Pela libertação dos nossos corpos Pela soberania de nossos territórios.

Por Isabella Miranda

No último texto para o Brasil em 5 coloquei que as consequências da crise se manifestam no território e nos corpos das pessoas e desafiei a esquerda a mudar os termos da disputa política de uma disputa institucional, abstrata e distante da realidade do nosso povo, para uma perspectiva material, cotidiana e concreta.

Nesse mês foram as mulheres que romperam o isolamento entre as questões nacionais e as nossas relações com o corpo e o território nas lutas contra Eduardo Cunha, o ajuste fiscal e projetos de lei escabrosos do congresso nacional. Em Minas Gerais a tônica foi também a luta contra a aliança Estado/Capital que produziu mais um crime com o rompimento da barragem de Bento Rodrigues (Mariana) [1].

Compreender a crise no Brasil e no mundo hoje é percebê-la como a manifestação do avanço avanço do capitalismo dependente/ colonial sobre nossos corpos e nossos territórios. É feito da mesma matéria a dominação e exploração que se manifestam em Mariana, de onde escorre lama tóxica do crime ambiental produzido pelas empresas Vale/ Samarco/ BHP Bilinton, e o conservadorismo do Congresso Nacional, de onde as bancadas da bíblia e da bala criam leis que aprisionam e matam nossos corpos. Por isso, essa lama é “muito maior, muito mais tóxica e profunda do que qualquer crise institucional” [2].

Nesse contexto de avanço do conservadorismo e do neoliberalismo no país são as mulheres, em especial as negras e periféricas, as mais impactadas. São elas quem têm seus filhos e irmãos exterminados ou encarcerados, são elas que morrem por não ter condições de realizar o aborto em clínicas privadas, é o direito ao trabalho delas que mais se restringe e precariza com o desemprego e as terceirizações, para elas, a quem são atribuídas as atividades reprodutivas e o cuidado com a casa e filhos, é que os impactos dos deslocamentos, despejos e crimes ambientais são mais intensos.

Os feminismos Latino-Caribenhos vêm acumulando uma discussão riquíssima em torno da relação corpo-território que desafia os binarismos liberais corpo/comunidade, masculino/feminino, natureza/sociedade trabalho produtivo/reprodutivo. Entender os corpos das mulheres como o primeiro território da exploração e da dominação é compreender a natureza intrinsecamente patriarcal da dependência, do colonialismo e do capitalismo.

“Nuestros cuerpos han sido convertidos por el capitalismo patriarcal en territorios sobre los que deciden otros y sobre los que se construyen discursos que restringen nuestra libertad. Violencias soterradas y otras evidentes oprimen a nuestros cuerpos en el trabajo, en la calle, en la intimidad familiar, en la vida sexual, e incluso en la vida subjetiva y emocional. La heteronormatividad, el racismo, la división sexual y división social del trabajo, la explotación económica, la desvalorización de los cuerpos y sus energías, su reducción a simples fuerzas de trabajo o portadoras de trabajo invisible (trabajo reproductivo o de los cuidados, sin reconocimiento económico-social), el repudio a la discapacidad: son todas expresiones de los cuerpos como territorios «para otros», ajenos, lejanos, aunque sean nuestros!” [3].

Nesse novembro, mês da consciência negra e do combate à violência contra a mulher, a combatividade delas (mulheres, lésbicas, cis e transsexuais) resgata o nosso poder de resistência enquanto povo, a nossa capacidade de prazer e gozo, um posicionamento ético, econômico e político que questiona a Casa Grande, materialização do capitalismo dependente, racista e patriarcal brasileiro. Nesse momento histórico as lutas se materializam contra Cunha e o ajuste fiscal, mas em um sentido mais largo são pela nossa vida, em outras palavras, pela libertação dos nossos corpos e pela soberania dos nossos territórios.

[1] “Vivemos no último dia 05 de novembro uma tragédia socioambiental de repercussão mundial. O rompimento de uma barragem de rejeitos altamente tóxica na cidade de Mariana, Minas Gerais, Brasil, varreu a comunidade de Bento Rodrigues e deixou um saldo de pelo menos três mortos e 28 desaparecidos até o momento segundo informações oficiais, ainda que depoimentos apontem a existência de vários corpos e parentes reclamem a ausência de seus entes.” Por Sammer Siman.

[2] Post de facebook de Bruno Torturra no dia 09/11.

[3] Manifiesto Político del XIII EFLAC. Disponível em: http://www.13eflac.org/index.php/noticias/19-portada/59-el-manifiesto-del-xiii-eflac-esta-circulando-ya

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