O casamento arranjado entre liberalismo e conservadorismo.

Desde a época do ensino médio, escutamos com frequência que não há nada mais liberal que um conservador no poder, ou, nada mais conservador que um liberal no poder. Normalmente, essas frases de efeito são utilizadas para ilustrar uma certa semelhança entre governos que se sucederam com plataformas distintas tanto na história do brasil, quanto na de outros países, como os EUA, a Inglaterra, Portugal, dentre outros. Mas pouco se discute esta semelhança, já que, pelo menos aparentemente, são plataformas com muitas diferenças. E com defensores ferrenhos de cada um dos lados. O liberalismo, cujo mote principal é o avanço e aumento dos direitos individuais, contrapõe-se ao conservadorismo, que prega mais respeito aos valores tradicionais associados à família, à igreja e outras instituições que nos remetem mais a uma lógica estamentária: cada um no seu quadrado.

Acontece que essas coisas andam juntas. Só não andam quando naturalizamos ou temos como pano de fundo teórico o capitalismo. Se assim o fizermos, pode-se arguir que há uma disputa entre elites sobre o lado para o qual o pêndulo deve tender. Mas quando entendemos a sociedade capitalista como uma dentre várias outras possibilidades, percebemos que o individualismo liberal e os fundamentalismos conservadores são frutos da mesma árvore.

Veja que numa sociedade empresarial e industrial que se ancora mais nos valores que potencializam o fazer-se do indivíduo, todos os laços sociais se submetem ao desejo-autêntico, à vontade-única e ao dom-vaidoso de cada um de nós. Esse liberalismo dificulta o estabelecimento de vínculos pelo solipsismo cultural e social que gera. A “liberdade” se reveste de um argumento que permite tudo e, assim, acaba tendo dificuldades em encontrar limites. Seja dentro de si própria, seja fora, já que enxerga nos outros uma barreira para o próprio realizar-se e, dentro de si, uma potência inigualável daquilo que lhe traz felicidade.

O problema é que uma sociedade capitalista não se reproduz sem um excesso de mão de obra e, por isso, um excedente populacional mínimo. Ninguém fica rico e se destaca no capitalismo se não existir uma grande parcela que simplesmente trabalha por sobrevivência. E os capitalistas ganham mais quanto menos pessoas iguais a ele existam ou quanto mais pessoas estejam necessitando trabalhar para sobreviver. Ou seja, no capitalismo, só se pode “ser o que realmente queremos ser” quando muitos outros são obrigados a serem tudo aquilo que não queremos. Esse último grupo de pessoas precisa reproduzir (família), precisa ser apaziguado (religião) e precisa se sentir parte de um projeto mais amplo que justifique minimamente aquela exploração vivida diariamente (nacionalismo). Como disse um conservador estadunidense recentemente: eu sou um cristão em primeiro lugar, um americano em segundo, um conservador em terceiro e um republicano em quarto.

O conservadorismo possui, claramente, traços de um tipo de comunitarismo – ainda que tradicional – necessário ao liberalismo e à realização dos anseios daqueles poucos que tem o privilégio de se ocuparem com as crises existenciais pequeno-burguesas. O que me parece derivar do pouco falado, mas nao menos existente, egoísmo cristão. Aquele papo de que Deus tem um plano para cada um de nós. E de que cada pequeno sofrimento nosso tem razão para ser. Quem não sofre no cristianismo, não conhece o caminho – e o suplício – de Deus. Com as devidas diferenças entre a culpa-católica e a dádiva protestante, ambas são ideologias que justificam a submissão, o sacrifício em troca de um bem maior e a auto-realização das possíveis redenções.

Isso é claramente perceptível em países do capitalismo mais-desenvolvido, como os EUA. Lá, partidos como o Democrata e o Republicano trocam farpas a respeito dos valores que cada um defende, sem, no entanto, afetarem o establishment. As atuais eleições estadunidenses parecem ser uma lição cuidadosamente preparada e didática sobre a democracia liberal no estágio atual do capitalismo. E, nela, percebe-se a semelhança inegável entre os discursos liberais e conservadores. Neste momento, tanto o partido Democrata quanto o Republicano estão com problemas internos já que cada um deles possui um candidato com reais chances de vitória que simplesmente joga fora o status quo.

De um lado, tem-se Donald Trump, que faz piada das eleições como que para mostrar que basta um bilionário aprender a fazer cena e aparecer na mídia que ele consegue comprar até a cadeira mais alta da casa branca.

Do outro, tem-se um candidato como Bernie Sanders (atual opositor de Hillary Clinton nas primárias do partido democrata), que se diz socialista. Ele pretende estabelecer universidade publica e gratuita, saúde universal e um sistema de aposentadoria mais justo. Tudo isso com dinheiro dos mais ricos e punições aos banqueiros pela crise de 2008. Todos os blogueiros, jornais e até o atual Presidente Obama estão assustados com o avanços desses dois candidatos que – sem querer querendo, expõem o verdadeiro acordo que rege essas “democracias” no mundo capitalista. Permite-se discutir e decidir tudo. Desde que, no fundo, as coisas possam permanecer exatamente como estão.

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Kim quer ser um milionário? E nós, o que queremos?

Por Rodrigo Santaella

O anúncio de que Kim Kataguri, principal liderança do “Movimento Brasil Livre” seria colunista da Folha só não gerou mais repercussão negativa do que a divulgação de seu primeiro texto. Kim, em toda sua juventude e vigor, traz posições políticas das mais elementares da direita tradicional no país e no mundo com relação a manifestações em geral, têm bastante dificuldade de manter a coerência interna em um texto curtíssimo e, para fechar com chave de ouro, inventa fatos, ou seja, mente. A contratação de Kim não foi surpresa, como afirma Boulos, mas o mais surpreendente seria vê-lo sendo tratado como representante do “novo”. Bom, é óbvio que não se trata disso, mas vale aprofundar um pouco as reflexões geradas a partir de todo esse debate.

Em tudo isso, Kim Kataguri é o que menos importa. Baseado em seus pressupostos fundamentados em um liberalismo tosco e arcaico, e nos mais-genéricos-impossível princípios do movimento que lidera, Kim provavelmente só busca um lugar ao sol. Quer chamar atenção, de alguma forma ganhar dinheiro com isso. Kim só quer ser um milionário, e o salário que vai ganhar na Folha talvez faça parte desse plano. Para aqueles que buscam a transformação radical do estado de coisas em que vivemos, o fundamental é pensar o que representa a presença de um garoto despreparado de 19 anos, representante de ideais arcaicos e conservadores, no jornal de maior circulação do país. Kim pode não ser representante do novo, mas é preciso compreender melhor o que significa essa “roupa nova” que foi dada ao velho.

Depois de junho de 2013 no Brasil, abriu-se um espaço grande para a transformação das forças políticas e para o surgimento de outros tipos de organização, que só foi aprofundado pela crise política que se agravou. A direita e o centro parecem, mesmo que de forma difusa, ter percebido isso, e daí surgiram novas formas organizativas, mesmo pautando velhos programas. O MBL, Vem Pra Rua, a Rede, o Partido Novo, etc., são expressões de diferentes novas formas organizativas que vão da direita ao centro, e que conquistam muitos adeptos a partir de sua nova roupagem. Kim na Folha, a despeito de seu despreparo individual e de suas ambições pessoais, é a expressão mais óbvia e caricatural disso. Nós, por outro lado, não demos conta de perceber a necessidade de autotransformar-se, e insistimos nas mesmas fórmulas, nos mesmos modelos de organização, nas mesmas alternativas. Transforma-se aqui e ali, mas ao final parece tudo muito igual. Nós não mudamos, sequer, nossa roupagem. Quando movimentos de esquerda ou progressistas relevantes e inovadores surgiram nesse meio tempo, foi em geral à revelia das organizações de esquerda.

Para dar conta dos desafios que a conjuntura atual nos impõe, no Brasil e no mundo, para potencializar o que há de realmente novo e incipiente na política e ser parte disso, a esquerda precisa transformar-se de muitas maneiras. Precisamos ser mais abertos e dinâmicos do ponto de vista organizativo, ao mesmo tempo mais fraternos do ponto de vista das relações entre nós. Precisamos de um programa atualizado, que dê conta de aliar à sério e no calor das lutas a crise ambiental, combate às opressões, à luta clássica da esquerda revolucionária contra o capital. Mas mais do que isso, precisamos que esse programa se materialize no cotidiano das pessoas exploradas e oprimidas, que seja parte desse cotidiano que se transformou muito nas últimas décadas.

Enquanto tivermos medo de refletir livremente sobre as mudanças necessárias em nossas próprias organizações, utilizarmos nossos poucos espaços de visibilidade para digladiar-nos e acreditarmos que é suficiente ser uma direção iluminada e correta nas análises, indivíduos que em outro cenário teriam pouca relevância como Kim Kataguri seguirão fazendo barulho e tendo mais espaço do que gostaríamos na sociedade.

quem quer ser um milionario

Dez golpes de direita do governo Dilma Rousseff

Por João Telésforo

Inconstitucionalidade é pouco. Vamos ter que inventar outro nome jurídico para qualificar a absurdidade da lei que segue abaixo, sancionada pela Presidenta da República. Um passo rumo ao tempo do Império, quando o Estado brasileiro tinha uma religião oficial, ainda que “tolerasse” cultos privados de outras fés.

Então, vejamos. Nos últimos dias, o governo Dilma:

1. Nomeou para a Secretaria de Saúde Mental um psiquiatra que é opositor à reforma manicomial e dirigiu por dez anos o hospício Dr. Eiras, ‘casa dos horrores’, ‘fechado em 2012, dois anos depois de ordem da justiça para que as atividades no local fossem encerradas, devido a uma série de denúncias das condições sub humanas em que os internos viviam’;

2. Vetou Lei que ampliava o direito dos povos indígenas de uso de suas línguas em escolas e universidades – sim, a Presidenta foi à direita do “Congresso mais conservador da história”;

3. Vetou a previsão do Plano Plurianual, aprovado pelo Congresso (por esse Congresso), que instituiria uma comissão no Ministério da Fazenda, com participação social, para realizar auditoria da dívida pública;

4. Sancionou Lei que promove violação grotesca à compreensão mais basilar do princípio republicano da laicidade do Estado, instituindo o “Dia Nacional da Proclamação do Evangelho” (quem entrará no STF contra esse despautério?);

5. Anunciou que vem aí mais precarização contra os trabalhadores, na contra-reforma da Previdência.

Lembrando que, no ano passado, o governo Dilma:

6. Fez cortes no seguro-desemprego e outros direitos trabalhistas (a vaca morreu de tossir);

7. Cortou severamente o orçamento de políticas sociais (educação, saúde, moradia, etc);

8. Enviou para o Congresso o Projeto de Lei de “criminalização do terrorismo”, aprovado sem qualquer contexto que o justificasse sequer vagamente, e que interessa somente a quem busca novas possibilidades de endurecimento da criminalização contra manifestações sociais e organizações populares (instaurando risco de que sejam mal enquadradas como “terroristas”, se a conjuntura esquentar).

9. Seguiu aplicando o raio privatizador a diversas áreas do Estado, aprofundando-se na lógica neoliberal de desmonte e captura das instituições públicas por grandes corporações privadas. “A solução é alugar o Brasil”?

10. Aumentou seguidas vezes a taxa básica de juros, o que gera sangria violenta de recursos públicos para as mãos de bancos e grandes rentistas. Na hora de remunerar banqueiro, não tem “ajuste fiscal”. Ou melhor, a retórica do “ajuste fiscal” serve (in)justamente como pretexto para isso.

É verdade que setores da direita tentam dar um golpe mediante pedido de impeachment sem fundamento jurídico. Já ficou óbvio também, no entanto, que outro amplo setor de conservadores (e) do grande capital utiliza caminho diverso para golpear o povo com cada vez mais força: a aliança com o PT e o governo. Duas táticas que seguem fortalecendo uma à outra, enquanto vão debilitando cada vez mais nossa combalida democracia.

Ainda em 2011, ficou claro que o primeiro governo Dilma era de centro-direita. O segundo deu uma guinada, mas para ser abertamente reacionário. “Os diques, como advertia Maquiavel há cinco séculos, não foram preparados, e a maré conservadora agora assola as planícies e o Planalto brasileiro”, analisava Pedro Otoni em texto de abril neste Brasil em 5.

Ante o seu nanismo de virtude política, o governismo seguirá alegando que a Presidenta e o PT são meros reféns do Congresso – ainda quando, a toda evidência, os golpes partem sobretudo do Executivo. E apontará para Lula ou mesmo Ciro como supostos salvadores, fechando os olhos para a crise sistêmica dessa velha política de capitulação à Casa Grande, à sua sanha de sugar sempre mais sangue e suor do povo preto e pobre do Brasil.

5 lições da vitória da Ocupação Vila Soma!

Por Vitor Hugo Tonin

A discreta cidade de Sumaré viveu um clima de intensa angústia e apreensão durante esta última semana. Uma tragédia de proporções inimagináveis era esperada para domingo (17), mas transformou-se numa vitória que estabeleceu novos precedentes na luta por moradia no Brasil. Isso porque a suspensão provisória da reintegração de posse foi emitida pela mais alta corte do país com uma interpretação extremamente progressista. (Veja aqui e aqui).

Movidos pela necessidade de compreender por que perdemos e onde erramos. Preocupamo-nos em realizar a análise mais objetiva e totalizante quando somos derrotados. Mas essas análises, quando corretas, nos apresentam apenas o que não devemos mais fazer. No limite, estabelece novas hipóteses, novas apostas políticas que devem ser levadas a cabo para o definitivo critério da verdade: a prática. Mas as análises das vitórias nos dizem muito mais! Dizem o que está certo. Indicam onde aprofundar o trabalho e em que estilo.

  • Não tem atalho! É necessário deixar a preguiça de lado, colocar as teorias bem formuladas a aparentemente precisas no seu devido lugar e juntar-se ao povo num trabalho de base persistente, disciplinado e elaborado, como já bem formulou Fernando Nogueira neste blog (aqui!).
  • Na resistência, ampla unidade! Cada organização precisa ter humildade para assumir sua real posição política na atual conjuntura. Isolar uma luta, não procurar apoios, porque vem deste ou daquele governo, deste ou daquele partido, enfraquece a chance de vitória. De outro lado, negar o apoio a tal luta porque não é a minha organização que está na direção, porque não está sob a batuta de meu movimento é demonstração clara de mesquinhez e de corrosão da prática política. Arriscar a vitória por isso é não compreender sua capacidade irradiadora e mobilizadora.
  • A correlação de forças na luta urbana se altera! Há uma diminuição na velocidade de expansão do capital imobiliário. Há quem diga que existe uma depressão e até uma crise neste setor (aqui). Isso diminui a pressão do capital sobre a propriedade privada da terra urbana e eleva a possibilidade da vitória das ocupações. Por outro lado, a elevação da superexploração, do desemprego, da carestia tendem a elevar o perfil da resistência das famílias na luta pelo direito à moradia.
  • Explorar (e expor) os limites da democracia restringida brasileira! A democracia brasileira é a forma de dominação construída pela velha classe dominante. Mas é um terreno mais adequado que outros que se apresentam como possibilidades concretas na atual conjuntura, devido as brechas para o aprofundamento da luta de classes. Ainda há muito espaço para acumular forças no atual arranjo jurídico-político. Por isso, o impeachment, ainda que seja um cenário improvável, não contribui.
  • Inventamos ou estamos perdidos. Toda semana surgem novas ameaças de despejo. Eleva-se a pressão do aluguel, da inadequação habitacional, da corrosão da renda. É o velho problema nacional: o limite das possibilidades que o capitalismo dependente, seja sob a direção do PT ou do PSDB, oferece de aos/às trabalhadoras/es é estreito. Ou construímos um novo projeto desenvolvimento nacional que tenha por estratégia superar definitivamente o subdesenvolvimento ou seremos obrigados a continuar engolindo o menos pior.

As vitórias nos ensinam. Colocam novas tarefas e reafirma antigas ainda não terminadas. Sem etapas. Não se pode renunciar às potencialidades e exigências de um determinado tempo histórico.

Militância e depressão

Por Sabrina Fernandes

A esquerda sofre de uma série de problemas, e há dificuldade para falar de muitos deles. As críticas que são cada dia mais necessárias pesam para seus locutores. Os turbulentos relacionamentos de dentro da militância, repletos de ad hominem, quebram pontes de diálogo e, principalmente, confiança. As fofocas e o desdém, empoderados tanto pela opressão individual e coletiva daquelas pessoas já marginalizadas na sociedade, também atingem os considerados privilegiados pois são vistos como eternos beneficiados do sistema. Falta sensibilidade para todos os tipos de dor. Falamos de opressão de gênero, orientação sexual, racial, étnica, cultural. Firmamos que a exploração de classe determina todos os aspectos de nossa vida. Reconhecemos a opressão aos corpos nas suas expressões como a gordofobia, a objetificação racista e a limitada construção da beleza dominante. Mas e a opressão às mentes? Por que há tanta dificuldade de reconhecer a subjetividade da dor na militância? Justamente no meio onde a solidariedade deveria ser o motor chave dos relacionamentos.

Com frequência saem estudos afirmando a inegável conexão entre o capitalismo e as doenças mentais, em especiais os transtornos de ansiedade e depressivos. Mesmo antes de tantos estudos acadêmicos, publicações tão antigas quanto as de Durkheim no assunto indicavam que o suicídio não era um fenômeno individualizado, como a sociedade neoliberal tenta nos fazer crer ao isolar causas e resultados. Ao contrário, o suicídio egoísta se torna cada vez mais viável e contagioso com a neoliberalização da responsabilidade. É também relacionado à pouca integração ou ao isolamento. Enquanto estas são consequências diretas das expressões de subordinação do capital, patriarcado, supremacia racial, hetero/cisnormatividade, e outros, o re-enforço do isolamento da pessoa ansiosa e depressiva em um ambiente que deveria ser, em teoria, essencialmente acolhedor, nutre a atual incapacidade do ambiente da militância política de esquerda de curar a dor em vez de adicionar stress e culpa a ela.

É grande o número de pessoas ao meu redor que se encontram afastadas da luta diária por conta de depressão. Com isso, passei a me perguntar quais elementos causam ou agravam um quadro de depressão na militância. A frustração com a luta em um momento de ultra-política, de pequena política, e de fragmentação organizacional por si é capaz de se desenvolver em algo maior e crônico. Ouvimos muito que 2015 foi um ano muito difícil para a luta, mas não há garantias de que 2016 será melhor. Pode ser muito pior, já que há uma crise tanto política quanto dentro da esquerda que dificulta a união de forças e, sobretudo, a formação de sínteses. Problemas para todos os lados criam um ar belicoso, em que os poucos recursos sinalizam uma certa disputa sobre qual bandeira é mais importante (e qual método é o mais correto). E o que por vezes fica para trás é que são pessoas de carne e osso fazendo essas avaliações, ao mesmo tempo que lidam com tantos outros pesos como o do sustento, problemas familiares, crises de relacionamento, trabalhos estressantes, e outras doenças de saúde. Militar requer sacrifício, mas este sacrifício deve ser sempre avaliado em relação ao que aquela pessoa pode suportar. É desleal cobrar o mesmo de todos, assim como é desleal julgar o que se pode cobrar de um ou outro baseado no que vemos por fora. Todo sacrifício ou esforço não deve ser cobrado, pois o equilíbrio necessário entre sacrifício para a luta e saúde mental provém da dádiva que a militante deve avaliar de acordo com as suas condições.

Militar pode sim quebrar uma pessoa, seja por tentar fazer tudo junto sempre, ou por conta dos desafios encontrados no pouco diálogo e nas muitas brigas infrutíferas que encontramos na competição de pautas. O identitarismo e o capacitismo que identificamos nas organizações de esquerda são exemplos dessas práticas.[i] Pode também ser que a pessoa se quebre por outras razões, mas a falta de apoio, assim como a psicofobia disfarçada de exigência por conta da conjuntura, podem tornar o ambiente de militância tóxico e prolongar afastamentos (talvez até permanentemente). O auto-cuidado está em falta e é preciso saber restaurá-lo. Não adianta repetir mantras de uma revolução com amor, com ternura, e não praticá-los. Reconhecer que militantes podem adoecer de maneiras invisíveis e também reconhecer esses sinais é o primeiro passo a se dar.

[i] Identitarismo: a política de identidade se encaixa no âmbito liberal da individualização das experências, as quais são vistas como isoladas ou em somatória para um eventual cheque-mate preguiçoso na disputa de fala e crítica. “Eu sou isso e minha voz deve ser empoderada cegamente ante a sua” pode causar desconforto e até flashbacks para pessoas cujas experiências de opressão são desconhecidas para o outro. Nem toda mulher estuprada ou homossexual espancado no passado querem anunciar essas experiências para o mundo. Portanto, quando outra/o militante se julga mais oprimido pela sua posição marginalizada ante a estrutura para silenciar a/o outra/o que é tecnicamente mais privilegiada/o, resulta uma comparação indesejável (e absolutamente improdutiva) que pode ter consequências dolorosas quanto a feridas escondidas porém abertas.

Capacitismo: pessoas com depressão possuem baixa auto-estima e têm dificuldade de se sentirem incluídas. Pessoas lidando com outros desafios (como ser mãe solteira, um parente doente, ou acabou de perder o emprego) também tendem a perder auto-estima e precisar de maiores apoios. Mesmo sendo certo que muitos dos momentos chave de nossa conjuntura requerem dedicação quase que integral da militância, as condições de cada pessoa devem ser sempre levadas em conta de forma que o tempo que elas dedicarem seja sim uma doação e não resultado de cobrança.

[ii] Lembro a todas que a proposta do Brasil em 5 consiste em textos que devem caber em uma leitura de 5 minutos. Portanto, a intenção deste texto é de apenas provocar uma discussão que merece muito mais dedicação.

 

A Nova República acabou na Paulista

Por Roberto Santana Santos*

Nos últimos tempos, muitos intelectuais vêm apontando o esgotamento da Nova República, atual período da história brasileira que começou em 1985, com o fim da Ditadura. Essa análise não significa bater o martelo e decretar o fim de um período histórico, mas sim, a capacidade de refletir que chegamos ao limite do modelo de “conciliação” de classes da Constituição de 1988.

As três principais forças partidárias (PT, PSDB e PMDB) já passaram pela presidência da República. Nenhuma delas foi capaz de apresentar um projeto de nação que resolvesse os problemas estruturais do país. Nenhuma delas, e esperava-se isso do petismo que se reivindica de esquerda, promoveu um aprofundamento democrático, uma mobilização de massas, ou seja, uma ação para além do pacto. Todos estão satisfeitos em administrar a crise do capitalismo e sustentar o acordão político de 1988 que para a maioria do povo brasileiro nunca saiu do papel.

O PT se tornou o fiador da conciliação de classes, ao desarmar todo um dispositivo de mobilização da classe trabalhadora brasileira a partir de 2003. Movimentos, centrais sindicais e outras organizações, outrora aguerridas, passaram a simplesmente serem pilares de sustentação de um governo que não atende nenhuma de suas reivindicações históricas. Governa de mãos dadas com o rentismo e com os conglomerados brasileiros e estrangeiros (bancos, empreiteiras e agronegócio).

A Nova República chega ao esgotamento porque não há nenhuma novidade mais a ser colocada na mesa pelas forças institucionais. A “solução” para a crise econômica para o petismo é o ajuste fiscal neoliberal que no passado tanto combateu. A solução para a oposição de direita é o mesmo ajuste ao quadrado. É a manutenção da dependência e do atraso para nosso povo. A política resume-se ao cidadão escolher entre esses dois cenários em pleitos eleitorais comprados pelas grandes empresas que financiam ambos os lados.

As cenas do protesto do dia 12 de janeiro na Paulista são o retrato da falência de um regime político. Temos que ser duros com nós mesmos e parar com esse sonho midiático de “festa da democracia”: é normal no Brasil que as pessoas sejam impedidas de protestar. É normal no Brasil que as pessoas sejam cercadas pela polícia e surradas porque desejavam expressar o seu descontentamento com o preço exorbitante da passagem. É normal que jovens negros sejam fuzilados pela polícia e é normal que crianças indígenas sejam degoladas.

Indo mais profundo, é normal que Alckimin (PSDB) mande o choque impedir uma manifestação e que Haddad (PT) nada comente. É normal que ambos aumentem o preço das tarifas juntos, como é normal que tanto Aécio (PSDB) quanto Dilma (PT) tenham tido suas campanhas financiadas pelas mineradoras, entre elas a Vale, responsável pelo desastre ambiental em Mariana/MG.

Ao largo disso, novos atores vão surgindo e se mobilizando à sua maneira. Ainda procuram sua melhor forma de organização, mas já começam a descobrir que essa pretensa “normalidade” dos absurdos diários no Brasil são as engrenagens emperradas da Nova República. Estamos neste mal-estar social porque sabemos, mesmo que inconscientemente, que nada de novo virá daqueles que hoje disputam o poder. A Nova República não foi derrubada, ou revolucionada. Ela morreu de velhice no asfalto da Paulista. O parto do novo é difícil e leva algum tempo…

mordeassopra
Fonte: https://goo.gl/5J6Qzb

*Roberto Santana Santos é professor de história e doutorando em políticas públicas.

É razoável aumentar a idade da aposentadoria?

Por João Telésforo

A proposta de contra-reforma da Previdência do governo Dilma precisa ser enfrentada com vigor. Mas não basta denunciá-la como se a enorme injustiça da reforma fosse autoevidente. É preciso dialogar (ouvir, antes de tudo) e argumentar. A esquerda precisa parar de falar para si mesma.

Até mesmo pessoas progressistas podem achar “razoável” aumentar a idade de aposentadoria, já que a expectativa de vida da população tem crescido e, espera-se, seguirá crescendo. Esse “argumento” genérico desconsidera, no entanto, pelo menos três questões fundamentais.

(I) Você sabia que por meio da “Desvinculação de Receitas da União” (DRU), o governo desvia recursos da previdência social (bem como da saúde, educação) para outras despesas, notadamente a formação do tal do “superávit primário” para pagar juros exorbitantes da dívida pública? Quem tem produzido o tal “rombo” na Previdência é a aliança entre Estado e bancos, que lucram com essa política – uma forma legalizada de desvio de verbas públicas.

A prorrogação da famigerada DRU até 2023 está em pauta no Congresso Nacional agora. Vamos ficar de olho e combater esse acinte!

(II) Ao longo das décadas, a chamada produtividade do nosso trabalho aumentou, como já argumentou Edemilson Paraná aqui. Com o mesmo tempo de contribuição, produzimos mais, devido à maior qualificação dos/as trabalhadores/as, inovações tecnológicas, técnicas produtivas, etc. Se isso é suficiente para fazer a conta “fechar” ou não para a idade X ou Y de aposentadoria (ou determinada jornada semanal de trabalho), é preciso calcular no detalhe, considerando também outros fatores (como o imperativo de reduzir a brutal exploração da força do trabalho no Brasil). Mas é uma falácia considerar que o fato de vivermos mais por si só nos obrigaria a vender nossa força de trabalho ao longo de mais anos. E além do cálculo retrospectivo, há de se pensar prospectivamente: por que não investir mais em educação, ciência e tecnologia, que aumentam a produtividade, ao invés de necessariamente termos de aumentar o tempo de trabalho?

(III) Lembram-se da “lei da oferta e da procura”? Então, consideremos o seguinte: se as pessoas forem obrigadas a se aposentar mais tarde, teremos mais gente no mercado de trabalho, correto? Portanto, aumentará a oferta de mão-de-obra. Os empregadores terão melhores condições de negociar e os/as empregados/as piores, ou seja, tenderão a ser empurrados para baixo os salários e condições de trabalho (jornada, etc). Poderá haver como consequência, inclusive, o aumento do desemprego. O que você prefere, idosos/as recebendo aposentadoria ou jovens desempregados? Os grandes proprietários, que vivem da exploração do trabalho alheio,  têm plena clareza: preferem jovens desempregados formando o “exército industrial de reserva” que pressiona para baixo o preço (“custo”) do trabalho.

Então, jovem amigo/a trabalhador/a, perceba que, caso aumente a idade mínima da aposentadoria, você tenderá a pagar o preço não só quando “ficar velho”, mas desde já, com piores condições para conseguir empregos e boa remuneração e condições de trabalho por ele.

Aumentar a idade da aposentadoria não é resposta nem ao falso “rombo” da Previdência nem à crise econômica. Esses são pretextos utilizados para realizar uma velha aspiração do governo e dos grandes empresários sanguessugas que querem ampliar ainda mais a exploração do já super-explorado povo trabalhador do Brasil. Digamos NÃO a esse retrocesso.