Militância e depressão

Por Sabrina Fernandes

A esquerda sofre de uma série de problemas, e há dificuldade para falar de muitos deles. As críticas que são cada dia mais necessárias pesam para seus locutores. Os turbulentos relacionamentos de dentro da militância, repletos de ad hominem, quebram pontes de diálogo e, principalmente, confiança. As fofocas e o desdém, empoderados tanto pela opressão individual e coletiva daquelas pessoas já marginalizadas na sociedade, também atingem os considerados privilegiados pois são vistos como eternos beneficiados do sistema. Falta sensibilidade para todos os tipos de dor. Falamos de opressão de gênero, orientação sexual, racial, étnica, cultural. Firmamos que a exploração de classe determina todos os aspectos de nossa vida. Reconhecemos a opressão aos corpos nas suas expressões como a gordofobia, a objetificação racista e a limitada construção da beleza dominante. Mas e a opressão às mentes? Por que há tanta dificuldade de reconhecer a subjetividade da dor na militância? Justamente no meio onde a solidariedade deveria ser o motor chave dos relacionamentos.

Com frequência saem estudos afirmando a inegável conexão entre o capitalismo e as doenças mentais, em especiais os transtornos de ansiedade e depressivos. Mesmo antes de tantos estudos acadêmicos, publicações tão antigas quanto as de Durkheim no assunto indicavam que o suicídio não era um fenômeno individualizado, como a sociedade neoliberal tenta nos fazer crer ao isolar causas e resultados. Ao contrário, o suicídio egoísta se torna cada vez mais viável e contagioso com a neoliberalização da responsabilidade. É também relacionado à pouca integração ou ao isolamento. Enquanto estas são consequências diretas das expressões de subordinação do capital, patriarcado, supremacia racial, hetero/cisnormatividade, e outros, o re-enforço do isolamento da pessoa ansiosa e depressiva em um ambiente que deveria ser, em teoria, essencialmente acolhedor, nutre a atual incapacidade do ambiente da militância política de esquerda de curar a dor em vez de adicionar stress e culpa a ela.

É grande o número de pessoas ao meu redor que se encontram afastadas da luta diária por conta de depressão. Com isso, passei a me perguntar quais elementos causam ou agravam um quadro de depressão na militância. A frustração com a luta em um momento de ultra-política, de pequena política, e de fragmentação organizacional por si é capaz de se desenvolver em algo maior e crônico. Ouvimos muito que 2015 foi um ano muito difícil para a luta, mas não há garantias de que 2016 será melhor. Pode ser muito pior, já que há uma crise tanto política quanto dentro da esquerda que dificulta a união de forças e, sobretudo, a formação de sínteses. Problemas para todos os lados criam um ar belicoso, em que os poucos recursos sinalizam uma certa disputa sobre qual bandeira é mais importante (e qual método é o mais correto). E o que por vezes fica para trás é que são pessoas de carne e osso fazendo essas avaliações, ao mesmo tempo que lidam com tantos outros pesos como o do sustento, problemas familiares, crises de relacionamento, trabalhos estressantes, e outras doenças de saúde. Militar requer sacrifício, mas este sacrifício deve ser sempre avaliado em relação ao que aquela pessoa pode suportar. É desleal cobrar o mesmo de todos, assim como é desleal julgar o que se pode cobrar de um ou outro baseado no que vemos por fora. Todo sacrifício ou esforço não deve ser cobrado, pois o equilíbrio necessário entre sacrifício para a luta e saúde mental provém da dádiva que a militante deve avaliar de acordo com as suas condições.

Militar pode sim quebrar uma pessoa, seja por tentar fazer tudo junto sempre, ou por conta dos desafios encontrados no pouco diálogo e nas muitas brigas infrutíferas que encontramos na competição de pautas. O identitarismo e o capacitismo que identificamos nas organizações de esquerda são exemplos dessas práticas.[i] Pode também ser que a pessoa se quebre por outras razões, mas a falta de apoio, assim como a psicofobia disfarçada de exigência por conta da conjuntura, podem tornar o ambiente de militância tóxico e prolongar afastamentos (talvez até permanentemente). O auto-cuidado está em falta e é preciso saber restaurá-lo. Não adianta repetir mantras de uma revolução com amor, com ternura, e não praticá-los. Reconhecer que militantes podem adoecer de maneiras invisíveis e também reconhecer esses sinais é o primeiro passo a se dar.

[i] Identitarismo: a política de identidade se encaixa no âmbito liberal da individualização das experências, as quais são vistas como isoladas ou em somatória para um eventual cheque-mate preguiçoso na disputa de fala e crítica. “Eu sou isso e minha voz deve ser empoderada cegamente ante a sua” pode causar desconforto e até flashbacks para pessoas cujas experiências de opressão são desconhecidas para o outro. Nem toda mulher estuprada ou homossexual espancado no passado querem anunciar essas experiências para o mundo. Portanto, quando outra/o militante se julga mais oprimido pela sua posição marginalizada ante a estrutura para silenciar a/o outra/o que é tecnicamente mais privilegiada/o, resulta uma comparação indesejável (e absolutamente improdutiva) que pode ter consequências dolorosas quanto a feridas escondidas porém abertas.

Capacitismo: pessoas com depressão possuem baixa auto-estima e têm dificuldade de se sentirem incluídas. Pessoas lidando com outros desafios (como ser mãe solteira, um parente doente, ou acabou de perder o emprego) também tendem a perder auto-estima e precisar de maiores apoios. Mesmo sendo certo que muitos dos momentos chave de nossa conjuntura requerem dedicação quase que integral da militância, as condições de cada pessoa devem ser sempre levadas em conta de forma que o tempo que elas dedicarem seja sim uma doação e não resultado de cobrança.

[ii] Lembro a todas que a proposta do Brasil em 5 consiste em textos que devem caber em uma leitura de 5 minutos. Portanto, a intenção deste texto é de apenas provocar uma discussão que merece muito mais dedicação.

 

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15 comentários sobre “Militância e depressão

  1. Fernando Nogueira 14/01/2016 / 09:55

    Putz. Que texto poderoso, sensível, urgente. Aposto que, como falou por (e para) mim, ele também deve calar fundo no coração e na mente de muita, mas muita gente mesmo. Muito obrigado mesmo pelo belíssimo texto, Sabrina. Abraços

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    • sabrinafernandes 15/01/2016 / 08:43

      Obrigada, compa. É um texto um pouco atrasado – estava na cabeça há tempos mas eu me debatia sobre a recepção. Fico feliz de ver que é uma intervenção que mesmo que atrasada pode contribuir para que saúde mental não seja mais um tabu na esquerda.

      Curtido por 1 pessoa

  2. Caroline 14/01/2016 / 22:00

    Parabéns pelo texto, super necessário. A militância tem sido omissa com relação a essas pautas e consequentemente, tem colhido os tristes resultados que tanto nos enfraquece.

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    • sabrinafernandes 15/01/2016 / 08:44

      Obrigada, Caroline. O intuito é nos acordar para isso justamente para evitar esses tristes resultados.

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  3. Bárbara 15/01/2016 / 00:14

    Agradeço pela reflexao! Pude conectar com muitos pontos em minha realidade!

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    • sabrinafernandes 15/01/2016 / 08:45

      Grata, Bárbara. Creio que muitos de nós puderam conectar – infelizmente se trata de um problema crônico que é diariamente ignorado.

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  4. Lucianna 15/01/2016 / 11:02

    Belíssimo texto companheira…Ao ler pude identificar pontos com minha realidade.Texto para muitas reflexões.
    De coração agradeço.

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  5. Henrique 15/01/2016 / 13:26

    Muito bom! Texto importante, necessário e urgente, a atual esquerda brasileira já perdeu vários/as militantes por depressão e vai continuar perdendo enquanto não encarar essa questão de maneira madura.
    Por experiencia própria os movimentos sociais tem sido mais uma maquina de surtamentos em especial entre a juventude. É difícil para companheirada perceber uma depressão, quando se cogita ser depressão muitas vezes já é tarde e muito dos sinais acabam sendo interpretados como peleguismo, desvios políticos e falta de comprometimento, quando na verdade a companheirada está a beira de um surto.
    Já presenciei muita gente “surtando” e nunca encaramos de fato como um quadro de depressão, os mecanismos internos dos partidos e movimentos sociais não tem hoje em dia preparo para lidar com essas questões, muitas vezes se afasta os companheiros/as quando na verdade deveriamos acolher e buscar ajuda profissional para lidar com isso, sem tabus.
    É uma discussão que vai longe, mas nunca é tarde para reconhecer que já erramos muito nesse sentido mas podemos e devemos avançar!
    Parabéns novamente pelo texto!

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  6. Lídia 15/01/2016 / 19:15

    Amei o texto! Este é um tema central e um tema tabu das militâncias de esquerda! E tantos perderam as suas vidas literalmente porque falar dessas coisas não passava de certa “frescura”. Em outras palavras de gente que ainda carregava em si muito do mundo burguês… Terrível lembrar que esta forma de pensar foi e ainda é real! Conheci muitos que se perderam no caminho na fase mais linda da vida: a juventude cheia de sonhos e utopias… E deram tanto de seu tempo para a militância, para a causa… Fizeram o que acreditavam… Mas esqueceram deles mesmos e não ficou quase ninguém para lembrar…
    Texto e reflexão extremamente importante!!! Parabéns!!

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  7. Raysa 18/01/2016 / 11:21

    Identitarismo. OBG, estava faltando um nome pra isso. Muito bom interromper o ciclo de violência e falar dessas coisas.

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  8. Raquel Quintino 19/02/2016 / 10:10

    Texto pertinente. Mas, vejo os espaços de militância como grupos de sociabilidade, de vínculos fraternos e vivência onde se exercem outros valores. São meus companheiros de militância que sei que posso contar e que ofereço o melhor do meu afeto. Militar é a resposta à depressão muitas vezes.

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    • sabrinafernandes 05/04/2016 / 18:03

      Oi Raquel, obrigada pelo comentário. Eu concordo que esse possa ser o caso, em especial em espaços de alta solidariedade (nem sempre o caso), e este artigo teve a intenção de provocar que nossos espaços se transformem solidariamente sim, para que a militância seja uma das formas de se ajudar. Mas vou postar aqui um pequeno texto da Travesti Reflexiva que talvez ilustre melhor o outro lado da moeda que também quis trazer:

      Travesti Reflexiva
      2 April at 00:39 ·
      Terapia é terapia, militância é militância.
      O ativismo pode te ajudar a desenvolver seu senso crítico, trazer uma certa consciência política, mas ele não substitui o processo terapêutico. Deslocar a terapia para os movimentos sociais é uma forma de resistir, de escapar dos próprios conflitos; não há nada de terapêutico nisso. Na verdade, a militância é um campo de adoecimentos. O local menos indicado. Esse é um contexto que não dispõe do enquadramento necessário (abordagem, técnica, etc.) para que o sujeito elabore suas questões pessoais.
      Não há o mesmo espaço para as demandas individuais no ativismo, o que me faz pensar nessa substituição como uma fuga da verdadeira terapia. Entendo a relação que fazem entre “empoderamento” e “tratamento”, às vezes o senso comum confunde mesmo, mas a gente precisa saber que esses dois conceitos não possuem o mesmo significado para a saúde mental. Um dos maiores riscos de tentar substituir uma coisa pela outra é que a clínica geralmente funciona dentro de uma lógica individual, o ativismo não. Dito de um modo simples, psicólogo e paciente discutem a subjetividade, sendo que uma luta coletiva precisa superar isso. Ainda que terapias grupais existam, elas são auxiliadas por um terapeuta que vai traçar uma estratégia e um objetivo distinto daquele pautado por nós.
      A terapia tem um cenário voltado para o cuidado, já o ativismo vai na direção contrária; ele é afetado pela dor, pelo sofrimento. São dois campos que não dialogam. Isso não quer dizer que a psicologia não é política, pelo contrário, ela está atravessada por ideologias. Estou falando que o ativismo não consegue e realmente não dá conta de ser terapêutico. Uma militância constantemente preocupada com o bem-estar acaba emperrada, voltada para si. Não são equiparáveis, é muita irresponsabilidade prometer o oposto; além da imprudência com a psicologia, também atrasa as nossas propostas.
      Essa falsa relação entre terapia e militância faz com que os maiores interessados deixem de buscar a ajuda adequada, sob uma suposta proteção que, cedo ou tarde, só aumenta suas dores.

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  9. Cláudio Santos 21/02/2016 / 23:10

    As reflexões da autora são por demais importantes é uma discussão que não vem sendo feita no âmbito dos momentos sociais, sobretudo sindical.

    Curtido por 1 pessoa

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