Retomar o crescimento?

Por Vitor Hugo Tonin

Crescimento nunca foi uma saída para o subdesenvolvimento. Ao contrário, pode até aprofundá-lo. É isto que a atual crise brasileira revela: a qualidade do crescimento recente da economia brasileira aprofundou o nosso subdesenvolvimento.

A atual frustração dos colegas economistas diante da política econômica adotada pela Dilma e da evolução dos indicadores da economia brasileira nos últimos dois anos, consegue superar o entusiasmo que os mesmos apresentavam ao final do segundo governo Lula e no segundo ano do mandato de Dilma.

Assim, muitos tem utilizado, para enfrentar o atual debate ideológico a consigna da “retomada do crescimento”. Segundo nosso eterno pai, retomar é uma palavra formada pelo prefixo re + tomar, indicando tornar a tomar algo, recuperar. Trata-se, portanto, de voltarmos a crescer como crescemos durante o que alguns chamam, sem enrubescer-se, de curta “Golden Age” brasileira.

Esta proposta está informada pela ideia de que a crise atual brasileira é agravada, senão determinada, pela política econômica. Entenda-se: câmbio, juros e metas orçamentárias. E, portanto, bastaria uma outra política econômica para iniciarmos a superação da crise. Nada mais falso e prejudicial ao país.

Economistas costumam fortalecer seus argumentos com estatísticas, mas esta está aí em quantidade suficiente para todos os gostos. O que não se pode negar é que  grande parte do “período áureo da economia brasileira” foi realizado com câmbio valorizado, juros altos e superávits fiscais – incluindo aqui a manutenção da DRU e a política de privatizações envernizada pelo modelo de concessões -, por uma política econômica ortodoxa, portanto.

A verdade é que o modelo de crescimento do período anterior jamais teria ocorrido sem a gigantesca valorização dos preços das commodities internacionais. O saldo positivo foi tão grande que tivemos sucessivos superávits até mesmo nas transações correntes, isto é, os nossos saldos comerciais conseguiram superar as remunerações de serviços (remessa de lucros, royalties e fretes, por exemplo). A exceção histórica desse período é tamanha que impressionou e confundiu até mesmo economistas experientes no tema do desenvolvimento, como Maria da Conceição Tavares.

Ter este modelo de crescimento no horizonte significa manter nossa pauta primário-exportadora, continuar aprofundando a dependência da demanda chinesa, manter a expansão territorial do agronegócio e da mineração no atual modelo humanamente predatório, com elevação dos desastres ambientais, dos conflitos com indígenas e quilombolas. Significa manter a regressão industrial, não apenas de nossa pauta exportadora, mas da produção interna, que se reflete em elevação de importações e que impacta o mundo do trabalho elevando a precarização e a superexploração. Significa acima de tudo, ocultar que a atual crise é resultado direto do modelo de crescimento do período anterior e que, portanto, sua retomada iria, mais cedo ou mais tarde, recolocar novamente a mesma crise. Em síntese, significa manter-se na trilha histórica do subdesenvolvimento.

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2 comentários sobre “Retomar o crescimento?

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