA e a Política Internacional (PI) per se. Por razões claras, os Estados Unidos, como superpotência, têm, de fato, a capacidade de intervir e de modificar o “etát d’affairs” do xadrez político mundial. Isso, todavia, não significa que a Política Internacional resume-se na relação do mundo com os EUA, pelo contrário, este país está inserido numa dinâmica sistêmica muito mais complexa. Disso eu quero abstrair duas considerações, quando prestamos a analisar contextos globais: o primeiro refere-se ao fato de que, ao responsabilizar os EUA sobremaneira pelos contornos delineados na PI, incorremos ao grave erro de não dar crédito ao poder de agência dos outros estados, grupos, indivíduos – ou seja, seus interesses, suas crenças e suas atitudes devem ser levadas em conta, porque em muito pesam nos contextos de sua zona de influência; em segundo, partir dessa interpretação restringe-nos em termos analíticos e apenas contribui para perpetuar uma noção enviesada do peso dos EUA na PI.
    Feitas as devidas observações, começo argumentando que o contexto do Oriente Médio em muito se deve pelas raízes históricas que contemplam a formação das sociedades e dos estados árabes. Simplificarei o raciocício baseando-me em dois dados pertinentes ao texto: a ascensão do Islã e a ingerência europeia no mundo árabe. O Islã, enquanto religião e também como referência de organização social – tendo, em última análise, um grande componente teleológico -, transformou de maneira drástica as realidades locais do Oriente Médio, principalmente com o estabelecimentos da rivalidade entre Sunitas e Shiitas. A formação desses grupos contribuiu para a divisão do mundo árabe, permanecendo conflitos cujo bojo resgata os primórdios do islamismo, mas que representam uma visão divergente sobre a propação da lei muçulmana (Sharia). Por outro lado, a Europa também altera os rumos da sociedade arabe, sobretudo com a queda do Império Otomano no findar da I Guerra Mundial, no âmbito das assinaturas de dois instrumentos (Acordo Sykes-Picot e Tratado de Sevrès). Esses instrumentos dividem o Oriente Médio em áreas de influência, em sua maior parte entre ingleses e franceses, não respeitando a distribuição local dos diversos grupos e criando fronteiras artificiais (em semelhança com aquelas da partilha da África um século antes). Muito do que acontece hoje em países como a Síria e o Iraque tem sua conta em parte creditada a esses contextos históricos.
    É igualmente verdadeiro, entretanto, que eventos mais recentes influenciam ou condicionam o contexto regional, de forma que a “securitização” do Oriente Médio deve tributo a problemas conjecturais das últimas décadas. A começar pela invasão do Afeganistão pela Rússia, entre 1979 e 1989, a qual cria uma crise humanitária sem precedentes no país (por exemplo, o fluxo de imigração forçada era liderada pelo Afeganistão até o ano passado, quando ultrapassado pela Síria) e na região. Além disso, a revolução iraniana de 1979, que ocasiona na instalação de um regime teocrático de base shiita, redireciona a balança de poder regional, já que os estados mais influentes da região seriam de maioria sunita. Os Estados Unidos também foram responsáveis por grande instabilidade regional na época ao apoiar a ascensão de regimes seculares (negligenciando o fato de lhes faltar legitimidade e sobrar autoritarismo). Os grupos extremistas que surgem dessas conjecturas foram idealizados pela milenar noção da Jihad (necessário ressaltar que a Jihad não deve ser traduzida por “guerra santa”), dando interpretação própria à busca pela proliferação do Islã – relacionada à violência -, e impulsionados pela instabilidade regional acima exemplificada – porém genuinamente concebidos a partir das inclinações dos próprios grupos islamitas.
    Com essa pouco breve introdução, o que defendo é a necessidade de analisar com mais cuidado o contexto que se instala na Síria e no Iraque, bem como os papéis de importantes potências, como os Estados Unidos, a Rússia e a China. No caso da Síria, além dos temas acima tratados (há um problema grave de sectarismo no país), adiciono como causas do conflito o autoritarismo do governo Assad (não esqueçamos que ele utilizou até de armas químicas para o controle da população), a ingerência descabida dos Estados Unidos E da Rússia, ao apoiarem, respectivamente, os grupos rebeldes e o governo – e, por “apoiarem”, leia-se: venda de armamentos e além) e, obviamente, a ação sem limites do Estado Islâmico. E aqui cabe, novamente, a ressalva de que os Estados Unidos não criaram o EI ao tornarem o Iraque um estado disfuncional. O Estado Islâmico, assim como os grupos expostos de forma genérica acima, ascende a partir da vontade latente de extremistas islâmicos sunitas em propagar sua crença, que aproveitaram do vácuo de poder local criado pela guerra do Iraque.
    Os Estados Unidos também têm sua cota de responsabilidade. Sua desastrosa política externa de superpotência, em que se acham como árbitros para definir quem é legítimo e quem não é para governar territórios estranhos à sua jurisdição, é um problema crônico para o Oriente Médio. Como reflexos disso, a ação e até mesmo a inação afetam os contornos da política regional. Mas, acredito, a solução não virá por meio de mais ingerência de outras potências, simplesmente porque a desestabilização nunca criou ordem (a Líbia é o mais recente exemplo evidente disso). Isso nos traz ao papel da Rússia no conflito e um suposto Eixo Pequim-Moscou. A Rússia, uma aliada tradicional do governo Assad na Síria, possui interesses de estado na permanência desse governo e está tradicionalmente envolvida na disputa por influências na região. Já a China, não. A China, com sua estratégia de “Nova Rota da Seda” e da política do “One Belt, One Road”, transparece que suas intenções em termos de inserção internacional são sobretudo econômicos. Para a China, uma política intervencionista no Oriente Médio iria chocar com o seu pragmatismo político e com a prioridade de sua política externa, que é a de concretizar sua influência no continente asiático, seguida da consolidação de laços econômicos sólidos com o ocidente. Um Eixo Pequim-Moscou seria completamente inviável, nesse sentido, mais por conta da timidez da China na agenda de segurança internacional que extrapola seu entorno estratégico, e menos pela vontade da Rússia.
    Enfim, penso ser necessário observar a complexidade do contexto regional, antes de defender uma posição estanque dos atores envolvidos. A recente intervenção Rússia irá, de fato, dar novos contornos à guerra na Síria, para o bem ou para o mal (sou do time pessimista). Com menos freios internos e mais legitimidade de ação (porque foi convidado a intervir, ao contrário dos EUA), sua ação poderá ser, e creio que será, desproporcional ao que foi chamado. Os Estados Unidos, com sua incessante vontade de desestabilizar o governo Assad, produzem uma geopolítica cada vez mais propensa à guerra. Não obstante, a ação pouco cooperativa dos estados e dos grupos envolvidos no conflito (Rússia, Irã, Arábia Saudita), ora articulando-se em favor de grupos rebeldes, ora em favor do governo, não lhes permite fugir dessa racionalidade tradicional da política internacional (de resolver os conflitos com mais conflitos). E não poderia deixar de questionar a letargia da própria sociedade internacional, que se mantém inerte e pouco solidária e propositiva. E a China, bem, creio que continuará fingindo que nada viu, nada vê.

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  2. Edemilson Paraná 08/10/2015 / 19:06

    Caro Daniel,

    obrigado por seu comentário.
    Para além de sua bem-vinda contextualização, que foi não objeto do texto, ainda mais diante das restrições de tamanho típicas da plataforma, vou direto à temática: a possibilidade de um eixo Pequim-Moscou.

    Nesse particular, creio que as informações que você faz mais fazem reforçar do que negar essa possibilidade. É justamente por razões pragmáticas (e não necessariamente estratégicas em termos de aliança militar) que a China me parece ser levada a essa direção. O “pragmatismo” chinês faz e fez muito sentido até aqui mas, diante dos elementos que elenquei no texto – desaceleração e possível mudança da estratégia de crescimento econômico com consequente expansão de suas ações econômicas em outros continentes, em especial África e América Latina -, algumas coisas podem começar a mudar. Penso que o novo tratado de cooperação econômica do pacífico, capitaneado pelos Estados Unidos fazem reforçar ainda mais esse ponto. Há também um limite por parte de Europa e EUA para aceitar sem reagir a “expansão pragmática” chinesa (em termos econômicos, mas não só), ainda mais nesses “novos” termos. Daí que a China deve seguir, por enquanto, sua linha “média”, mas aos poucos começa a ser empurrada para assumir posições mais duras em alguns fronts (creio que o monetário-financeiro é e será o mais importante agora).

    Quanto à Rússia, bem, acho que concordamos. Ela só tem a ganhar com essa possibilidade e parece buscar ativamente esse horizonte. Resta saber como a China se comportará. Diferentemente de você, não estou convencido de que rechaçará a aproximação pelo simples fato de que não é o que tem mostrado em seus últimos movimentos, alguns dos quais também menciono no texto.

    Tudo somado, não estou traçando de modo peremptório e sumário esse cenário. Trata-se mais de uma breve análise de conjuntura. O tom de pergunta no texto e a conclusão aberta evidenciam que apenas fiz levantar uma hipótese que não tem sido muito discutida – uma hipótese, aliás, que me parece bastante crível e que penso que deve ser considerada.

    A ver como a história se desenrolará.

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