Fale com meu joinha

A ideia inicial do facebook era conectar amigos. Aqueles que tinham sumido da sua vida, aqueles que já permeavam ela no dia a dia e aqueles que haviam se mudado para uma galáxia muito distante. Preocupava-se em estabelecer, online, uma rede de “apoio” e de aglomeração – demonstrando a todos com quem você anda, já andou ou pensa em andar no futuro. Isso não seria um problema se o facebook tivesse permanecido mais uma rede social ou mais um site que acessamos de vez em quando. Mas não é isso que aconteceu. O facebook, hoje, conecta a vida das classes médias mundiais de uma maneira determinante. Estudos recentes mostram que, em média, um brasileiro passa 9 horas, ao longo do dia, no facebook. 9 horas. É uma jornada de trabalho.

Toda essa realidade virtual com a qual vivemos afeta nossa perspectiva sobre o mundo. É aquele velho debate – tão atual – sobre a relação entre as tecnologias e seu conteúdo social. Não existe ferramenta que não esteja atenta para uma determinada finalidade. Assim como não existe tecnologia que não possua, dentro de si, uma visão bem específica de mundo. O facebook glamorifica e “simplifica” nossa vida, de tal modo que nos acostumamos a ler pouco, pensar pouco sobre o que lemos e procurarmos likes ao invés de discussão. Todo mundo fala por like e todo mundo só fala para quem dá like na grande maioria das vezes. Dentro e fora das redes. Todo tipo de questionamento e discussão mais longa acaba sendo “chata” ou sinônimo daquele arquétipo mal compreendido e deveras utilizado – o recalque.

As recentes mudanças do face tem tornado isso mais e mais comum, já que podemos deixar de seguir pessoas e já que o algoritmo mais novo dele tem nos direcionado à pagina das pessoas com quem mais interagimos. Ou seja, para a pagina de quem mais damos like. A ideia que defendem é uma mercadológica. Você tem mais alcance quanto mais pessoas você consegue mobilizar a favor de uma ideia específica…baseado na sua capacidade anterior de fazê-lo. Isso facilita a vida do facebook já que ele se torna mais capaz de determinar o valor econômico de um post por conta da capacidade de aglomeração. E, mais importantemente, de cobrar pelo alcance que cada postagem pode ter.

O facebook encontrou nesse aspecto uma maneira inteligente de arrecadar dinheiro. Cobra-se por likes. Cobra-se por aquele fator sócio-cultural que se tornou parte de nossa vida, de nossas subjetividades e de nossa expectativa social. Paga-se por mais amigos e mais aceitação, o que certamente afeta nossa sociabilidade já bastante mercantilizada.

Esta rede social que predomina em nossas mentes é um ótimo exemplo para entendermos a relação entre as inovações tecnológicas e nossas vidas em geral. É comum acreditarmos que todo desenvolvimento tecnológico é um avanço, é uma maior capacidade do ser humano lidar com a “natureza”. E é. O que precisamos entender é a destinação, a finalidade, desse avanço. Para não rezarmos a cartilha ingênua da neutralidade acadêmica, científica e – sobretudo – tecnológica.

O facebook nos afeta. A cultura do like nos afeta. E ela acaba explorando muito do que pensamos, do “como” pensamos e os “porquês” do que pensamos. Sobretudo quando tudo que fazemos e dizemos é em busca de likes. Likes de quem está no nosso círculo mais próximo. Likes de quem já não disputamos.

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Um comentário sobre “Fale com meu joinha

  1. daniel cambraia 13/10/2015 / 15:11

    Muito bom texto!!
    O que se nota também é a velocidade da “maturidade” dos usuarios nas redes sociais, e onde isso pode culminar.
    A dinâmica do facebook, lhe oferece tempo a pensar, de maneira que vc consiga melhor prever as consequencias de seus likes, feeds e compartilhamentos. Poderia se usar esse tempo de maneira mais produtiva, de maneira melhor colocar suas opinioes através de um texto bem escrito, ou até mesmo se proteger de supostos mal entendidos. O que se nota porém é uma fuga indiscriminada de assuntos ou embates polemicos, desprovendo o mundo de novas soluções via saudaveis batalhas de ideias.
    Muitos se sentem em uma situação vulnerável quando expressam sua opiniao; parte por falta de convicção diante dos poucos conhecimentos acumulados, e parte por medo da retaliação, criada apartir de um cenario de pequenos grupos sociais onde as ideologias já muito enraizadas não podem “por lei” aceitar algumas especificas discordancias.
    São micro doencas ja existentes nas redes, e que podem ser catalizadores ainda maiores para o ja existente efeito colateral principal, a anulação.

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