Quem derrotará a direita no Brasil? (Parte 2)

Por Pedro Otoni

Pela segunda vez exploro a questão:“Quem derrotará a direita no Brasil?”.  Cabe ressaltar que a direita é uma expressão política, não homogênea, dos interesses dos “donos do poder”. Os agentes políticos identificados como “de direita” estão inseridos em um sistema competitivo estabelecido pelo setor social dominante (1% da população, proprietários de capitais estratégicos). Logo, disputam a possibilidade de administrar a gerência dos interesses desta minoria.

A chamada “onda conservadora” que assola o país, a meu ver, é resultado da competição entre os diferentes agentes de direita que procuram bases sociais com o objetivo de ocupar o centro do tabuleiro político, e com isso poder reivindicar para si a “gerência”. A direita está mais agressiva, não mais forte. A agressividade indica, entre outras coisas, a ausência da capacidade de dirigir (consenso + força) a sociedade, por isso o apelo, sobretudo, à coercitividade (força); os exemplos não faltam na atual agenda legislativa, tomada por projetos de lei “punitivistas”. Os setores conservadores e reacionários da política brasileira não dispõem de recursos políticos e ideológicos afirmativos necessários à mobilização de um sentido (esperança ou projeto) nacional, que envolva o conjunto da população. Tampouco, recursos econômicos suficientes para promoverem o apaziguamento “dos de baixo”, por meio da expansão de serviços públicos e a inclusão no circuito do trabalho-consumo.

A derrota da direita passa, ao que parece, por explorar seu elo mais fraco na conjuntura, sua incapacidade de estabelecer consensos sociais estratégicos. O enfrentamento à investida coercitiva atual é importante, mas ainda encontra-se no isolamento temático; não representa nenhum grave problema para os “donos do poder”, apesar de configurar, às vezes, como “pedra nos sapatos” da direita. Não obstante,  combater a dimensão coercitiva (opor-se à força) não nos exime de estabelecer a disputa no campo da coesão (criação de consenso).

Desafortunadamente, boa parte da chamada “nova esquerda” no Brasil parece seguir no caminho oposto; aposta na setorização, segmentação, identitarismo, no ranking de opressões.  Inercialmente, assume a “parte” como positividade, a singularidade como terreno de disputa. E, ao contrário da diversidade que anuncia, é homogênea e esquemática na forma de pensar: inflaciona o peso do “lugar de fala” e dos “corpos” e desqualifica o valor fundamental do pensamento, da fala e da prática (que deveria ser o critério de todas as coisas). Trata-se de um sistema essencialista e mecanicista – e por isso abstrato -, sua produção teórica não está lastreada na realidade (multideterminada), mas nos pressupostos estabelecidos de antemão – a identidade, por exemplo, que é um momento singular e instável do real -; que ao fim e ao cabo, nega a política. O resultado em termos orgânicos é a formação de agrupamentos undergrounds de caráter “sócio-cultural-identitário-vivencial-afetivo”. Porém, é preciso esclarecer: o underground, por definição, não disputa hegemonia, assim, não é capaz de apresentar uma solução para os problemas das massas. Esta limitação da “nova esquerda” se expressa no bloqueio à prática de alianças substantivas entre os diferentes setores oprimidos. Resultado: autofagia e dispersão.

Como indicado no artigo anterior, será uma maioria política de caráter popular o agente coletivo de cerco e aniquilamento dos conservadores e reacionários no Brasil. Porém, esta maioria só se constitui como tal na justa medida em que seja capaz de proceder como plataforma difusora e avalizadora de consensos cada vez mais amplos. Ou seja, que tenha aptidão em teorizar e agir na e pela totalidade.

Derrotará a direita os que sejam aptos a, como disse Pedro Tierra, “organizar a esperança, conduzir a tempestade”.

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