Quem vem da direita para a esquerda?

É inegável que vivemos em um mundo de muitas – e muitas – pessoas diferentes. E que essas diferenças dificultam nosso entendimento pleno do sofrimento alheio. Não é toda dor que eu sinto que uma outra pessoa, muito diferente de mim, sente. Da mesma maneira, é difícil se colocar exatamente no mesmo lugar que uma pessoa tão-tão diferente de você. Ainda mais quando essa diferença advém de todo um sistema de benefícios e malefícios que regem nossa sociedade como um todo. É demasiadamente complicado.

Mas não é impossível. Porque, ao que me parece, todo mundo dói. Todo mundo se machuca. E todo mundo sabe o que é sofrimento. Negar isso é negar a humanidade dos outros. É desumanizar, de forma maniqueísta, aqueles que são diferentes de nós. Por isso que há mais semelhança do que diferença entre aqueles que, em muitas ocasiões, defendem posicionamentos completamente diversos na política. Veja a atual situação dos presidenciáveis nos Estados Unidos, por exemplo. Lá, os dois candidatos que mais tem se destacado na mídia vêm de histórias de vida completamente diferentes entre si. E defendem coisas completamente diferentes também. Pudera, um é “socialista” em um país onde, até pouco tempo atrás, essa palavra era um xingamento; já o outro é um bilionário advindo do mercado imobiliário, dono de diversos prédios com seu nome estampado neles.

Mas ambos representam uma recusa do modelo de representatividade que está instaurado nas democracias ocidentais. Veja que curioso: ambos representam candidatos taxados como “outsiders” do cenário partidário comum dos EUA; ambos se dizem dissociados dos grandes bancos; ambos se dizem completamente contra os acordões da politicagem. E ambos se embasam na dor que os estadunidenses, em geral, sentiram – e ainda sentem – depois da crise de 2008.

Isso tudo para dizer, ou tentar ilustrar, uma coisa que as vezes nos parece trivial: pessoas são…pessoas. Elas tem histórias e experiências diversas, mas, ainda assim, tem muito em comum com aquilo que vivemos diariamente. Pessoas sofrem, doem, sentem-se frustradas. Ainda que de modo diferente. Se a esquerda se propõe a buscar uma mudança mais radical e duradoura para a sociedade, ela tem que entender isso. Ela precisa recitar isso pra si mesmo. Porque é preciso dialogar com as diferenças reconhecendo ao menos alguma semelhança. Caso contrário, nao se fala para fora dos já convencidos, dos já crentes, dos já fidelizados. Quem vota em Trump não pode ser entendido – de pronto e a priori – como um inimigo intransponível. Até para nao pressupormos um ponto de vista externo, superior e mais qualificado para dizer o que é o que; ou quem é quem. É necessário se abrir para essas contingencias da vida política para que as igrejas fundamentalistas não sejam a única instituição que ainda continuam acolhendo quem dói. Seja quem for.

Nós não precisamos de soluções prontas e nem de decisões verticalizadas de um ente superior capaz de prever e perceber tudo. Nós não precisamos, em síntese, de um novo Deus cartesiano. Nós precisamos de mais vida concatenada e imbricada por valores que são constituídos no dia a dia. Sem essa preocupação ou predisposição para um discurso mais amplo, mais aberto e mais sensível – sensível mesmo – ao que nos une; sem compreender as complexidades dos quase-absolutamente-outros, a mudança torna-se impossível.

Porque o problema de uma vida dialética é que ela sempre volta para nos morder na bunda. Se o método é de ataque devastador e fulminante, tal qual feito pelos moralistas-jacobinos na revolução francesa, não sobrará pedra sobre pedra para contar a história. Uma hora volta. Uma hora te pega também, por mais correto e superior que você se ache. É preciso tecer um caminho mais aberto mesmo. Mais reconhecedor de nossas próprias falhas e limites. De nossas dores narcisistas, de nossas preocupações individualistas, inclusive. Reconhecendo até quem não nos reconhece, até quem nos menospreza. Porque é essa a maior dificuldade de um fazer-se político revolucionário. E é ela a mais necessária.

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