Síria: presença russa é retrato da geopolítica mundial em transformação

Por Roberto Santana Santos* – em colaboração especial para o Brasil em 5

Nas últimas semanas mais um sinal de que a geopolítica mundial está em processo de mudança ocorreu. Pela primeira vez desde o fim da União Soviética, tropas russas entraram em combate fora de seu território. Atendendo pedido do presidente sírio Bashar al-Assad, a Força Aérea russa vem destruindo importantes bases do Estado Islâmico.

A ação deixou desnorteado o Ocidente, principalmente os Estados Unidos, país que se rogou desde o fim da Guerra Fria, o papel de “polícia do mundo”. O Estado Islâmico é criação norte-americana, na tentativa desesperada de se livrar do governo de Assad, de posição anti-imperialista e que não se ajoelha frente aos interesses estadunidenses.

A arrogância ocidental de se colocar como medidor da democracia alheia, apontando quais são os governos bons (seus aliados) e quais são os maus (os que não se submetem à sua política) armou o fundamentalismo islâmico – fraco até aquele momento na Síria; e criou essa monstruosidade que choca o mundo com seus vídeos de “barbarismo hightech”. Hoje, seria interessante o Ocidente mostrar onde está a tal “oposição moderada” à “ditadura” de Assad.

Os Estados Unidos diz realizar bombardeios em território sírio (não autorizados pelo governo Assad) há mais de um ano contra posições do Estado Islâmico. Curiosamente, no mesmo espaço de tempo o grupo terrorista só cresceu. A partir do momento que a Rússia entra no conflito, as tropas do Estado Islâmico entram em pânico e o exército sírio avança. A Rússia e o mundo têm o direito de acreditar que a pretensa ação antiterrorista norte-americana era uma fraude.

Obama indica então que enviará “tropas especiais” para agir no conflito. Não é para menos. A ação russa abriu o pior dos cenários possíveis para os norte-americanos: a possibilidade de ofensiva do exército sírio contra o Estado Islâmico e a derrota total do grupo terrorista com a ajuda russa. A guerra civil síria inventada pelos Estados Unidos tornaria-se um grande revés geopolítico. Assad sairia com grande prestígio. Poderia inclusive convocar eleições, permitir a participação da tal “oposição moderada” pró-ocidental e derrotá-la de maneira acachapante nas urnas.

Mais do que isso, a conjuntura que se desenrola na Síria nesse momento mostra que a intervenção militar internacional não é mais prerrogativa única norte-americana e deixa claro que a Rússia não permitirá a sanha imperialista do Tio Sam contra seus aliados (vide também a guerra civil na Ucrânia que permanece um impasse). Somado ao poder financeiro e de investimento chinês, e a posição política cada vez mais próxima entre Rússia e China, temos um cenário de contestação à hegemonia norte-americana no mundo. Tal processo ainda se encontra em momento inicial, mas seus indícios se tornam cada vez mais evidentes.

*Roberto Santana Santos é professor de História e militante das Brigadas Populares.

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