Nordeste em 5: A subversão do preconceito

Por Rodrigo Santaella

Não é novidade que o conservadorismo tem mostrado cada vez mais a sua cara no Brasil. Os reacionários do país destilam, nas redes sociais ou nas ruas, posições homofóbicas, racistas e elitistas. Em diversas dessas posições existem claros elementos de flerte com o fascismo. Talvez um dos “nichos” de posições reacionárias no qual os elementos fascistas fiquem mais claros seja no preconceito contra os nordestinos, com fortes marcas de xenofobia. A cena de um nordestino, vendedor ambulante, morto em uma praia de Santa Catarina que seguia seu cotidiano sem incomodar-se em demasia com o corpo ali presente é uma das ilustrações recentes disso. Se a existência de grupos organizados para “combater” nordestinos no sul do país ou o discurso inflamado em redes sociais e comentários de reportagens relacionadas com o tema chamam a atenção pela virulência, a reprodução cotidiana dos preconceitos nos mais diversos espaços da sociedade – por óbvio, sobretudo no sul e sudeste do país – demonstra que o problema é complexo e tem fortes raízes sociais: é um elemento cultural que precisa ser combatido por todas e todos aqueles que buscam uma sociedade mais justa em nosso país.

Nasci no interior de São Paulo, e vim morar no Ceará com 6 anos. Criança e cheio de preconceitos… as pessoas me pareciam “mal educadas”, rudes… Aos poucos, com o passar dos anos, fui percebendo o que havia de fundo. Menos “por favores” e “dá licenças”, mais acolhimento, abertura para amizade imediata, bom humor. A rudeza de fora, no trato, tem origens muito claras nas raízes da população do nordeste. Não havia tempo para muitas cordialidades quando se tratava de sobreviver e desbravar os sertões do país sem nenhum tipo de respaldo institucional e por vezes tendo que enfrentar o latifúndio, além das condições climáticas. Havia tempo para solidariedade, proximidade, humanidade. Elas eram necessárias para a sobrevivência. Hoje moro a alguns quilômetros da praia de Fortaleza, e trabalho nos sertões de Crateús. Vivo duas faces diferentes de um nordeste multifacetado que me encanta todos os dias, e me considero um nordestino. “Só não me desconheci porque bebi de mim, esses mares”[1], diria Guimarães Rosa, e refletir sobre as impressões pré-concebidas que eu quando criança tinha do Nordeste antes de aqui chegar e nos primeiros momentos, só mostra o quão forte é a construção cotidiana do preconceito.

Trata-se de uma forma de opressão, por vezes nada sutil, que se articula de várias maneiras e atinge, como sempre, especialmente os e as mais pobres, as mulheres, os negros. De salários mais baixos à necessidade de abandonar o sotaque para alguns empregos: às vezes, “desnordestizar-se” parece necessário para legitimar-se em diversas áreas de atuação, entre elas a academia e a militância política, mesmo em organizações de esquerda.

Minha tentativa recente tem sido a do caminho inverso. Tenho a impressão de que a busca por ver o mundo, a luta de classes e as potências de transformação a partir da imersão e do conhecimento de uma cultura local nos ajuda, paradoxalmente, a uma perspectiva mais totalizante. E se o capitalismo é um ambiente inóspito para ser habitado, tal como a caatinga, a capacidade de sobrevivência, de luta e a busca por transformação – mesmo quando ela implica um certo grau de fé – por parte dos sertanejos podem ser boa escola para os que se querem revolucionários.

Sem nenhum tipo de bairrismo, quando a busca por construir sínteses transformadoras parte concretamente de culturas tão ricas de significado – da literatura às soluções do cotidiano das sertanejas cearenses, do bom humor à história de resistência e fé num amanhã melhor – o encontro proporcionado tem muito a ensinar. Neste sentido, as populações do nordeste brasileiro têm muito a contribuir para qualquer perspectiva radical de transformação, tanto com o dito e registrado quanto com o apenas vivido e sentido, cicatrizado em feições duras e lutadoras, que retratam a vida fincada no nosso sertão. Porque muitas vezes, a subversão do preconceito e o potencial emancipatório andam juntos e não precisam de palavras, afinal de contas, “o senhor sabe o que o silêncio  é? É a gente mesmo, demais…”[2]

[1] e [2]: Trechos de Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa, pp.386 e 319 respectivamente.

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