Ecossocialismo ou bárbarie: questão de sobrevivência.

Por Sabrina Fernandes
(Conheça aqui nosso time de colunistas)

Si la naturaleza fuera banco, ya la habrían salvado.²
Eduardo Galeano

Como militante também em terras canadenses, estava compelida a escrever sobre a recente eleição federal que elegeu o liberal Justin Trudeau ao posto de primeiro-ministro, após quase uma década de triunfo catastrófico do Partido Conservador. Apesar da troca pelos liberais, parte do tradicional ritual canadense de alternar entre dois lados da mesma moeda, tudo indica que políticas catastróficas continuam no horizonte do Canadá.¹ Porém, a catástrofe que me leva a escrever hoje é ambiental e social e aconteceu no Brasil.

Inspirada pelo excelente texto do companheiro André Moreira publicado no Brasil em 5 ontem, resolvi ser rápida e direta: nossos tempos pedem o ecossocialismo, pois sem ele os nossos tempos serão os últimos.

Não pretendo entrar em detalhes sobre a tragédia da bacia hidrográfica do Rio Doce que impactou pesadamente e negativamente um dos mais importantes ecossistemas do nosso país por pelo menos 100 anos. Uma tragédia que matou gente, bicho, e flora e continuará a matar (talvez por mais de 100 anos se as devidas medidas não forem tomadas) devido ao alto nível de contaminação dos dejetos minerais, dentre eles o mercúrio. O que pretendo fazer é provocar brevemente, sobretudo a esquerda, sobre o que pretendemos fazer para evitar que esses episódios continuem a se repetir, sob o capitalismo ou mesmo sob experimentos socialistas produtivistas e industriais.

Mesmo que para Dilma seja necessário que “fique clara” a responsabilidade dessa catástrofe antes de qualquer ação, sem dúvidas protocolo necessário quando a responsável investiu milhões em sua campanha eleitoral, qualquer simples reflexão aponta para o fato que grandes corporações estão destruindo o planeta e levando junto nossas chances de sobrevivência. Todavia, as políticas que reproduzem estratégias e métodos de desenvolvimento que contribuem para esse sistema destrutivo nem sempre se dão no endosso direto de uma grande empresa.

É preciso pensar a sociedade e a produção em seu todo além da extração, da destruição, e da industrialização pesada da vida. Isso implica considerar não apenas a existência de grandes extratoras como a Vale (ou o que para alguns se resume à gestão privada ou estatal da empresa – o mesmo usado para o discurso negligente de defesa da Petrobrás), mas a forma como temos estruturado nossas lutas por direitos e reformas. Não é favorável, de uma perspectiva ecossocialista, defender cegamente empregos de trabalhadores nas grandes montadoras quando sabemos que o mundo precisa de menos carros. O importante é defender os trabalhadores em si, trazendo capacitação e investimentos diretos e tecnológicos para uma transição desde já para empregos mais “verdes.” Porém, enquanto o nexus revolucionário pode resignificar uma montadora de carros de passeio para uma verdadeira reorganização do transporte público na sociedade, setores como o de exploração de minérios e petróleo, os hidrelétricos, termelétricos e de energia nuclear com sua falsa promessa de energia limpa e sustentável, e a própria indústria bélica precisam morrer para que possamos viver.

Defender a existência de uma Vale a partir de uma falsa resignificação através da estatização compreende tanto um aspecto cínico e cego de parte da esquerda, como oportunista e irresponsável de outra parte (um dos buracos de minhoca da esquerda que mencionei anteriormente). Já estamos tarde nas ações por empregos “verdes,” realocação de investimentos públicos, e planejamento geral de uma profunda reforma nos meios produtivos (o que involve, certamente, direitos dos povos originários e inspiração em seu pensar sobre o mundo). Torcemos para que não estejamos tarde demais.


¹ Por hora, sugiro o artigo em inglês do companheiro Richard Fidler sobre o tema.

² Los hijos de los días, Siglo XXI, Buenos Aires, 2012.

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