O show da Beyoncé e a conjuntura

Por Juliana Góes

No início desse mês Beyoncé fez uma apresentação no show de intervalo do Super Bowl (final do campeonato de futebol americano) homenageando os Panteras Negras e denunciando a violência policial. O preço desse show tem sido considerável para a cantora. Ameaçaram cancelar shows dela por causa do seu posicionamento político, marcaram ato na rua anti-Beyoncé, policiais estão boicotando o trabalho dela, etc. A esquerda se dividiu sobre o tema. Parte aponta para o fato da música apresentada no show do Super Bowl, Formation, defender o capitalismo, pois ela valoriza o consumo e o “ter dinheiro” (Beyoncé esfrega a sua riqueza na cara dos brancos), parte aponta para a importância do ato para fortalecimento da pauta antirracista.

Primeiro, é importante entender que negras e negros vivem em um mundo criado para brancos e brancas. O padrão de beleza é branco, só pessoas brancas são vistas como inteligentes e trabalhadoras, a TV é feita para gente branca, a universidade (ainda) é branca, etc. Nossas crianças já nascem sabendo que esse mundo não é para elas: dos personagens de desenhos e livros até a barbie, tudo é branco! A nossa necessidade de representação é real, é concreta.

Beyoncé, ao cantar contra o racismo, consegue captar essa necessidade. Sua performance permite que inúmeras pessoas negras se sintam um pouco mais representadas, além de chamar para o debate sobre o empoderamento negro e sobre as violências racistas. Lembro todas as vezes que escutei uma jovem preta chorando porque o cabelo é feio. Agora posso mostrar o show da Beyoncé e falar para a jovem que ela é linda, explicar o que é o racismo e falar da nossa história de luta. É mais uma referência que ganhei para mostrar negras fortes, poderosas, arrasando, e que nós podemos arrasar.

Isso significa que a música e o show são perfeitos? Não. Na música apresentada de fato o consumismo é exaltado, bem como o poder imposto pelo dinheiro. Quantas pretas poderão esfregar um Givenchy na cara dos racistas? Poucas… E mesmo se fossem muitas, será que é esfregando o fato de termos dinheiro na cara dos racistas que acabaremos com o racismo? O racismo e o capitalismo são faces da mesma moeda. Não poderemos acabar com o racismo, se também não falarmos de classe e acabarmos com o capitalismo. E o que isso significa para a nossa análise de conjuntura? Que temos uma necessidade real de mais mulheres negras no Congresso Nacional, na TV, na universidade, nas rádios, nos livros. Suprir essa necessidade de representação é muito importante para nosso empoderamento. Mas não podemos nos contentar em ter algumas representações e algumas pessoas negras ricas o suficiente para ostentarem. Não fazer recorte de classe é manter o sistema capitalista, o que significa manter a maior parte da negritude superexplorada. Nós precisamos voltar a acreditar no fim do capitalismo, precisamos resgatar o socialismo.

Por fim, quero falar para a esquerda branca. Você que faz vários argumentos racistas fingindo que são argumentos marxistas: para com isso. Beyoncé recebeu várias críticas da esquerda. Parte pela ausência de recorte de classe, que precisamos problematizar mesmo. Mas boa parte eram ataques racistas – era o fato dela ser uma mulher negra. Fidel perseguiu os terreiros e nem por isso vocês deixam de usar camisas dele. Ele não precisa ser perfeito, mas Beyoncé precisa? O capitalismo se sustenta no patriarcado, no racismo e no capital. E por isso, vocês atrapalham a revolução toda vez que abrem a boca e são racistas. Vocês se tornaram uma ameaça à revolução. Vocês são parte do motivo de várias negras não acreditarem no socialismo. Parem.

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