Volta pra Cuba!!!

Por Rodrigo Santaella

Nos últimos tempos, muitos de nós fomos “aconselhados” a ir para Cuba. Bom, foi tanto pedido, tanta ordem, que resolvi ir quando tive chance. Faço aqui uma análise rápida, pessoal e limitada, já que estive poucos dias por lá, e apenas em Havana e arredores. De qualquer forma, imagino que seja um ponto de vista mais abrangente que o da enorme maioria das pessoas que têm o costume de mandar as outras “voltarem” para Cuba.

A ilha é muito interessante. A revolução, o bloqueio econômico e a paulatina abertura configuram uma sociedade na qual temporalidades e estéticas distintas dão um cenário em que o tempo parece passar mais devagar para todos. Parece haver uma sociabilidade diferente da que estamos acostumados. As pessoas conversam e contemplam muito, consomem pouco e não estão com as caras afundadas em seus smartphones o tempo todo. Há internet, mas o acesso se dá em lugares públicos, então as pessoas acabam por juntar-se fisicamente para conectar-se às redes, o que ameniza o efeito paradoxal de conexão e isolamento que a internet causa em nossas vidas.

A desigualdade social é muito pequena e todos, mesmo os mais críticos ao regime, reconhecem o fato de que há educação, saúde e segurança. Para a nossa classe média, tão amedrontada de sair às ruas por aqui, deve ser inquietante pensar num país pobre da América Central com violência urbana praticamente nula. Pois é, a turma que acha que bandido bom é bandido morto podia passar uns tempos em Cuba… Ah, não, pera…

Bom, voltando a falar sério, é claro que há muitos problemas por lá. O governo cometeu erros ao longo dos anos, especialmente relacionados às restrições impostas à população, especialmente pelos problemas que gera o bloqueio econômico e a ameaça que representa os Estados Unidos ali a duas centenas de quilômetros. Há muita gente crítica ao governo, e as opções de consumo e as oportunidades de viajar são poucas e restritas, por vezes mais do que o necessário. Além disso, há uma economia dupla, uma voltada para os turistas e uma para os cubanos, o que gera distorções importantes: todos os cubanos que conseguem comercializar ou prestar serviços para turistas – e portanto receber na moeda feita para turistas, que vale 25 vezes mais do que a moeda cubana normal – ganham muito mais dinheiro do que os outros. Isso faz com que taxistas – e há muitos por lá – ganhem bastante mais do que médicos e engenheiros, por exemplo. Se isso traz consequências interessantes, como a inexistência de profissões ‘arrogantes’ por natureza, também gera desigualdade.

Voltou à moda o medo de que o Brasil vire uma nova Cuba. Ainda que dialogar com esse sentimento demande uma capacidade considerável de desprendimento da realidade, vale arriscar uma hipótese. Me parece que a maior parte da população brasileira, aquela que passa fome ou nutre-se do básico para sobreviver, aquela que tem seus jovens exterminados ou encarcerados todos os dias de todos os anos, aquela que não tem direito à saúde porque simplesmente o sistema público não dá conta de todas as demandas… bom, acho que essa parte da população brasileira não teria problemas se o Brasil virasse uma nova Cuba. A maioria da população latino-americana teria melhores condições materiais vivendo na ilha do que em seus países natais. Por outro lado, nossa digníssima classe média, que adora consumir todo o possível, adora viajar (até pra Cuba, como eu!), adora enfiar a cara no smartphone e postar cada segundo de sua vida cotidiana nas redes sociais, bom, essa passaria certa dificuldade.

Cuba não é um modelo a ser seguido. Mais do que isso, é um excelente espelho para refletir nossos próprios problemas, e especialmente para ter e mente que nada precisa ser como é. Se Cuba, uma ilhota na beirada do país mais poderoso do mundo e que nunca escondeu seu ódio pelo regime cubano, pôde por tanto tempo seguir um curso diferente, será que nós precisamos eternizar esse presente asfixiante pelo qual passamos? De minha parte, se antes era impossível voltar para Cuba, já que nunca havia estado lá, agora posso responder que o faria com prazer. Cada dia por lá é um aprendizado e uma porrada no estômago de quem vem de uma sociedade tão desigual, violenta e doentia como a nossa.

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