O casamento arranjado entre liberalismo e conservadorismo.

Desde a época do ensino médio, escutamos com frequência que não há nada mais liberal que um conservador no poder, ou, nada mais conservador que um liberal no poder. Normalmente, essas frases de efeito são utilizadas para ilustrar uma certa semelhança entre governos que se sucederam com plataformas distintas tanto na história do brasil, quanto na de outros países, como os EUA, a Inglaterra, Portugal, dentre outros. Mas pouco se discute esta semelhança, já que, pelo menos aparentemente, são plataformas com muitas diferenças. E com defensores ferrenhos de cada um dos lados. O liberalismo, cujo mote principal é o avanço e aumento dos direitos individuais, contrapõe-se ao conservadorismo, que prega mais respeito aos valores tradicionais associados à família, à igreja e outras instituições que nos remetem mais a uma lógica estamentária: cada um no seu quadrado.

Acontece que essas coisas andam juntas. Só não andam quando naturalizamos ou temos como pano de fundo teórico o capitalismo. Se assim o fizermos, pode-se arguir que há uma disputa entre elites sobre o lado para o qual o pêndulo deve tender. Mas quando entendemos a sociedade capitalista como uma dentre várias outras possibilidades, percebemos que o individualismo liberal e os fundamentalismos conservadores são frutos da mesma árvore.

Veja que numa sociedade empresarial e industrial que se ancora mais nos valores que potencializam o fazer-se do indivíduo, todos os laços sociais se submetem ao desejo-autêntico, à vontade-única e ao dom-vaidoso de cada um de nós. Esse liberalismo dificulta o estabelecimento de vínculos pelo solipsismo cultural e social que gera. A “liberdade” se reveste de um argumento que permite tudo e, assim, acaba tendo dificuldades em encontrar limites. Seja dentro de si própria, seja fora, já que enxerga nos outros uma barreira para o próprio realizar-se e, dentro de si, uma potência inigualável daquilo que lhe traz felicidade.

O problema é que uma sociedade capitalista não se reproduz sem um excesso de mão de obra e, por isso, um excedente populacional mínimo. Ninguém fica rico e se destaca no capitalismo se não existir uma grande parcela que simplesmente trabalha por sobrevivência. E os capitalistas ganham mais quanto menos pessoas iguais a ele existam ou quanto mais pessoas estejam necessitando trabalhar para sobreviver. Ou seja, no capitalismo, só se pode “ser o que realmente queremos ser” quando muitos outros são obrigados a serem tudo aquilo que não queremos. Esse último grupo de pessoas precisa reproduzir (família), precisa ser apaziguado (religião) e precisa se sentir parte de um projeto mais amplo que justifique minimamente aquela exploração vivida diariamente (nacionalismo). Como disse um conservador estadunidense recentemente: eu sou um cristão em primeiro lugar, um americano em segundo, um conservador em terceiro e um republicano em quarto.

O conservadorismo possui, claramente, traços de um tipo de comunitarismo – ainda que tradicional – necessário ao liberalismo e à realização dos anseios daqueles poucos que tem o privilégio de se ocuparem com as crises existenciais pequeno-burguesas. O que me parece derivar do pouco falado, mas nao menos existente, egoísmo cristão. Aquele papo de que Deus tem um plano para cada um de nós. E de que cada pequeno sofrimento nosso tem razão para ser. Quem não sofre no cristianismo, não conhece o caminho – e o suplício – de Deus. Com as devidas diferenças entre a culpa-católica e a dádiva protestante, ambas são ideologias que justificam a submissão, o sacrifício em troca de um bem maior e a auto-realização das possíveis redenções.

Isso é claramente perceptível em países do capitalismo mais-desenvolvido, como os EUA. Lá, partidos como o Democrata e o Republicano trocam farpas a respeito dos valores que cada um defende, sem, no entanto, afetarem o establishment. As atuais eleições estadunidenses parecem ser uma lição cuidadosamente preparada e didática sobre a democracia liberal no estágio atual do capitalismo. E, nela, percebe-se a semelhança inegável entre os discursos liberais e conservadores. Neste momento, tanto o partido Democrata quanto o Republicano estão com problemas internos já que cada um deles possui um candidato com reais chances de vitória que simplesmente joga fora o status quo.

De um lado, tem-se Donald Trump, que faz piada das eleições como que para mostrar que basta um bilionário aprender a fazer cena e aparecer na mídia que ele consegue comprar até a cadeira mais alta da casa branca.

Do outro, tem-se um candidato como Bernie Sanders (atual opositor de Hillary Clinton nas primárias do partido democrata), que se diz socialista. Ele pretende estabelecer universidade publica e gratuita, saúde universal e um sistema de aposentadoria mais justo. Tudo isso com dinheiro dos mais ricos e punições aos banqueiros pela crise de 2008. Todos os blogueiros, jornais e até o atual Presidente Obama estão assustados com o avanços desses dois candidatos que – sem querer querendo, expõem o verdadeiro acordo que rege essas “democracias” no mundo capitalista. Permite-se discutir e decidir tudo. Desde que, no fundo, as coisas possam permanecer exatamente como estão.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s