Por uma esquerda “assistencialista”

Por João Telésforo

Morena

Diante da crise da educação no México, o partido político MORENA decidiu investir metade do seu orçamento – do fundo partidário aos salários dos(as) parlamentares – para abrir oito Faculdades, em oito cidades do país.

Não faltariam militantes de esquerda no Brasil para tachar a medida, pejorativamente, de “assistencialista”. Para eles/as, a esquerda deve limitar-se a pressionar governos ou disputar o poder estatal para implementar políticas. Fazer diferente seria necessariamente, nessa perspectiva, desresponsabilizar o Estado e capitular ao neoliberalismo. Ou, na melhor das hipóteses, “perder” tempo e energia que deveriam estar sendo utilizados no “trabalho político” – algo que seria  restrito a atividades de agitação e propaganda, mobilização de rua, cursos de formação, disputa de aparatos representativos, etc.

O MORENA inicia a convocatória para inscrição em suas Faculdades com crítica ao estado da educação no México: a submissão a decisões de organismos internacionais (controlados pelos interesses de poucas empresas e países); a imposição de normas e sistemas de estudo que desconhecem a história e as identidades de comunidades e povos (em um país com 15 milhões de indígenas); “a decisão de submeter à ‘força do mercado’ todo o programa educativo”. E aponta as evidências do “fracasso da política neoliberal em educação”: redução de orçamento, perseguição a professores, controle do processo pedagógico por métodos limitados de avaliação e, finalmente, exclusão de milhões de pessoas do direito à educação, da infância à universidade.

Que fazer diante disso? Campanhas de comunicação,  marchas, greves? Claro. Mas os cidadãos e cidadãs que compõem o MORENA resolveram fazer também algo mais: construir, por conta própria, Faculdades, que serão geridas por associações civis com plena independência ante o partido.

Não há oposição entre essa iniciativa e a luta pela mudança da política de educação do Estado. Pelo contrário, a ação do MORENA não só contribui para dar visibilidade à contestação social e partidária à atual política, mas também para armá-la de um projeto político-pedagógico alternativo, posto em marcha concretamente. O próprio nome escolhido para algumas das Faculdades – “Escuela de Medicina Integral y Salud Comunitaria“; “Escuela Normal Intercultural Bilíngüe” – já inaugura essa disputa na prática. Não apenas anunciam outra educação, mas trabalham para mostrá-la, em ação. 

Não se trata de assistencialismo, mas de constituir o partido como meio de colaboração multitudinária, solidária e criativa, em antagonismo com a concepção liberal que reduz a política à representação de interesses atomizados, competitivos e egoísticos de indivíduos. O MORENA dá os primeiros passos, assim, para servir de instrumento não só de representação, mas de organização coletiva para construir saídas a problemas concretos da vida do povo.

Décadas atrás, de modo bem mais amplo e radical, o Partido dos Panteras Negras, nos EUA, desenvolveu vasto Programa de Serviços para o Povo, como o café-da-manhã gratuito para crianças, as escolas comunitárias (“Liberation Schools”) e inúmeros outros, de assistência de saúde à jurídica

UNEAFRO, União de Núcleos de Educação Popular para Negros/as e Classe Trabalhadora, é uma das iniciativas análogas que encontramos hoje no Brasil. Que as multipliquemos, construindo uma cultura política cujo cotidiano vá além do combo megafone + Facebook.

PS: Agradeço ao Fernando Nogueira pela indicação de fontes sobre os Panteras Negras, e acrescento que o objetivo deste texto não era fazer uma avaliação geral do MORENA, nem discutir de modo mais amplo o cenário político mexicano. Para isso, sugiro a leitura deste e deste textos de Diógenes Moura Breda.

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