Porque desconectando posso me conectar…

Por Rodrigo Santaella

Não deixa de ser estranha a sensação de sentir-se estranho por não ser estranho em um mundo que se movimenta tão rapidamente que parece nos atropelar múltiplas vezes a cada dia, e nos dilacerar com a constatação de que nunca daremos conta dele inteiro, mas que é preciso esforçar-se todas as horas do dia para chegar o mais próximo disso: saber tudo o que está acontecendo, ter opinião sobre tudo, marcar presença – mesmo que virtual – em tudo[1].

O celular nos invade e pauta as nossas vidas. As redes sociais e o espaço virtual se tornam público para tudo, de reflexões interessantes a desabafos tocantes, de prosa e versos a informações irrelevantes sobre o cotidiano de cada um, o compartilhamento de notícias diversas e de todo tipo de coisa… A efemeridade e a linha cada vez mais tênue entre quem publica e quem vê, se por um lado democratiza a produção de informação e assim abre portas interessantíssimas para relações diferentes no âmbito da reflexão coletiva sobre a cultura e tudo o mais, também cria um acordo tácito que parece basear-se na superficialidade da apreciação: não há reflexão nem contemplação séria sobre nada do que está ali. Há curtidas, há críticas rasas, há novas publicações como forma de expor o que já imaginávamos antes, etc.

O mundo e o capitalismo globalizado, tendo desenvolvido as formas mais complexas de encantamento com a mercadoria e com o próprio modo de vida padrão do ocidente, torna os viventes nas cidades cada vez mais dependentes da troca imediata e constante de informações – sejam elas relevantes ou não, e a maioria não são. O celular e a nossa dependência de aplicativos como o whatsapp são a caricatura cotidiana mais expressiva acerca do fetiche que as mercadorias geram nos seres humanos do que qualquer pensador poderia conceber há algumas décadas atrás. Sabemos que são necessidades criadas artificialmente e totalmente supérfluas. Mas são necessidades. Me permiti pensar recentemente que podemos estar passando por uma espécie de fase de transição e adaptação a uma nova realidade, a novas formas de sociabilidade mediadas pela tecnologia, a novas formas de estar no espaço e no tempo, a novas formas (ou não formas) de contemplação da realidade. Mas isso é bastante otimista. Na verdade, ao que tudo indica, a velocidade das transformações tem aguçado nossa dependência, e a tendência é que mergulhemos cada vez mais de cabeça nessa nova forma de ser (ou de não ser), sem refletir absolutamente nada sobre suas consequências e sem ter a capacidade de mudar os rumos do que estamos nos tornando. É um mundo que gira rápido e se movimenta como nunca antes, na superfície! Mas todo esse movimento superficial parece contribuir para que o essencial permaneça como está. São algumas grandes empresas privadas as que gerenciam toda a troca de informações e, assim, na medida em que isso se torna mais e mais central em nossas vidas, vão nos modelando como consumidores felizes e iludidos com uma sensação de liberdade de forma muito mais direta do que em qualquer outro momento da história.

Não repudio as tecnologias, nada disso. Só acho que não deveríamos abandonar tão rapidamente coisas tão básicas e definidoras da humanidade como o pensar, o olhar nos olhos, o perceber e refletir sobre onde efetivamente se está, ter conversas mais profundas, o concentrar-se, seja para trabalhar ou para ouvir música, para estudar ou para namorar… e tantos etceteras. Nossos celulares, computadores, as redes que nos conectam, poderiam servir para potencializar tudo isso, mas me parece que, aos poucos, tendem a corroer muito do potencial reflexivo e transformador do ser humano. Muitos de nós passamos a maior parte do dia olhando para o celular do que para qualquer outra coisa, seja mãe, pai, companheiro, livros, televisão, tudo. Estamos presos. Somos reféns, e com uma síndrome de Estocolmo daquelas…

Enquanto não encontramos uma relação melhor com as redes e as tecnologias de comunicação, tem crescido em mim uma vontade de arriscar afastar-me, ousar desligar um pouco mais, controlar o que tem me controlado, e quem sabe conseguir cumprir o desafio, sempre necessário para quem se quer transformador da realidade, mas cada vez mais complexo, de abrir mão de pelo menos algumas das necessidades artificiais que vão nos adestrando e transformando nosso jeito de ser e de estar no mundo.

Tem me atraído cada vez mais a ideia de tornar-me um cara mais e mais estranho. Me permitir redescobrir que relacionar-se com o mundo de outra forma não vai abalar as estruturas do que considero – ou quero considerar – fundamental para a minha vida. Mas é tão forte a demanda criada, e é tão impressionante o poder da sedução, que compartilho, com toda dose de ironia/hipocrisia/contradição possível, essas reflexões justamente aqui. É a estranha dialética das possibilidades, mas também das contradições de cada um.

Com todas as contradições de expor justamente aqui essas reflexões, acho que ser mais estranho é um objetivo nobre em um mundo no qual o padrão é a mecanização crescente das relações. Quem sabe no desafio de crescente estranheza e no reconhecimento da contradição que move o mundo, não consigamos encontrar uma relação mais equilibrada com o que é tudo isso? Porque, parafraseando Chico Science desconectando, podemos, quem sabe, nos conectar…

[1] Não à toa, me sinto um pouco mal por não publicar agora um texto estritamente de conjuntura. Como assim, parar para escrever sobre outra coisa, com tanto acontecendo?

 

DSC_0208

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s