Anticomunismo: um espectro ronda o Brasil?

Por Edemilson Paraná

Quem costuma frequentar livrarias tem notado um fenômeno curioso nos últimos meses: há, em especial nas grandes redes, uma proliferação de obscuros e duvidosos títulos anticomunistas (para além, naturalmente, da já antiga profusão de textos classificados como liberais e conservadores). Não parece ocasional: ao menos desde os primeiros anos pós grande crise financeira de 2008, vive-se no Brasil e no mundo um tempo estranho, desses em que o ódio político despe-se de sua tradicional máscara de cinismo cotidiano para, orgulhosamente, sair à luz do dia, nas ruas, publicações e meios de comunicação. Não se trata de algo novo. Já assistimos cenas desse mesmo filme de terror em outros momentos históricos.

De qualquer forma, não deixa de intrigar: o que justifica um visceral anticomunismo em um tempo marcado pela quase ausência fática de horizontes comunistas? Como explicar a atenção dada a uma anti-agenda quando, por N razões, a agenda a que se pretende combater simplesmente não está posta como possibilidade iminente? O que possibilita, nesse contexto, que lunáticas posições como “os governos do PT estão implantando o comunismo no Brasil” ganhem alguns minutos de fama?

Em tempos de crise, desencanto e tensionamento, ainda que difuso e fragmentário, à ordem vigente de coisas (a ser, na situação corrente, o forçado “consenso” neoliberal que caracteriza a agenda social, política e econômica mundial ao menos desde a queda do Muro de Berlim), é natural que os ânimos esquentem à direita e à esquerda; pois típico da busca por saídas do atoleiro em questão. Há um certo equívoco na tese da “onda conservadora”; como toda “meia verdade”, é uma mentira. Isso porque se é correto dizer que a extrema direita cresce (ou mostra os dentes), também é notável certo recrudescimento da resistência popular, de greves e lutas sociais, e até mesmo o surgimento de novos setores de esquerda (pouquíssimos deles, é certo, reivindicando abertamente o comunismo). Tudo somado, aquele velho conto da carochinha sobre a política pós-ideológica, “sem esquerda e sem direita”, perde completamente o sentido em momentos de arrocho.

Ainda que o jogo siga em aberto, e, ao menos até aqui, sem um futuro muito animador para as esquerdas, é previsível, no entanto, que uma aliança tácita entre o estado de coisas vigente e a regressão social se forme em vias de um combate à qualquer coisa que cheire a mais democracia, igualdade e justiça social; e que possa, inadvertidamente, ganhar algum espaço no cenário político já instável. Novamente, já vimos esse filme. O casamento entre conservadorismo (ou fascismo) e liberalismo não é novo, como já nos demonstrou com maestria Dominico Losurdo. A diferença, repito, é estarmos em uma conjuntura em que a esquerda, em especial no Brasil, se mostra muito menos sólida e desafiadora à ordem que outrora. Há algo de sombrio para o futuro nesse diagnóstico: sem uma gramática política transformadora, cresce o risco do descontentamento generalizado se converter em ódio social de massa.

Ainda assim, se parece um pouco difícil explicar esse fenômeno sem recorrer, parar lembrar o velho Einstein, à quase infinitude da estupidez humana, uma coisa é certa: sendo o socialismo e o comunismo coisas boas ou não, a depender dos pontos de vista, é certo que o anticomunismo sempre representa grande atraso. Sob tal bandeira, produziram-se os mais atrozes retrocessos políticos e sociais já vivenciados pela humanidade.

Portanto, tenha você apreço ou não pelo ideário comunista, é muito provável que sua vida piore sob o julgo regressivo da paranoia anticomunista. Assim o foi, como sabemos, no persecutório Estados Unidos macartista, nas sangrentas ditaduras latino-americanas, e nos períodos de fascismo na Europa; para não falar dos massacres e eliminação física das oposições de esquerda no Oriente Médio, na África e nos vários países asiáticos. Por mais contraditório que possa parecer, é do interesse de qualquer democracia liberal burguesa “saudável” que haja setores de esquerda minimamente fortalecidos na disputa e configuração de um ambiente político plural e, ainda que precariamente, legítimo.

É que se a agenda comunista é aberta e polissêmica em seus significados e significantes históricos, sempre em disputa e construção, o anticomunismo abre pouco espaço para boa “ambiguidade” que caracteriza a disputa democrática de ideias e discursos: é sinônimo direto e inquestionável de déficit democrático e de negação da participação popular na vida social, de desrespeito aberto à vasta gama de direitos ambientais, coletivos e sociais, individuais, de minorias.

Não há para onde ocorrer. Eis a vida política como ela é. Seja você simpático ou não ao ideário do comunismo, é certo que terá, em algum momento, de resistir a um anticomunista obscuro disposto a meter a colher naqueles seus direitos à duras penas conquistados por gerações anteriores. Nessa hora, não se espante, é provável que um comunista esteja do seu lado.

Coxinhas

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