A aliança com a social democracia

A social democracia é um caminho conhecido. Já sabemos onde ela começa, de onde ela vem e onde ela chega. Sobretudo, sabemos que o excesso distribuído nas “democracias-sociais” vem da exploração do mundo subalternizado. Isso é um fato.  Mas precisamos revisitar essa discussão em tempos da onda conservadora. Porque a social democracia enquanto horizonte teórico ainda é aliada. E ainda avança numa perspectiva de mudança necessária. Como pensá-la de maneira crítica é nosso desafio. Vejamos.

A administração de toda nossa renda, nos moldes em que ela é feita pelo Estado Moderno, está embasada num princípio de solidariedade que funciona mais ou menos assim: você, indivíduo, arrecada dinheiro através de seu trabalho e uma parte desse dinheiro é enviado ao Estado – grande ente coletivo institucionalizado – que manuseia e utiliza esse dinheiro para providenciar serviços que são, supostamente, comuns a todos.

Se formos pensar numa estrutura menor de sociedade ou de coletividade, podemos usar um exemplo bem comum. Imaginem que duas pessoas que moram uma do lado da outra percebam que um buraco entre as duas residências oferece um perigo a ambas. Ou que o parque que ambas utilizam está mal das pernas. Elas se juntam e, cada uma a sua maneira, gasta uma parte de sua renda para algo que beneficia ambas. Numa sociedade mais complexa, remetemos isso ao ente representante do coletivo para que se pondere (em suas instancias representativas), se analise e se execute uma determinada política de gastos.

Numa sociedade “justa”, a vaquinha devia levar em consideração quem pode contribuir mais, já que, proporcionalmente, o “sacrifício” deve ser equânime, especialmente se tivermos em vista que ambos vão usar a mesma coisa. Acontece que todo esse panorama está ancorado num contexto específico: o de uma sociedade capitalista.

A crítica socialista a esse modelo social-democrata se deve a uma percepção um pouco simples também: para redistribuir, é preciso que o excesso exista. Um excesso sistêmico. Um excesso baseado na exploração. Por que? Porque, no sistema capitalista, é normal que uma pessoa adquira mais dinheiro que outra durante o mesmo tempo de trabalho. É normal que a pessoa que efetivamente constrói cadeiras e mesas e carros e telefones ganhe muito menos que o dono da empresa.

Nesse cenário, reivindica-se a redistribuição de renda por aceitarmos que algumas pessoas são mais bem remuneradas que outras. E isso se deve à capacidade que existe, no capitalismo, de explorarmos pessoas, atribuindo a elas diferentes valores pelo mesmo tempo de trabalho. Enquanto eu trabalho uma hora ganhando 100 reais no escritório, pago 10 reais por hora para minha empregada trabalhar. O tempo dela vale menos. E isso é tido como normal.

O que precisamos entender é que a redistribuição nao fixa ou conserta a exploração. Apenas a compensa.

Mas é fato que, em razão de nossa história e da construção de nosso modelo educacional, a social-democracia acaba sendo uma “porta de entrada” para muitos da esquerda. É nela que muitos “criados no capitalismo”, como somos todos, se sensibilizam para o fato de que a exploração não deve ser impune. Que ela deve “pagar” alguma coisa. Supomos, assim, que é necessário pensarmos outro modelo de redistribuição. Para melhor auxiliar aqueles que são explorados. Porém, é evidente que não se pode limitar por essa redistribuição, endeusando o estado e pressupondo uma agência superdotada capaz de compensar em absoluto todos os níveis de exploração.

Porque a exploração nao se encerra na hora de trabalho ou no valor que se paga a um trabalhador. Ela é o que constitui subjetividades. É o que constitui nossas interpretações sobre o mundo. E é o que, em última instância, conduz a história que contamos sobre nós mesmos.

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