Carta à mãe de um policial assassinado (e à de um jovem chacinado)

Por Rodrigo Santaella

[Os nomes das mães e filhos aqui são fictícios. Todo o resto é real].

Dona Diana e Dona Carolina,

Não nos conhecemos, e por isso queria começar expressando toda minha solidariedade com sua dor, com a perda de seus filhos. Vivemos numa sociedade muito injusta, e em muitos aspectos doentia. Dona Diana, muitos morrem violentamente todos os dias em nossa cidade, e o seu filho, policial, foi mais uma vítima. Imagino que a dor de uma perda como essa seja incomensurável, e é muito triste que tantas mães tenham que passar por isso todos os anos em Fortaleza. Mães de policiais, mães de moradores das periferias da cidade, mães de jovens assassinados, mães de vítimas de chacinas… Sua dor e a dor da dona Carolina, mãe do jovem Paulo, professor voluntário de percussão em uma escola do bairro, trabalhador como o seu filho, assassinado brutalmente na porta de casa em Messejana no final do ano passado, são uma demonstração clara e cruel de como as coisas andam mal entre nós. A desigualdade, o anseio pelo lucro a qualquer custo e uma cultura de violência destroem vidas todos os dias.

Me considero um defensor dos direitos humanos, um defensor da vida. De uma vida digna, feliz e pacífica para todas as pessoas. Infelizmente, vivemos em um mundo no qual isso está tão distante, que parece uma longínqua utopia. Acho que a sociedade de classes, na qual uns exploram e outros são explorados, uns mandam e outros obedecem, tem uma capacidade impressionante de colocar-nos uns contra os outros. Tenho certeza de que a senhora se solidariza com a dor da dona Carolina, e tenho certeza que a dona Carolina se solidariza com a sua dor. Tenho certeza absoluta, e faço parte disso, que todos os defensores sérios de direitos humanos do Ceará estão do lado de vocês e sabem que vocês merecem todo apoio necessário, porque são vítimas de um sistema violento, assim como foram seus filhos. Queremos lutar juntos por um mundo onde isso não aconteça. E nós lutamos, todos os dias, contra o sistema – sejam as leis, os governantes, os financiadores, o tráfico, a ideologia – que se caracteriza por fabricar vítimas como os filhos das senhoras.

O Renato Roseno é uma grande referência em toda essa luta. O conheço pessoalmente, já há alguns anos. Sei que Renato sente em sua própria pele a dor e a brutalidade desse sistema. A cada morte, a cada estatística, a cada dado novo, a cada conflito, o Renato parece perder um pedaço de si mesmo. E só recupera esses pedaços, dia após dia, na luta para que isso não aconteça mais. Isso não é uma luta seletiva, que valoriza mais algumas vidas do que outras: a luta é por mais direitos e por vida digna. Vou te dar um exemplo: em abril de 2015, numa das primeiras ações de seu mandato, Renato estava participando ativamente da discussão sobre a promoção dos policiais militares, defendendo a ampliação de seus direitos. A senhora pode conferir aqui a notícia. Colo um trecho da notícia para a senhora: “Renato Roseno lembrou que tem se debruçado sobre o tema da segurança pública, mas, ao contrário do que muitas pessoas tentam passar, não há antagonismos com as forças de segurança. “É fundamental para um sistema de Direitos ter um sistema de Segurança Pública bem formado, bem equipado, bem remunerado, com carreira de Estado, ciclo completo e corpo único. Todas as nossas emendas têm um horizonte: a carreira única”, concluiu, solicitando mais uma vez a abertura para o diálogo com a Secretaria da Segurança Pública.” [1]

Somos iguais, dona Diana, e nossa luta é de todos nós: trabalhadoras, trabalhadores e seus filhos e filhas. Não estamos em lados opostos. Fazem parecer que a guerra é entre nós, para que não unamos forças contra o que realmente está na raiz do problema: uma sociedade desigual, com um sistema de segurança pública desumano, falido e atrasado.

Lutamos por uma sociedade em que Albertos, como seu filho, não precisarão arriscar suas vidas, sem condições de trabalho e jogados no meio de conflitos caóticos. Nela, Paulos não serão assassinados gratuitamente. Lutamos por uma sociedade na qual ninguém faria o que foi feito ao seu filho, Alberto seguiria entre nós, e Paulo estaria ainda tocando percussão em Messejana. Quem sabe os dois pudessem se conhecer em algum momento, tocar juntos, rir juntos.

Nós, dos direitos humanos, lutamos por isso. Renato Roseno dedicou toda sua juventude e hoje dedica sua vida a isso. Se para o seu filho, para o da dona Carolina e provavelmente para o de muitas mães já é tarde demais, pode ser que para tantos outros não seja. Peço, do fundo do coração, que não nos deseje o mal. Nunca fizemos isso à senhora nem ao seu filho, e nosso intuito é continuar lutando para evitar tragédias como a do dia 12 e como a de novembro passado. Se sua dor se transformar em vontade de transformação e buscar nas raízes a causa da morte do seu filho, não tenho dúvidas de que a senhora e nós estaremos ombro a ombro, do mesmo lado da história.

Meus sentimentos sinceros!

Rodrigo.

[1] http://www.renatoroseno.com.br/noticias/promocao-dos-policiais-militares

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