Quem vem da direita para a esquerda?

É inegável que vivemos em um mundo de muitas – e muitas – pessoas diferentes. E que essas diferenças dificultam nosso entendimento pleno do sofrimento alheio. Não é toda dor que eu sinto que uma outra pessoa, muito diferente de mim, sente. Da mesma maneira, é difícil se colocar exatamente no mesmo lugar que uma pessoa tão-tão diferente de você. Ainda mais quando essa diferença advém de todo um sistema de benefícios e malefícios que regem nossa sociedade como um todo. É demasiadamente complicado.

Mas não é impossível. Porque, ao que me parece, todo mundo dói. Todo mundo se machuca. E todo mundo sabe o que é sofrimento. Negar isso é negar a humanidade dos outros. É desumanizar, de forma maniqueísta, aqueles que são diferentes de nós. Por isso que há mais semelhança do que diferença entre aqueles que, em muitas ocasiões, defendem posicionamentos completamente diversos na política. Veja a atual situação dos presidenciáveis nos Estados Unidos, por exemplo. Lá, os dois candidatos que mais tem se destacado na mídia vêm de histórias de vida completamente diferentes entre si. E defendem coisas completamente diferentes também. Pudera, um é “socialista” em um país onde, até pouco tempo atrás, essa palavra era um xingamento; já o outro é um bilionário advindo do mercado imobiliário, dono de diversos prédios com seu nome estampado neles.

Mas ambos representam uma recusa do modelo de representatividade que está instaurado nas democracias ocidentais. Veja que curioso: ambos representam candidatos taxados como “outsiders” do cenário partidário comum dos EUA; ambos se dizem dissociados dos grandes bancos; ambos se dizem completamente contra os acordões da politicagem. E ambos se embasam na dor que os estadunidenses, em geral, sentiram – e ainda sentem – depois da crise de 2008.

Isso tudo para dizer, ou tentar ilustrar, uma coisa que as vezes nos parece trivial: pessoas são…pessoas. Elas tem histórias e experiências diversas, mas, ainda assim, tem muito em comum com aquilo que vivemos diariamente. Pessoas sofrem, doem, sentem-se frustradas. Ainda que de modo diferente. Se a esquerda se propõe a buscar uma mudança mais radical e duradoura para a sociedade, ela tem que entender isso. Ela precisa recitar isso pra si mesmo. Porque é preciso dialogar com as diferenças reconhecendo ao menos alguma semelhança. Caso contrário, nao se fala para fora dos já convencidos, dos já crentes, dos já fidelizados. Quem vota em Trump não pode ser entendido – de pronto e a priori – como um inimigo intransponível. Até para nao pressupormos um ponto de vista externo, superior e mais qualificado para dizer o que é o que; ou quem é quem. É necessário se abrir para essas contingencias da vida política para que as igrejas fundamentalistas não sejam a única instituição que ainda continuam acolhendo quem dói. Seja quem for.

Nós não precisamos de soluções prontas e nem de decisões verticalizadas de um ente superior capaz de prever e perceber tudo. Nós não precisamos, em síntese, de um novo Deus cartesiano. Nós precisamos de mais vida concatenada e imbricada por valores que são constituídos no dia a dia. Sem essa preocupação ou predisposição para um discurso mais amplo, mais aberto e mais sensível – sensível mesmo – ao que nos une; sem compreender as complexidades dos quase-absolutamente-outros, a mudança torna-se impossível.

Porque o problema de uma vida dialética é que ela sempre volta para nos morder na bunda. Se o método é de ataque devastador e fulminante, tal qual feito pelos moralistas-jacobinos na revolução francesa, não sobrará pedra sobre pedra para contar a história. Uma hora volta. Uma hora te pega também, por mais correto e superior que você se ache. É preciso tecer um caminho mais aberto mesmo. Mais reconhecedor de nossas próprias falhas e limites. De nossas dores narcisistas, de nossas preocupações individualistas, inclusive. Reconhecendo até quem não nos reconhece, até quem nos menospreza. Porque é essa a maior dificuldade de um fazer-se político revolucionário. E é ela a mais necessária.

E quem paga a conta da crise?

Por Sammer Siman

E agora José?

A festa acabou. A luz se apagou…

Que o de cima sobe e o de baixo desce é uma lição que aprendemos desde que o mundo é mundo, ou, melhor dizendo, desde que o Brasil é Brasil, pelo menos a julgar por esse capítulo que beira a 516 anos de história. A desigualdade estrutura nossas relações e quanto a isso nem Deus duvida.

O que diferencia cada momento histórico pelo qual passamos é, via de regra, o horizonte de expectativas que embala as maiorias: Exemplo foi a última década em que cresceram aspirações sociais diversas, e não sem razão: Uma parcela expressiva da população passou a se alimentar e a se vestir melhor; muitos(as) acessaram o ensino superior; muitos(as) que estavam na Universidade vislumbraram um bom emprego, e por aí vai.

No entanto, a festa acabou. Pareceu heresia quando dissemos há pouco mais de um ano atrás que, fosse Dilma, fosse Aécio, a crise era anunciada e nenhum destes governos enfrentaria o “tal” mercado. Isso num tempo de olé olé, oba oba, Dilmãe, coração valente não foi uma afirmação trivial, mas se existe algo certo é que só quem pode julgar é a história.

De lá pra cá, a vaca tossiu, resfriou, pegou pneumonia e agora segue se lambuzando no brejo. Direitos trabalhistas foram cortados, a exemplo das alterações da regra do seguro desemprego; um mar de lama matou gente e rio diante de um silêncio rotundo dos governos, conforme denunciamos; a presidente vetou a auditoria da dívida pública aprovada no Plano Plurianual do Orçamento pelo Congresso (sim, o tal mais conservador da história!), o Senado recentemente entregou o Pré-Sal pras multinacionais e a celeuma continua: Reforma da Previdência à vista para adular ainda mais o tal “mercado” e botar a conta no lombo do trabalhador, PL 555 pra entregar as empresas públicas e estatais, e por aí vai.

No âmbito do serviço público, parafraseando Mr. Catra, o bagulho ficou sério. Se em 2015 o chicote estalou no lombo das Universidades, da saúde, da educação em geral e de outros serviços que já nem mais parecem essenciais, o ano de 2016 já traz novidades reveladoras.

Talvez a maior delas seja anúncios de cortes no âmbito do judiciário, o poder mais conservador deste país, o panteão da tragédia do povo, que encarcera pretos e pobres enquanto alguns seguem impunes diante de helicópteros abarrotados de pó. No entanto, tais anúncios são reveladores. A propósito, quem pagará a conta?

No caso do judiciário, será também o trabalhador, ou seja, os seus servidores. Salários congelados, novos concursos não serão realizados, as condições de trabalho deterioradas e, quiçá, demissões ocorrerão. Já para os magistrados – os tais juízes togados – não estarão em questão as farras das férias remuneradas, o 14º salário e um dos maiores ESCÂNDALOS do período republicano, o auxílio moradia que repassa cerca de 60 mil reais por ano para cada juiz, uma casta que, definitivamente, não sofre com a falta de moradia – o máximo que fazem a respeito deste tema é despejar famílias de sem tetos que ocupam terrenos ociosos para sobreviver.

Definitivamente, a festa acabou. E se não reagirmos à altura, do ponto de vista da organização da classe, guardanapo sujo vai virar bolo enquanto a música seguirá sendo ditada pela minoria abastada que, na saúde ou na doença, na pobreza ou na riqueza, segue engordando os burros nessa pátria amada e irrealizada chamada Brasil.

trabalhador-paga-a-conta

 

A hipermetropia da grande História, e a história de Dona Nilda

Por Mariana Prandini Assis

Conheci a Dona Nilda em um almoço de domingo. Foi ela quem preparou toda a comida, mesmo estando em seu anual jejum de Quarta-feira de Cinzas. Feijão de coco, bacalhau com natas, arroz soltinho. Para a sobremesa, cartola – queijo manteiga derretido, banana, açúcar e canela –, uma das muitas coisas que me fazem querer voltar sempre ao Recife. Mas Dona Nilda não nasceu ali. Viveu boa parte da vida no interior e foi apenas quando os filhos – três ao todo, um número acanhado em sua geração – decidiram fazer faculdade, é que ela se mudou para a capital.

A vida da Dona Nilda sempre foi marcada por coisas pequenas. Namorou (vários) escondido (e muito) na sessão de cinema; cheirou lança-perfume nos bailes de carnaval de Caruaru; escreveu cartas para os presos da cadeia com orientações jurídicas que obtinha do pai; casou a contragosto da família com rapaz moreno, sem eira nem beira; morou em chão de terra batida e lá fez um jardim de hortênsias e cravos; teve filho que teve filho sem casar, casou e descasou, e casou de novo; deu guarida à vizinha que apanhou do marido por vestir roupa curta e ajudou com os papeis do divórcio (naquela época, ainda não havia Maria da Penha e a tal ‘defesa da honra’ era moda entre os juízes); teve filha que gosta de mulher, vive com mulher, e faz parte de uma cooperativa de mulheres cervejeiras. Hoje, com 80 anos, Dona Nilda cozinha, cuida das suas muitas plantas sempre floridas, assiste o jornal (e às vezes, a novela), conversa muito sobre a política da capital, dá conselho para os meninos que vendem manga na porta de sua casa, e dança, brinca e beija no carnaval de Olinda.

Mas a vida de Dona Nilda não estará nas grandes narrativas históricas, ou nas muitas tentativas das/os intelectuais de esquerda de dar visibilidade às pessoas que transformam o mundo, e legibilidade às formas pelas quais ele se transforma. Isso porque nós temos essa mania de olhar para as coisas entendidas grandes – os eventos excepcionais, as rupturas radicais, os homens de palavra forte e atitude corajosa, as revoluções, enfim, o extraordinário. E com esse cacoete (metodológico) de grandeza, perdemos de vista a vivência do ordinário, a importância do cotidiano, e como mulheres e homens comuns, gente como a Dona Nilda, fazem e refazem o mundo em ações que não cabem no roteiro de um filme épico. As relações face-a-face, o enfrentamento do poder em suas extremidades, a construção de laços a partir de experiências compartilhadas, tudo isso faz parte uma pedagogia da co-presença, em que transformando a si mesma, transforma-se a outra e também o mundo. Pois a unidade básica da vida social não é constituída por indivíduos, por meio de suas ações extraordinárias, mas por algo que só pode ser entendido como um ‘nós-eu’.[i]

A história da Dona Nilda, assim como a de Emma Morano – uma italiana de 115 anos que dá como receita de longevidade a solteirice e três ovos crus por dia – e das muitas mulheres que não entrarão para os anais da História (assim mesmo, com H maiúsculo), nos ensina que tanto quanto os grandes episódios (ou talvez mais, em sua revolução silenciosa e microscópica), as pequenas rupturas e transgressões cotidianas são fundamentais ao surgimento do novo. Milton Santos, já há algum tempo, valeu-se da ideia de homem lento para descrever o sujeito comum, despossuído, “que conhece os lugares, que necessita deste conhecimento para a sua sobrevivência e que, portanto, constrói, em meio a todos os desafios, o período histórico que sucederá o que atualmente vivemos”[ii]. Faço aqui um convite para voltarmos a Milton, ao homem lento, mas acima de tudo, às mulheres luz, como Dona Nilda, cujas ações transformadoras são de tamanha velocidade que acabam alheias a nossos sentidos obtusos.

[i] Tomei emprestada essa ideia de Ana Clara Torres Ribeiro (Outros Territórios, Outros Mapas), que por sua vez, se valeu da reflexão de Norbert Elias. Agradeço à querida companheira de escrita Joana Emmerick Seabra por me apresentar Ana Clara e sua transformadora proposta de cartografia da ação social.

[ii] Ana Clara Torres Ribeiro, Outros Territórios, Outros Mapas, p. 265.

Capitalismo versus Mega Filmes HD

Roberto Santana Santos*

Recentemente, a prisão dos donos do site Mega Filmes HD e sua retirada do ar foram notícia no Brasil. A referida página de internet hospedava links para assistir filmes e séries on line, gratuitamente, sendo um dos mais acessados sites do tipo no país. Na grande mídia, controlada por grupos transnacionais e monopólicos, tudo foi noticiado como uma operação contra o crime à propriedade intelectual. Entre os monopólios midiáticos se encontram as empresas detentoras da maior fatia do mercado de entretenimento mundial, como Warner Bros, FOX e Disney.

Essas empresas vivem uma cruzada mercadológica contra o livre compartilhamento de conteúdo pela rede. Os direitos autorais e a tal “propriedade intelectual” são uma grande falácia do capitalismo para aumentar lucros livremente. Essas empresas se apropriam privadamente de produções que deveriam ser para o desfrute de todos e todas.

Depois que um artista finaliza uma obra de arte, ou um intelectual termina uma obra acadêmica, ele/ela a publiciza, ou seja, a torna pública. Não há sentido na produção artística e intelectual humana se não compartilhá-la com a sociedade. É justamente o que sites de compartilhamento de arquivos e conteúdo fazem. Eles tornam as produções humanas mais conhecidas.

Se você comprar um livro e depois emprestá-lo a alguém, isso não é crime. Você não está vendendo o livro, não está ganhando nada sobre ele. Você está somente compartilhando conhecimento (e consequentemente tornando o livro e seu autor mais famoso). Por que compartilhar um filme ou uma série na internet seria então um crime? Ninguém vende o filme naquele espaço virtual, você simplesmente mostra o filme.

As grandes empresas de entretenimento vivem hoje de barrar o acesso ao conhecimento, à diversão e às artes. Como tudo no neoliberalismo selvagem, mercantilizam-se as produções humanas em nome do lucro. Consequentemente se impede o acesso a determinados conteúdos para aqueles que não podem pagar.

Por outro lado, o avanço das forças produtivas, ou seja, dos mecanismos criados pela humanidade para modificar o natural de acordo com suas necessidades, não pode ser obliterado. O avanço da informática permitiu o compartilhamento de conteúdo pela rede. Manifesta-se aqui o que Marx colocava como as contradições inevitáveis entre as forças produtivas e as relações de produção, ou seja, entre um avanço tecnológico (compartilhamento de conteúdos) e as relações sociais (capitalistas, portanto, que lhe permitem o acesso ao conteúdo somente mediante pagamento, pois o conteúdo é uma propriedade privada das empresas).

Somente num sistema pós-capitalista tornaremos norma aquilo que já vem aparecendo aqui e acolá pela rede. Que o acesso ao conhecimento e entretenimento não é uma mercadoria e que não aceitaremos mais pagar por eles. Assim como o compartilhamento de músicas não pôde ser parado, as outras mídias também seguirão pelo mesmo caminho.

*Roberto Santana Santos é historiador/professor de história. Militante das Brigadas Populares

megafilmes

O show da Beyoncé e a conjuntura

Por Juliana Góes

No início desse mês Beyoncé fez uma apresentação no show de intervalo do Super Bowl (final do campeonato de futebol americano) homenageando os Panteras Negras e denunciando a violência policial. O preço desse show tem sido considerável para a cantora. Ameaçaram cancelar shows dela por causa do seu posicionamento político, marcaram ato na rua anti-Beyoncé, policiais estão boicotando o trabalho dela, etc. A esquerda se dividiu sobre o tema. Parte aponta para o fato da música apresentada no show do Super Bowl, Formation, defender o capitalismo, pois ela valoriza o consumo e o “ter dinheiro” (Beyoncé esfrega a sua riqueza na cara dos brancos), parte aponta para a importância do ato para fortalecimento da pauta antirracista.

Primeiro, é importante entender que negras e negros vivem em um mundo criado para brancos e brancas. O padrão de beleza é branco, só pessoas brancas são vistas como inteligentes e trabalhadoras, a TV é feita para gente branca, a universidade (ainda) é branca, etc. Nossas crianças já nascem sabendo que esse mundo não é para elas: dos personagens de desenhos e livros até a barbie, tudo é branco! A nossa necessidade de representação é real, é concreta.

Beyoncé, ao cantar contra o racismo, consegue captar essa necessidade. Sua performance permite que inúmeras pessoas negras se sintam um pouco mais representadas, além de chamar para o debate sobre o empoderamento negro e sobre as violências racistas. Lembro todas as vezes que escutei uma jovem preta chorando porque o cabelo é feio. Agora posso mostrar o show da Beyoncé e falar para a jovem que ela é linda, explicar o que é o racismo e falar da nossa história de luta. É mais uma referência que ganhei para mostrar negras fortes, poderosas, arrasando, e que nós podemos arrasar.

Isso significa que a música e o show são perfeitos? Não. Na música apresentada de fato o consumismo é exaltado, bem como o poder imposto pelo dinheiro. Quantas pretas poderão esfregar um Givenchy na cara dos racistas? Poucas… E mesmo se fossem muitas, será que é esfregando o fato de termos dinheiro na cara dos racistas que acabaremos com o racismo? O racismo e o capitalismo são faces da mesma moeda. Não poderemos acabar com o racismo, se também não falarmos de classe e acabarmos com o capitalismo. E o que isso significa para a nossa análise de conjuntura? Que temos uma necessidade real de mais mulheres negras no Congresso Nacional, na TV, na universidade, nas rádios, nos livros. Suprir essa necessidade de representação é muito importante para nosso empoderamento. Mas não podemos nos contentar em ter algumas representações e algumas pessoas negras ricas o suficiente para ostentarem. Não fazer recorte de classe é manter o sistema capitalista, o que significa manter a maior parte da negritude superexplorada. Nós precisamos voltar a acreditar no fim do capitalismo, precisamos resgatar o socialismo.

Por fim, quero falar para a esquerda branca. Você que faz vários argumentos racistas fingindo que são argumentos marxistas: para com isso. Beyoncé recebeu várias críticas da esquerda. Parte pela ausência de recorte de classe, que precisamos problematizar mesmo. Mas boa parte eram ataques racistas – era o fato dela ser uma mulher negra. Fidel perseguiu os terreiros e nem por isso vocês deixam de usar camisas dele. Ele não precisa ser perfeito, mas Beyoncé precisa? O capitalismo se sustenta no patriarcado, no racismo e no capital. E por isso, vocês atrapalham a revolução toda vez que abrem a boca e são racistas. Vocês se tornaram uma ameaça à revolução. Vocês são parte do motivo de várias negras não acreditarem no socialismo. Parem.

Carta à mãe de um policial assassinado (e à de um jovem chacinado)

Por Rodrigo Santaella

[Os nomes das mães e filhos aqui são fictícios. Todo o resto é real].

Dona Diana e Dona Carolina,

Não nos conhecemos, e por isso queria começar expressando toda minha solidariedade com sua dor, com a perda de seus filhos. Vivemos numa sociedade muito injusta, e em muitos aspectos doentia. Dona Diana, muitos morrem violentamente todos os dias em nossa cidade, e o seu filho, policial, foi mais uma vítima. Imagino que a dor de uma perda como essa seja incomensurável, e é muito triste que tantas mães tenham que passar por isso todos os anos em Fortaleza. Mães de policiais, mães de moradores das periferias da cidade, mães de jovens assassinados, mães de vítimas de chacinas… Sua dor e a dor da dona Carolina, mãe do jovem Paulo, professor voluntário de percussão em uma escola do bairro, trabalhador como o seu filho, assassinado brutalmente na porta de casa em Messejana no final do ano passado, são uma demonstração clara e cruel de como as coisas andam mal entre nós. A desigualdade, o anseio pelo lucro a qualquer custo e uma cultura de violência destroem vidas todos os dias.

Me considero um defensor dos direitos humanos, um defensor da vida. De uma vida digna, feliz e pacífica para todas as pessoas. Infelizmente, vivemos em um mundo no qual isso está tão distante, que parece uma longínqua utopia. Acho que a sociedade de classes, na qual uns exploram e outros são explorados, uns mandam e outros obedecem, tem uma capacidade impressionante de colocar-nos uns contra os outros. Tenho certeza de que a senhora se solidariza com a dor da dona Carolina, e tenho certeza que a dona Carolina se solidariza com a sua dor. Tenho certeza absoluta, e faço parte disso, que todos os defensores sérios de direitos humanos do Ceará estão do lado de vocês e sabem que vocês merecem todo apoio necessário, porque são vítimas de um sistema violento, assim como foram seus filhos. Queremos lutar juntos por um mundo onde isso não aconteça. E nós lutamos, todos os dias, contra o sistema – sejam as leis, os governantes, os financiadores, o tráfico, a ideologia – que se caracteriza por fabricar vítimas como os filhos das senhoras.

O Renato Roseno é uma grande referência em toda essa luta. O conheço pessoalmente, já há alguns anos. Sei que Renato sente em sua própria pele a dor e a brutalidade desse sistema. A cada morte, a cada estatística, a cada dado novo, a cada conflito, o Renato parece perder um pedaço de si mesmo. E só recupera esses pedaços, dia após dia, na luta para que isso não aconteça mais. Isso não é uma luta seletiva, que valoriza mais algumas vidas do que outras: a luta é por mais direitos e por vida digna. Vou te dar um exemplo: em abril de 2015, numa das primeiras ações de seu mandato, Renato estava participando ativamente da discussão sobre a promoção dos policiais militares, defendendo a ampliação de seus direitos. A senhora pode conferir aqui a notícia. Colo um trecho da notícia para a senhora: “Renato Roseno lembrou que tem se debruçado sobre o tema da segurança pública, mas, ao contrário do que muitas pessoas tentam passar, não há antagonismos com as forças de segurança. “É fundamental para um sistema de Direitos ter um sistema de Segurança Pública bem formado, bem equipado, bem remunerado, com carreira de Estado, ciclo completo e corpo único. Todas as nossas emendas têm um horizonte: a carreira única”, concluiu, solicitando mais uma vez a abertura para o diálogo com a Secretaria da Segurança Pública.” [1]

Somos iguais, dona Diana, e nossa luta é de todos nós: trabalhadoras, trabalhadores e seus filhos e filhas. Não estamos em lados opostos. Fazem parecer que a guerra é entre nós, para que não unamos forças contra o que realmente está na raiz do problema: uma sociedade desigual, com um sistema de segurança pública desumano, falido e atrasado.

Lutamos por uma sociedade em que Albertos, como seu filho, não precisarão arriscar suas vidas, sem condições de trabalho e jogados no meio de conflitos caóticos. Nela, Paulos não serão assassinados gratuitamente. Lutamos por uma sociedade na qual ninguém faria o que foi feito ao seu filho, Alberto seguiria entre nós, e Paulo estaria ainda tocando percussão em Messejana. Quem sabe os dois pudessem se conhecer em algum momento, tocar juntos, rir juntos.

Nós, dos direitos humanos, lutamos por isso. Renato Roseno dedicou toda sua juventude e hoje dedica sua vida a isso. Se para o seu filho, para o da dona Carolina e provavelmente para o de muitas mães já é tarde demais, pode ser que para tantos outros não seja. Peço, do fundo do coração, que não nos deseje o mal. Nunca fizemos isso à senhora nem ao seu filho, e nosso intuito é continuar lutando para evitar tragédias como a do dia 12 e como a de novembro passado. Se sua dor se transformar em vontade de transformação e buscar nas raízes a causa da morte do seu filho, não tenho dúvidas de que a senhora e nós estaremos ombro a ombro, do mesmo lado da história.

Meus sentimentos sinceros!

Rodrigo.

[1] http://www.renatoroseno.com.br/noticias/promocao-dos-policiais-militares

Porque desconectando posso me conectar…

Por Rodrigo Santaella

Não deixa de ser estranha a sensação de sentir-se estranho por não ser estranho em um mundo que se movimenta tão rapidamente que parece nos atropelar múltiplas vezes a cada dia, e nos dilacerar com a constatação de que nunca daremos conta dele inteiro, mas que é preciso esforçar-se todas as horas do dia para chegar o mais próximo disso: saber tudo o que está acontecendo, ter opinião sobre tudo, marcar presença – mesmo que virtual – em tudo[1].

O celular nos invade e pauta as nossas vidas. As redes sociais e o espaço virtual se tornam público para tudo, de reflexões interessantes a desabafos tocantes, de prosa e versos a informações irrelevantes sobre o cotidiano de cada um, o compartilhamento de notícias diversas e de todo tipo de coisa… A efemeridade e a linha cada vez mais tênue entre quem publica e quem vê, se por um lado democratiza a produção de informação e assim abre portas interessantíssimas para relações diferentes no âmbito da reflexão coletiva sobre a cultura e tudo o mais, também cria um acordo tácito que parece basear-se na superficialidade da apreciação: não há reflexão nem contemplação séria sobre nada do que está ali. Há curtidas, há críticas rasas, há novas publicações como forma de expor o que já imaginávamos antes, etc.

O mundo e o capitalismo globalizado, tendo desenvolvido as formas mais complexas de encantamento com a mercadoria e com o próprio modo de vida padrão do ocidente, torna os viventes nas cidades cada vez mais dependentes da troca imediata e constante de informações – sejam elas relevantes ou não, e a maioria não são. O celular e a nossa dependência de aplicativos como o whatsapp são a caricatura cotidiana mais expressiva acerca do fetiche que as mercadorias geram nos seres humanos do que qualquer pensador poderia conceber há algumas décadas atrás. Sabemos que são necessidades criadas artificialmente e totalmente supérfluas. Mas são necessidades. Me permiti pensar recentemente que podemos estar passando por uma espécie de fase de transição e adaptação a uma nova realidade, a novas formas de sociabilidade mediadas pela tecnologia, a novas formas de estar no espaço e no tempo, a novas formas (ou não formas) de contemplação da realidade. Mas isso é bastante otimista. Na verdade, ao que tudo indica, a velocidade das transformações tem aguçado nossa dependência, e a tendência é que mergulhemos cada vez mais de cabeça nessa nova forma de ser (ou de não ser), sem refletir absolutamente nada sobre suas consequências e sem ter a capacidade de mudar os rumos do que estamos nos tornando. É um mundo que gira rápido e se movimenta como nunca antes, na superfície! Mas todo esse movimento superficial parece contribuir para que o essencial permaneça como está. São algumas grandes empresas privadas as que gerenciam toda a troca de informações e, assim, na medida em que isso se torna mais e mais central em nossas vidas, vão nos modelando como consumidores felizes e iludidos com uma sensação de liberdade de forma muito mais direta do que em qualquer outro momento da história.

Não repudio as tecnologias, nada disso. Só acho que não deveríamos abandonar tão rapidamente coisas tão básicas e definidoras da humanidade como o pensar, o olhar nos olhos, o perceber e refletir sobre onde efetivamente se está, ter conversas mais profundas, o concentrar-se, seja para trabalhar ou para ouvir música, para estudar ou para namorar… e tantos etceteras. Nossos celulares, computadores, as redes que nos conectam, poderiam servir para potencializar tudo isso, mas me parece que, aos poucos, tendem a corroer muito do potencial reflexivo e transformador do ser humano. Muitos de nós passamos a maior parte do dia olhando para o celular do que para qualquer outra coisa, seja mãe, pai, companheiro, livros, televisão, tudo. Estamos presos. Somos reféns, e com uma síndrome de Estocolmo daquelas…

Enquanto não encontramos uma relação melhor com as redes e as tecnologias de comunicação, tem crescido em mim uma vontade de arriscar afastar-me, ousar desligar um pouco mais, controlar o que tem me controlado, e quem sabe conseguir cumprir o desafio, sempre necessário para quem se quer transformador da realidade, mas cada vez mais complexo, de abrir mão de pelo menos algumas das necessidades artificiais que vão nos adestrando e transformando nosso jeito de ser e de estar no mundo.

Tem me atraído cada vez mais a ideia de tornar-me um cara mais e mais estranho. Me permitir redescobrir que relacionar-se com o mundo de outra forma não vai abalar as estruturas do que considero – ou quero considerar – fundamental para a minha vida. Mas é tão forte a demanda criada, e é tão impressionante o poder da sedução, que compartilho, com toda dose de ironia/hipocrisia/contradição possível, essas reflexões justamente aqui. É a estranha dialética das possibilidades, mas também das contradições de cada um.

Com todas as contradições de expor justamente aqui essas reflexões, acho que ser mais estranho é um objetivo nobre em um mundo no qual o padrão é a mecanização crescente das relações. Quem sabe no desafio de crescente estranheza e no reconhecimento da contradição que move o mundo, não consigamos encontrar uma relação mais equilibrada com o que é tudo isso? Porque, parafraseando Chico Science desconectando, podemos, quem sabe, nos conectar…

[1] Não à toa, me sinto um pouco mal por não publicar agora um texto estritamente de conjuntura. Como assim, parar para escrever sobre outra coisa, com tanto acontecendo?

 

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Retomar o crescimento?

Por Vitor Hugo Tonin

Crescimento nunca foi uma saída para o subdesenvolvimento. Ao contrário, pode até aprofundá-lo. É isto que a atual crise brasileira revela: a qualidade do crescimento recente da economia brasileira aprofundou o nosso subdesenvolvimento.

A atual frustração dos colegas economistas diante da política econômica adotada pela Dilma e da evolução dos indicadores da economia brasileira nos últimos dois anos, consegue superar o entusiasmo que os mesmos apresentavam ao final do segundo governo Lula e no segundo ano do mandato de Dilma.

Assim, muitos tem utilizado, para enfrentar o atual debate ideológico a consigna da “retomada do crescimento”. Segundo nosso eterno pai, retomar é uma palavra formada pelo prefixo re + tomar, indicando tornar a tomar algo, recuperar. Trata-se, portanto, de voltarmos a crescer como crescemos durante o que alguns chamam, sem enrubescer-se, de curta “Golden Age” brasileira.

Esta proposta está informada pela ideia de que a crise atual brasileira é agravada, senão determinada, pela política econômica. Entenda-se: câmbio, juros e metas orçamentárias. E, portanto, bastaria uma outra política econômica para iniciarmos a superação da crise. Nada mais falso e prejudicial ao país.

Economistas costumam fortalecer seus argumentos com estatísticas, mas esta está aí em quantidade suficiente para todos os gostos. O que não se pode negar é que  grande parte do “período áureo da economia brasileira” foi realizado com câmbio valorizado, juros altos e superávits fiscais – incluindo aqui a manutenção da DRU e a política de privatizações envernizada pelo modelo de concessões -, por uma política econômica ortodoxa, portanto.

A verdade é que o modelo de crescimento do período anterior jamais teria ocorrido sem a gigantesca valorização dos preços das commodities internacionais. O saldo positivo foi tão grande que tivemos sucessivos superávits até mesmo nas transações correntes, isto é, os nossos saldos comerciais conseguiram superar as remunerações de serviços (remessa de lucros, royalties e fretes, por exemplo). A exceção histórica desse período é tamanha que impressionou e confundiu até mesmo economistas experientes no tema do desenvolvimento, como Maria da Conceição Tavares.

Ter este modelo de crescimento no horizonte significa manter nossa pauta primário-exportadora, continuar aprofundando a dependência da demanda chinesa, manter a expansão territorial do agronegócio e da mineração no atual modelo humanamente predatório, com elevação dos desastres ambientais, dos conflitos com indígenas e quilombolas. Significa manter a regressão industrial, não apenas de nossa pauta exportadora, mas da produção interna, que se reflete em elevação de importações e que impacta o mundo do trabalho elevando a precarização e a superexploração. Significa acima de tudo, ocultar que a atual crise é resultado direto do modelo de crescimento do período anterior e que, portanto, sua retomada iria, mais cedo ou mais tarde, recolocar novamente a mesma crise. Em síntese, significa manter-se na trilha histórica do subdesenvolvimento.

Nordeste em 5: A subversão do preconceito

Por Rodrigo Santaella

Não é novidade que o conservadorismo tem mostrado cada vez mais a sua cara no Brasil. Os reacionários do país destilam, nas redes sociais ou nas ruas, posições homofóbicas, racistas e elitistas. Em diversas dessas posições existem claros elementos de flerte com o fascismo. Talvez um dos “nichos” de posições reacionárias no qual os elementos fascistas fiquem mais claros seja no preconceito contra os nordestinos, com fortes marcas de xenofobia. A cena de um nordestino, vendedor ambulante, morto em uma praia de Santa Catarina que seguia seu cotidiano sem incomodar-se em demasia com o corpo ali presente é uma das ilustrações recentes disso. Se a existência de grupos organizados para “combater” nordestinos no sul do país ou o discurso inflamado em redes sociais e comentários de reportagens relacionadas com o tema chamam a atenção pela virulência, a reprodução cotidiana dos preconceitos nos mais diversos espaços da sociedade – por óbvio, sobretudo no sul e sudeste do país – demonstra que o problema é complexo e tem fortes raízes sociais: é um elemento cultural que precisa ser combatido por todas e todos aqueles que buscam uma sociedade mais justa em nosso país.

Nasci no interior de São Paulo, e vim morar no Ceará com 6 anos. Criança e cheio de preconceitos… as pessoas me pareciam “mal educadas”, rudes… Aos poucos, com o passar dos anos, fui percebendo o que havia de fundo. Menos “por favores” e “dá licenças”, mais acolhimento, abertura para amizade imediata, bom humor. A rudeza de fora, no trato, tem origens muito claras nas raízes da população do nordeste. Não havia tempo para muitas cordialidades quando se tratava de sobreviver e desbravar os sertões do país sem nenhum tipo de respaldo institucional e por vezes tendo que enfrentar o latifúndio, além das condições climáticas. Havia tempo para solidariedade, proximidade, humanidade. Elas eram necessárias para a sobrevivência. Hoje moro a alguns quilômetros da praia de Fortaleza, e trabalho nos sertões de Crateús. Vivo duas faces diferentes de um nordeste multifacetado que me encanta todos os dias, e me considero um nordestino. “Só não me desconheci porque bebi de mim, esses mares”[1], diria Guimarães Rosa, e refletir sobre as impressões pré-concebidas que eu quando criança tinha do Nordeste antes de aqui chegar e nos primeiros momentos, só mostra o quão forte é a construção cotidiana do preconceito.

Trata-se de uma forma de opressão, por vezes nada sutil, que se articula de várias maneiras e atinge, como sempre, especialmente os e as mais pobres, as mulheres, os negros. De salários mais baixos à necessidade de abandonar o sotaque para alguns empregos: às vezes, “desnordestizar-se” parece necessário para legitimar-se em diversas áreas de atuação, entre elas a academia e a militância política, mesmo em organizações de esquerda.

Minha tentativa recente tem sido a do caminho inverso. Tenho a impressão de que a busca por ver o mundo, a luta de classes e as potências de transformação a partir da imersão e do conhecimento de uma cultura local nos ajuda, paradoxalmente, a uma perspectiva mais totalizante. E se o capitalismo é um ambiente inóspito para ser habitado, tal como a caatinga, a capacidade de sobrevivência, de luta e a busca por transformação – mesmo quando ela implica um certo grau de fé – por parte dos sertanejos podem ser boa escola para os que se querem revolucionários.

Sem nenhum tipo de bairrismo, quando a busca por construir sínteses transformadoras parte concretamente de culturas tão ricas de significado – da literatura às soluções do cotidiano das sertanejas cearenses, do bom humor à história de resistência e fé num amanhã melhor – o encontro proporcionado tem muito a ensinar. Neste sentido, as populações do nordeste brasileiro têm muito a contribuir para qualquer perspectiva radical de transformação, tanto com o dito e registrado quanto com o apenas vivido e sentido, cicatrizado em feições duras e lutadoras, que retratam a vida fincada no nosso sertão. Porque muitas vezes, a subversão do preconceito e o potencial emancipatório andam juntos e não precisam de palavras, afinal de contas, “o senhor sabe o que o silêncio  é? É a gente mesmo, demais…”[2]

[1] e [2]: Trechos de Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa, pp.386 e 319 respectivamente.

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Avanço da direita e recuo das forças populares

Por Helder Gomes

Não deveria restar qualquer dúvida, no atual quadro de crises, que para reverter a euforia conservadora é necessário fortalecer a crítica popular e apresentar alternativas à esquerda. Mas, o que parece predominar no chamado campo progressista tem sido a defesa do status quo, inclusive, com o argumento da necessidade de assegurar a plena realização do Estado Democrático de Direto e o respeito ao devido processo legal, no caso das denúncias de corrupção.

Após os 21 anos de regime militar, a tal transição democrática já ultrapassa 30 novos anos e hoje não se tem qualquer perspectiva sobre o que os governantes progressistas e as lideranças populares que os apoiam pretendem construir neste país. Parece que não se aprendeu nada, nem sob a violência dos instrumentos repressivos da ditadura e muito menos com as desastrosas experiências de políticas públicas dos sucessivos governos do chamado campo democrático e popular, que passaram a administrar prefeituras, governos estaduais e, mais recentemente, o Executivo federal. Até o tal orçamento participativo, que tanto sucesso fez nas reuniões do Fórum Social Mundial, foi esquecido, e hoje serve apenas como instrumento de legitimação de políticas pré-concebidas nos gabinetes.

Quais são as críticas mais relevantes que precisam se revigorar a meu ver? Logo de início, é preciso recuperar a essência das organizações partidárias que almejam um processo de transformações sociais, comparando-a com as experiências efetivas dos partidos de esquerda que passaram a participar da administração pública nas últimas décadas no Brasil. A conclusão é que, inclusive após a realização da perspectiva de construção de um partido de massas, as lideranças partidárias não agiram como dirigentes de organizações políticas transformadoras ao assumir o poder.

E não adianta repetir a cantilena das chamadas correlações de forças adversas e muito menos a da necessidade de paciência histórica. Já estão nítidos os limites das mudanças que essas organizações partidárias são capazes de operar e o quão estão suscetíveis ao padrão tradicional da política e da administração pública brasileiras, começando pelas formas arcaicas de financiamento de campanhas eleitorais, explicitadas mais uma vez com as notícias que saem agora dos tribunais. Mas, essa é uma questão menor, frente ao uso do fundo público para abastecer os lucros dos conglomerados empresariais e dos grandes bancos, endividando o Estado brasileiro em patamares, quantitativo e qualitativo, que todos sabem insustentáveis.

Não bastasse as PPPs nas áreas da infraestrutura (energia, transportes etc.), o governo federal contribui com a privatização das companhias de saneamento estaduais (via Caixa Econômica Federal) e tais parcerias e política de fomento se estendem também às áreas de saúde e educação, entre outras. É disso que se trata, ao mesmo tempo que estão destruindo a previdência os governos progressistas estão dilapidando a universidade pública e fomentam o projeto neoliberal de privatização das escolas do ensino básico. As políticas assistenciais e as políticas de credito fácil, que vão do Bolsa-Família ao Minha Casa, são políticas que abastecem a ganância de quem comanda os mercados consumidores e da construção civil, convertendo famílias empobrecidas em inadimplentes estruturais.

Essas são apenas algumas indicações que, para além do dogmatismo religioso predominante, poderiam entrar na pauta de um debate à esquerda sobre a retomada da perspectiva da revolução brasileira, especialmente, quando se tratar do arco de alianças possível de ser construído nesse caos.