O lado mítico dos movimentos sociais

Por Sammer Siman

Um dos grandes êxitos dos regimes militares que se processaram na América Latina foi fazer refluir os movimentos populares associados a uma intelectualidade vigorosa que pensou nossa região a partir de sua condição de subdesenvolvimento e dependência nas décadas de 60 e 70.

Já a emergência dos novos movimentos sociais nas décadas de 70 e 80 surge de reclamações locais e imediatas e resulta numa reivindicação mais ampla por democratização política, perdendo, via de regra, o nexo com as determinações estruturais que historicamente condicionam a América Latina.

Jaime Osório em seu livro Explotación redoblada y actualidade de la revolución atribui duas razões ao abandono do referente estrutural: “por um lado, o justificado rechaço aos abusos que incorreu um marxismo vulgar que dava por certo que tudo se explicava pela economia e por outro a perda de uma perspectiva de totalidade de uma nova ciência social, que supõe que qualquer tentativa de buscar referentes nos processos econômicos é reducionista”. Eis o triunfo da pós-modernidade.

No entanto, décadas se passaram e é preciso, de modo urgente e irrenunciável, convergir as questões que se processam no âmbito dos movimentos sociais num projeto político comprometido com a totalidade. Se é verdade que há uma elevação de uma consciência social que se mobiliza positivamente por pautas consagradas por movimentos sociais, fato é que do ponto de vista estrutural a América Latina segue num quadro de grave dependência.

Sua economia encontra-se num padrão de especialização produtiva voltada para exportação de bens primários, a maioria de seu povo segue superexplorado e com um precário acesso aos bens essenciais para reprodução da vida. O quadro de informalidade só aumenta, a violência igualmente, e há um cenário de desesperança que se generaliza.

Mas como reagir a tudo isso?

O primeiro passo é fazermos um diagnóstico preciso, crítico e autocrítico. Se o que temos de mais potente hoje são movimentos sociais capazes de fazer frente a um conjunto de regressão de direitos e de colocar em marcha uma parte da nossa gente em prol de melhores condições de vida temos que reconhecer que tudo isso é limitado.

O lado mítico dos movimentos sociais é que eles podem existir e, por vezes, serem funcionais a reprodução de um sistema organizado pelo capital. Exemplo são movimentos de luta por moradia que ao mesmo tempo que assenta uma parte da população justifica políticas habitacionais que só fazem encher os bolsos de construtoras e alimentar a sanha dos capitais nas cidades, ainda que sua disputa se dê num sentido contrário.

O lado mítico dos movimentos sociais é que eles embutem em nós (e especialmente em sua militância) um sentido de que as coisas estão em processo de mudança. No entanto, se não damos um salto de qualidade para uma proposta totalizante e de caráter anti-imperialista o que estamos fazendo é “enxugar gelo”, gerir a barbárie, a exemplo de governos chamados de progressistas que guardam uma fé inabalável no capitalismo e no mítico Estado democrático de direito. Certo que a diferença de um para outro é apenas de verniz, provável também que o sono dos primeiros esteja melhor que os do segundo.

Estou com Pedro Otoni, ao dizer que cabe a nós construir um projeto de maioria. Do contrário, nos contentaremos com uma mudança aparente e seguiremos amargando cada sangue derramado neste cotidiano perverso de nuestra América.

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