#ForaDilma ou #DilmaFica?

Por Rodrigo Santaella

Há momentos na história em que surgem polarizações que, ainda que não sejam de todo falsas, são enganosas. A discussão sobre o impeachment da Dilma no Brasil parece ser um destes. Há algo comum entre os dois polos em disputa: a ideia tácita ou explícita de continuidade do sistema empresarial-oligárquico que rege o país. Entre os que advogam pelo impedimento, há uma ilusão – e má-fé – de que a saída da presidenta pode de fato transformar as coisas e melhorar o país, enquanto os que encampam sua defesa argumentam que sua saída, além de antidemocrática, pioraria a situação da população brasileira, abrindo as portas para o “retorno do neoliberalismo”. Nem um nem outro percebem as raízes do problema, e ambos apontam soluções que, ainda que pareçam antagônicas, caminham para a eternização do presente.

A turma do #ForaDilma, encabeçada por setores de classe média e organizações de direita, mas também com adesão popular, parece colocar na figura da presidente e no PT os responsáveis pelos problemas que considera mais graves no país: a incompetência e, principalmente, a corrupção. Com um debate absolutamente despolitizado, esquecem-se que a corrupção no Brasil é estrutural, relacionada diretamente ao sistema político oligárquico-empresarial que tem o financiamento empresarial como base material, a troca de favores como método cotidiano e o marketing político como forma de exposição. Eduardo Cunha é a caricatura desse sistema, e essa turma não tem vergonha de estar a seu lado e possivelmente articule sua salvação em troca da garantia do impeachment, mesmo que retoricamente o siga criticando. É o cúmulo da hipocrisia. Quem lidera as manifestações deste polo não se atreve a questionar os fundamentos desse sistema político porque, basicamente, eles são seus principais beneficiários, e não saberiam o que fazer em um sistema verdadeiramente democrático. Por fim, é uma turma que tem pouco apego à democracia: para eles, é melhor tirar a presidente de qualquer jeito, independente de como e daquilo que virá depois. O importante é exprimir toda a raiva contra a política que, em toda sua seletividade, tem o PT como alvo.

Por outro lado, a turma do #DilmaFica é formada pelo que restou da base social do PT, por algumas organizações de esquerda e movimentos importantes que ainda orbitam em torno deste cadavérico projeto. A defesa da democracia e a crítica à tentativa de golpe aqui se confundem com uma defesa do próprio governo. Ainda paira a certeza de que agora, finalmente, depois de tudo o que aconteceu, é preciso defender a presidenta para que, devidamente alertado pela conjuntura e pelas manobras de Cunha, o governo finalmente pare de aplicar políticas de ajuste neoliberal e de retirar direitos dos trabalhadores. Esquecem-se, porém, que o modelo de desenvolvimento aplicado pelo PT está esgotado, e que o país perdeu uma oportunidade histórica de avançar, de politizar-se, de efetivar reformas estruturais, justamente porque o PT adequou-se ao sistema oligárquico-empresarial, resolveu jogar as regras deste jogo ao invés de virá-las de cabeça para baixo, e assim acabou tornando-se muito parecido com seus antigos adversários. O PT jogou um projeto possível de esquerda para o país no lixo da história por muito tempo, e fez isso ao tornar-se apenas “mais um”. Revirar o lixo não é solução. Por isso, quem defende a permanência da presidenta achando que o projeto petista ainda pode fazer o país avançar, engana-se muito.

O fundamental, em ambos os polos, fica de lado: a transformação do sistema político oligárquico-empresarial, única maneira de abrir caminho para reformas estruturais no país. Tanto os que criticam honestamente o PT por ter aderido à lógica da corrupção, por retirar direitos dos trabalhadores, pelo estelionato eleitoral, quanto os que defendem a democracia e veem com clareza a intenção golpista e o oportunismo direitista por trás de um frágil pedido de impeachment deveriam centrar fogo naquilo que é mais importante. No âmbito do sistema político, a única saída para impulsionar uma transformação estrutural no país é forjar regras verdadeiramente livres e democráticas, populares e não oligárquicas e empresariais, e a partir dessas regras eleger novos representantes para todas as esferas. Isso, assim como as reformas estruturais necessárias, só virá com o povo nas ruas. Não pelo impeachment, nem para defender o governo, mas sim para derrubar o sistema político que nos aprisiona e imobiliza. Seu principal rosto hoje é Eduardo Cunha mas, junto com ele, é preciso derrubar toda a estrutura que o sustenta e da qual ele é o representante número 1.

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4 comentários sobre “#ForaDilma ou #DilmaFica?

  1. Marcos Vieira 05/12/2015 / 21:06

    Um problema frequente que me tira a paciência nesse tipo de texto que se propõe a criticar os dois lados de um determinado conflito é que para fugir de uma falácia eles incorrem em outra.

    A falácia cuja rejeição fundamenta esse tipo de texto é a de que um dos lados está 100% certo, e o outro, 100% errado. Isso não é verdade, claro, e qualquer pessoa com a cabeça no lugar sabe que é preciso fazer também a crítica a quem defende o governo (seja quem defende o governo em si, seja quem defende a legalidade).

    O problema é que, depois de rejeitada essa falácia, tende a vir, explícito ou implícito, um ponto de vista que é isento na aparência mas quase sempre tão falso quanto a falácia inicial que se quis rejeitar: o de que os dois lados estão certos e errados na mesma proporção.

    A despeito de todos os defeitos da Dilma, do PT, do #DilmaFica, etc., é um dever de quem se diz de esquerda se posicionar claramente em um dos lados dessa questão. Com todos os defeitos, quem está com a razão nessa questão é o DilmaFica e é preciso dizer isso claramente (coisa que o autor não faz). Comparados com as consequências de um impeachment ilegal, os defeitos e limitações do governo e dos seus defensores são secundários, por maiores que sejam. Tomar uma posição clara favorável a um dos lados não é a mesma coisa que ignorar as contradições e defeitos dos envolvidos.

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    • Rodrigo Santaella Gonçalves 09/12/2015 / 22:57

      Oi Marcos, copio aqui a resposta que fiz pra seu comentário no Facebook, e que você já leu, só pra deixar registrado! Abraços.

      Marcos Vieira, tudo bem?
      Não vou escrever uma longa resposta porque não tenho tempo agora, mas podendo seguir debatendo depois. De qualquer forma, acho importante esclarecer pelo menos dois pontos dos comentários que você fez sobre o texto.
      Primeiro, de forma alguma eu me proponho nesse texto ser ‘isento’ ou ‘imparcial’. Nem na aparência nem na essência nem em nada. É óbvio que há diferença entre os dois lados dessa polarização, mas o que eu quis pontuar no texto são as semelhanças: ambos, de uma forma ou de outra, pregam a continuidade do mesmo sistema oligárquico-empresarial.

      O que nos faz chegar ao segundo ponto: esse governo é absolutamente indefensável pra alguém que se diga de esquerda. Aplicou o programa de seus adversários – um ajuste neoliberal -, retira direito dos trabalhadores, lei antiterrorismo, alianças as mais diversas, etc etc etc etc. Pra mim, a obrigação de alguém de esquerda é não cair na falácia do golpismo, ou seja, denunciar efetivamente que a proposta de impeachment flerta com o golpismo, e por outro lado não iludir-se com a defesa de um governo que a cada dia se torna menos defensável.

      A posição é muito clara: sou contra o impeachment, mas não saio em defesa do governo. O que tem que mudar e mobilizar as pessoas é a transformação do sistema como um todo, não a defesa do mandato da presidenta. Esse é o ponto do texto.

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  2. Graciete da Hora 07/12/2015 / 18:52

    É por aí. Aplaudo de pé.

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    • Rodrigo Santaella Gonçalves 11/12/2015 / 16:39

      Obrigado, Graciete!

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