Avanço da direita e recuo das forças populares

Por Helder Gomes

Não deveria restar qualquer dúvida, no atual quadro de crises, que para reverter a euforia conservadora é necessário fortalecer a crítica popular e apresentar alternativas à esquerda. Mas, o que parece predominar no chamado campo progressista tem sido a defesa do status quo, inclusive, com o argumento da necessidade de assegurar a plena realização do Estado Democrático de Direto e o respeito ao devido processo legal, no caso das denúncias de corrupção.

Após os 21 anos de regime militar, a tal transição democrática já ultrapassa 30 novos anos e hoje não se tem qualquer perspectiva sobre o que os governantes progressistas e as lideranças populares que os apoiam pretendem construir neste país. Parece que não se aprendeu nada, nem sob a violência dos instrumentos repressivos da ditadura e muito menos com as desastrosas experiências de políticas públicas dos sucessivos governos do chamado campo democrático e popular, que passaram a administrar prefeituras, governos estaduais e, mais recentemente, o Executivo federal. Até o tal orçamento participativo, que tanto sucesso fez nas reuniões do Fórum Social Mundial, foi esquecido, e hoje serve apenas como instrumento de legitimação de políticas pré-concebidas nos gabinetes.

Quais são as críticas mais relevantes que precisam se revigorar a meu ver? Logo de início, é preciso recuperar a essência das organizações partidárias que almejam um processo de transformações sociais, comparando-a com as experiências efetivas dos partidos de esquerda que passaram a participar da administração pública nas últimas décadas no Brasil. A conclusão é que, inclusive após a realização da perspectiva de construção de um partido de massas, as lideranças partidárias não agiram como dirigentes de organizações políticas transformadoras ao assumir o poder.

E não adianta repetir a cantilena das chamadas correlações de forças adversas e muito menos a da necessidade de paciência histórica. Já estão nítidos os limites das mudanças que essas organizações partidárias são capazes de operar e o quão estão suscetíveis ao padrão tradicional da política e da administração pública brasileiras, começando pelas formas arcaicas de financiamento de campanhas eleitorais, explicitadas mais uma vez com as notícias que saem agora dos tribunais. Mas, essa é uma questão menor, frente ao uso do fundo público para abastecer os lucros dos conglomerados empresariais e dos grandes bancos, endividando o Estado brasileiro em patamares, quantitativo e qualitativo, que todos sabem insustentáveis.

Não bastasse as PPPs nas áreas da infraestrutura (energia, transportes etc.), o governo federal contribui com a privatização das companhias de saneamento estaduais (via Caixa Econômica Federal) e tais parcerias e política de fomento se estendem também às áreas de saúde e educação, entre outras. É disso que se trata, ao mesmo tempo que estão destruindo a previdência os governos progressistas estão dilapidando a universidade pública e fomentam o projeto neoliberal de privatização das escolas do ensino básico. As políticas assistenciais e as políticas de credito fácil, que vão do Bolsa-Família ao Minha Casa, são políticas que abastecem a ganância de quem comanda os mercados consumidores e da construção civil, convertendo famílias empobrecidas em inadimplentes estruturais.

Essas são apenas algumas indicações que, para além do dogmatismo religioso predominante, poderiam entrar na pauta de um debate à esquerda sobre a retomada da perspectiva da revolução brasileira, especialmente, quando se tratar do arco de alianças possível de ser construído nesse caos.

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