As crises da crise e o jogo de cena

Por Lucio Gregori

É preciso muita atenção e um esforço muito grande para se evitar pré-conceitos e tradicionalismo para tentar entender o quadro político-econômico que aí está. Parece que temos várias crises simultâneas, daí a dificuldade de uma solução de curto prazo. O que significa que as forças populares poderão ter espaço crescente na disputa. E essa é uma característica importantíssima nessa conjuntura.

Uma crise é mundial, a do capitalismo crescentemente financeirizado e com queda de preço das commodities, etc, por demais já falada e conhecida. Outra crise é interna,também capitalista e que decorre em parte da crise externa e em parte pela impossibilidade do capitalismo tupiniquim dela dar conta, além de erros do governo. Mas esses erros decorrem, também, da crise política que sucede aos anos de bonança. E essa crise política interna apresenta um perfil que a difere de outras pelas quais o país já passou.

Uma diferença importante é que “os de cima” foram apanhados em atos de corrupção como nunca antes no país. E num segundo momento, as “lideranças” políticas penosamente construídas pelo principal partido da “base aliada”, mídia e partidos de oposição, também se vêem às voltas com o problema da corrupção. Além da corrupção dos altos escalões petistas. Mais curioso é que uma quarta crise surge nisso tudo. A Presidência da República não tem um problema de corrupção estrito senso, o que gera a necessidade envolvê-la na narrativa da corrupção, e tudo isso se transforma num enorme jogo de cena, cujo objetivo último é fazer um ajuste conveniente para os “de cima”, em especial para os rentistas.

Enquanto isso,  os “de baixo” estão  dizendo que não estão dispostos a pagar a conta.E que não apoiam nem A nem B nem C sem mais nem menos. Não por outra razão, frações de classes conservadoras, sobretudo as médias de fato, se debatem numa situação inédita por aqui. Seus padrões de meritocracia e honestidade vêm abaixo, pois afinal os diretores de empresas privadas ou públicas da lava-jato, do trensalão, zelotes etc, são oriundos nem mais nem menos dessas classes, bem como as citadas novas “lideranças” que se tentou forjar recentemente. A raiva que manifestam decorre, também, dessa terrível constatação para eles.

No limite, o clássico tiro da corrupção está saindo pela culatra, então, tome pedaladas fiscais, com o TCU posto sob suspeita! Ou, como diz o texto de André Singer, ver o TCU fazendo suas pedaladas. E tudo o mais já conhecido.

Assim, em  nome da “responsabilidade fiscal”, leia-se sobrar dinheiro para pagar juros da dívida, pratique-se a “irresponsabilidade social”. Porque não existe uma Lei de Responsabilidade Social que diria que o Estado em todos os níveis deve honrar suas responsabilidades sociais? Ou vale mais a “honradez” de pagar os banqueiros do que a “honradez” de garantir o pagamento e qualidade do SUS, do Bolsa Família, de não fechar escolas como o governo de São Paulo está fazendo, etc?

Essa multiplicidade de crises torna possível aprofundar uma discussão política das raízes efetivas da crise de Estado, abrindo uma possibilidade de centrar o debate popular na captura dos corações e mentes da imensa maioria da população. Usando linguagem e questões simples e sensibilizadoras.

Como a questão da quantidade e qualidade dos serviços públicos, uma das principais “furadas” dos chamados governos progressistas dos últimos anos. E que pode também, quem sabe, sensibilizar as desarvoradas frações de classe média?

Por uma Lei de Responsabilidade Social! Democrática e feita com intensa participação da população!

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