Kim quer ser um milionário? E nós, o que queremos?

Por Rodrigo Santaella

O anúncio de que Kim Kataguri, principal liderança do “Movimento Brasil Livre” seria colunista da Folha só não gerou mais repercussão negativa do que a divulgação de seu primeiro texto. Kim, em toda sua juventude e vigor, traz posições políticas das mais elementares da direita tradicional no país e no mundo com relação a manifestações em geral, têm bastante dificuldade de manter a coerência interna em um texto curtíssimo e, para fechar com chave de ouro, inventa fatos, ou seja, mente. A contratação de Kim não foi surpresa, como afirma Boulos, mas o mais surpreendente seria vê-lo sendo tratado como representante do “novo”. Bom, é óbvio que não se trata disso, mas vale aprofundar um pouco as reflexões geradas a partir de todo esse debate.

Em tudo isso, Kim Kataguri é o que menos importa. Baseado em seus pressupostos fundamentados em um liberalismo tosco e arcaico, e nos mais-genéricos-impossível princípios do movimento que lidera, Kim provavelmente só busca um lugar ao sol. Quer chamar atenção, de alguma forma ganhar dinheiro com isso. Kim só quer ser um milionário, e o salário que vai ganhar na Folha talvez faça parte desse plano. Para aqueles que buscam a transformação radical do estado de coisas em que vivemos, o fundamental é pensar o que representa a presença de um garoto despreparado de 19 anos, representante de ideais arcaicos e conservadores, no jornal de maior circulação do país. Kim pode não ser representante do novo, mas é preciso compreender melhor o que significa essa “roupa nova” que foi dada ao velho.

Depois de junho de 2013 no Brasil, abriu-se um espaço grande para a transformação das forças políticas e para o surgimento de outros tipos de organização, que só foi aprofundado pela crise política que se agravou. A direita e o centro parecem, mesmo que de forma difusa, ter percebido isso, e daí surgiram novas formas organizativas, mesmo pautando velhos programas. O MBL, Vem Pra Rua, a Rede, o Partido Novo, etc., são expressões de diferentes novas formas organizativas que vão da direita ao centro, e que conquistam muitos adeptos a partir de sua nova roupagem. Kim na Folha, a despeito de seu despreparo individual e de suas ambições pessoais, é a expressão mais óbvia e caricatural disso. Nós, por outro lado, não demos conta de perceber a necessidade de autotransformar-se, e insistimos nas mesmas fórmulas, nos mesmos modelos de organização, nas mesmas alternativas. Transforma-se aqui e ali, mas ao final parece tudo muito igual. Nós não mudamos, sequer, nossa roupagem. Quando movimentos de esquerda ou progressistas relevantes e inovadores surgiram nesse meio tempo, foi em geral à revelia das organizações de esquerda.

Para dar conta dos desafios que a conjuntura atual nos impõe, no Brasil e no mundo, para potencializar o que há de realmente novo e incipiente na política e ser parte disso, a esquerda precisa transformar-se de muitas maneiras. Precisamos ser mais abertos e dinâmicos do ponto de vista organizativo, ao mesmo tempo mais fraternos do ponto de vista das relações entre nós. Precisamos de um programa atualizado, que dê conta de aliar à sério e no calor das lutas a crise ambiental, combate às opressões, à luta clássica da esquerda revolucionária contra o capital. Mas mais do que isso, precisamos que esse programa se materialize no cotidiano das pessoas exploradas e oprimidas, que seja parte desse cotidiano que se transformou muito nas últimas décadas.

Enquanto tivermos medo de refletir livremente sobre as mudanças necessárias em nossas próprias organizações, utilizarmos nossos poucos espaços de visibilidade para digladiar-nos e acreditarmos que é suficiente ser uma direção iluminada e correta nas análises, indivíduos que em outro cenário teriam pouca relevância como Kim Kataguri seguirão fazendo barulho e tendo mais espaço do que gostaríamos na sociedade.

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2 comentários sobre “Kim quer ser um milionário? E nós, o que queremos?

  1. sabrinafernandes 23/01/2016 / 14:40

    Excelente artigo! (Mais que excelente título! *aplausos*)

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