Desapegar-se do “mito Lula” e não se iludir com a Lava-Jato

Por Rodrigo Santaella

As qualidades e o carisma como quadro público, a capacidade de expressar-se de forma simples e direta e a história que carrega sobre os ombros fazem com que Lula desperte encanto e sentimento de solidariedade em muita gente. De outra parte, é esse mesmo conteúdo histórico que ele carrega que desperta o ódio de muitos setores da sociedade. Admirado e odiado, Lula é um mito e é compreensível que desperte paixões, especialmente em uma situação extrema como a sua “condução coercitiva” para depor na última sexta-feira.

Entretanto, para aqueles que querem transformar a realidade, definitivamente é preciso desapegar-se do “mito Lula”. É inconcebível que a militância de esquerda e parte da intelectualidade do país se comporte de forma acrítica com relação ao que foram os governos Lula e Dilma. Sob a justificativa de que não haveria como fazer diferente, a opção por alianças com oligarquias as mais diversas, uma relação orgânica e bastante consolidada com setores do empresariado nacional e internacional, e os consequentes métodos de corrupção sistemática utilizados na administração estatal terminaram por destroçar quaisquer avanços que poderiam ter restado do chamado fenômeno do “lulismo”. Se em algum momento ele serviu para barrar alguns avanços neoliberais, isso acabou.[1]

Não só quaisquer avanços estão sendo desmantelados, como o próprio lulo-petismo toma muitas iniciativas nesse sentido. Retirada de direitos trabalhistas e ataques à Constituição de 88, privatizações, lei antiterrorismo, megaprojetos destruidores do meio ambiente, um fiasco na demarcação de terras indígenas, e tanto outros eteceteras. Tantas alianças e tanta corrupção em nome do projeto? Que projeto, caras pálidas? Lula, principal símbolo disso tudo, efetivamente atua como lobista internacional de megaempresas como a Odebretch. É aí que nós chegamos. E é essa a cara mais nefasta da decomposição melancólica de um projeto que surgiu da base e referenciado nas classes populares para tornar-se de cúpula e de setores das elites. Não é um projeto popular, longe disso.

Por outro lado, é preciso que não nos iludamos com a “Operação Lava-Jato”. Se ela tem o mérito de ajudar a elucidar mecanismos das entranhas da corrupção do país, não há dúvidas de que fere o Estado democrático de direito em alguns momentos, e o faz pautada em interesses também escusos. É o motor de um espetáculo bizarro, que empolga os desavisados e que conta com a volta escrachada de uma mídia que flerta com o golpismo e se encanta com as próprias possibilidades de incidir no futuro do país. A inspiração de Sérgio Moro na Lava Jato, a operação Mãos Limpas na Itália, contava com os mesmos métodos: vazamentos seletivos de informações alternado com prisões e apreensões espetaculosas, o que gera um espetáculo teatral midiático contínuo criador heróis e vilões. Agora, o jogo de troca-troca entre o judiciário e a mídia terminou por, de forma muito articulada, insuflar as manifestações marcadas para o dia 13 de março, oxigenando uma mobilização e uma agenda que já estavam arrefecendo no país. E nada é por acaso.

Depois de anos de fartura com os governos do PT, importantes setores dos “mercados” querem a queda de Dilma, e querem a cabeça do Lula. Isso fica claro quando vemos que o dólar baixou mais de 7% e a bolsa de valores teve as maiores altas dos últimos 7 anos nos últimos dois dias. O “mercado” não é neutro e contribui, pressiona e manipula suas peças no jogo político o tempo todo. A Lava-Jato tem tudo isso como pano de fundo, e é permeada por todos esses interesses – a blindagem e diferença de tratamento com relação aos partidos tradicionais do país, especialmente PSDB e PMDB, deixa isso muito claro – e por eles fere o Estado de Direito [2]. Não há o que se celebrar e não há heróis nessa polarização.

Não é hora de mobilizar-se em defesa do PT nem de Lula. Se a ação da PF deve requentar a ideia de uma polarização entre um suposto projeto popular e um projeto de direita, não devemos cair nessa cantilena. Não é hora de comemorar nada, nem a operação da PF nem o discurso inflamado e circunstancial de um Lula que lembrou velhos tempos. A hora é de aproveitar a crise para avançar na construção de outro projeto, pela base. As Frentes formadas não podem perder-se no discurso de defesa do governo ou de figuras como Lula, sob pena de perderem seu sentido. De imediato, não podemos esquecer do #ForaCunha, oportunamente deixado de lado no momento de maior fragilidade do Presidente da Câmara. Precisamos aproveitar o momento para criar uma nova plataforma dos movimentos que paute reforma agrária, dívida pública, democratização da comunicação, direitos sociais, etc. e ocupar espaços e o vácuo político que deve abrir-se no país. Se os espaços tendem a ser hegemonizados pela defesa de Lula e contra o impeachment, por um lado, e pela celebração de uma operação cheia de problemas e a busca pelo impeachment, por outro, nosso desafio, mais uma vez, é não cair na falsa polarização. Nessa disputa entre os de cima, o povo brasileiro tem pouco a ganhar. É preciso explicitar as semelhanças estruturais entre o que parecem projetos distintos, e ocupar o espaço, que tende a abrir-se com a perda geral de referências políticas, com a construção coletiva de outro projeto. Sem isso, seguiremos vendo a Nova República desmoronar em meio a uma disputa que há muito não nos pertence.

lula la

[1] Se dizíamos ainda em 2009, quando Lula tinha 80% de aprovação, que havia alguns avanços no governo, mas que por serem aliados a uma deseducação política e a uma lógica macroeconômica neoliberal impediam estruturalmente qualquer projeto efetivamente alternativo de sociedade, isso hoje está consolidado.

[2] É preciso dizer, entretanto, que o “estado de exceção” que tangencia uma operação como essas e que por ora assusta militantes do governo, atinge setores organizados do povo brasileiro há tempos, com anuência e protagonismo desse mesmo governo: lembremos do esquema de repressão montado durante a Copa do Mundo, para ficarmos em um exemplo.

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15 comentários sobre “Desapegar-se do “mito Lula” e não se iludir com a Lava-Jato

  1. José Francisco de Oliva Neto 05/03/2016 / 22:58

    Esse texto expressa verdades que devem levar à reflexão. A questão de como se opor à mídia manipuladora senão pelo mito, também está no contexto.

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  2. Luiza 06/03/2016 / 08:23

    Seria quase perfeito, esse texto, não fosse pelo fato de esses intelectuais que hoje o assim escrevem serem os mesmos que não conseguiram identificar em um analfabeto a incapacidade de dirigir um país e seus reais planos oportunistas. Poucos previram e enxergaram, Diogo Mainardi um deles. Dá coceira de repúdio ler e ouvir os analistas, hoje, dar opiniões não assumindo que opiniões emitidas incentivaram o fenômeno lulismo e, portanto, são parte, são também responsáveis pelo desastrado governo Lula. E ainda, continuar vendo esses intelectuais fabricando informações e formando conceitos pautados em suas vaidades e em seus próprios interesses pessoais . Concordo em grande parte do texto escrito mas ao se referir que em 2009 se dizia que 80% achavam que havia algum avanço no governo conota que o autor também assim concordava e só poucos conseguiram ver que esse governo, até em suas intenções, já iniciou avançando para trás. Poucos não embarcaram na “onda”, e ir na onda da moda é o grave problema das massas que seguem opiniôes pautadas em interesses que, como os políticos criticados, são embasados em garantir o bem pessoal em detrimento do coletivo.

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    • Rodrigo Santaella Gonçalves 07/03/2016 / 23:39

      Luíza, tudo bem? Tem o link do texto que escrevi em 2009. Não elogiava e nem era um adepto do governo Lula naquele momento. Seguem alguns trechos:
      “Voltando ao caso brasileiro especificamente, o governo Lula mantém a política macroeconômica neoliberal e segue implementando reformas neoliberais de forma fatiada (e aqui, pra não sair da Universidade, a reforma universitária muito parecida com a proposta pelo governo anterior, só que toda fragmentada – REUNI, novo ENEM, SINAES, etc. – é um exemplo claro). Quando se faz tudo isso tendo como pano de fundo um discurso progressista, o que se causa é uma deseducação política generalizada na população brasileira, ou pelo menos dos 80% da população que tem como referencia política principal o governo Lula. É a mesma deseducação política que se dá quando se afirma que nas eleições do ano que vem não teremos nenhum candidato de direita, por exemplo, ou quando se busca a integração regional no continente ao mesmo tempo em que não se toca jamais na questão do imperialismo norte-americano.

      Além disso, a fragmentação da esquerda, seja a esquerda partidária ou a chamada “esquerda social”, fruto da tentativa de cooptação dos movimentos, sindicatos, entidades estudantis e etc., por parte do governo, é outra característica comum a essas experiências mais moderadas. E essa fragmentação, em longo prazo, também pode trazer conseqüências gravíssimas para a reorganização da esquerda no continente. Na medida em que se fragmentam os movimentos e se deseduca politicamente a maior parte da população, o pilar sustentador de qualquer mudança concreta – que é o movimento popular organizado – perde sua força e seu potencial de emancipação durante muito tempo.”

      (…)

      “enquanto um projeto contra-hegemônico de esquerda poderia avançar 200 passos, com esses governos avança uns 30, 40… às vezes um pouco mais, às vezes um pouco menos. Entretanto, esse modelo de avanço, com as contradições e ambigüidades que lhe são intrínsecas, faz com que os outros 170 passos se tornem muito mais difíceis, muitos mais árduos e muito mais custosos. Então, avança-se um pouco, ao mesmo tempo em que se impede um avanço mais profundo em longo prazo.”

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  3. Fábio Borba 06/03/2016 / 18:03

    Ficaremos eternamente nesse ciclo vicioso de uma democracia de cartas marcadas se não mudarmos as regras, sim mudar de forma simples no conceito e complexa na execução .
    1 – Política é umas das profissões mais sérias que um pais pode ter, é a política que definirá de
    uma forma ou outra qual formação seu filho terá e quem cuidará dele quando ficar doente
    ( Acho que isso resume a importância ) e hoje o que exigimos de conhecimento de um
    político…nem para presidente nada…nada..em nome da democracia.

    2 – A política teria que ter níveis de ascensão , ou seja, entrar como vereador só então poderia
    ser prefeito depois deputado estadual depois governador, depois deputado federal e então
    Presidente. Isso ajudaria na análise da trajetória dos candidatos, mesmo que só
    pudéssemos ter um presidente com 70 anos, o filtro até chegar a esse posto seria bem
    melhor.
    3 – Os partidos políticos tem que ser responsabilizados pelos atos de seus integrantes de forma
    política e financeira..
    4 – O Político teria o dever “moral” ( o povo cobrar ) de usar apenas serviços públicos
    educação, saúde e transporte ele tem o maior interesse em fiscalizar esses serviços ele
    que tem que estar na linha de frente e ter a iniciativa.

    Pode parecer utopia, mas são 4 itens simples no conceito mas difíceis na execução , pois não cobramos isso, não compartilhamos dessa forma de pensar e cobrar, mas quem sabe começamos a fazer isso.

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    • Pedro 10/03/2016 / 10:09

      Parece que a solução é o negacionismo extremo… nem PT nem PSDB, vamos ficar olhando pra cima, lamentando tudo o que o PT deixou de fazer (sem nunca lembrar daquilo que de fato fez); vamos lamentar a aliança com a burguesia e esquecer os incluídos; vamos lamentar as demarcações não feitas e vamos esquecer os negros nas universidades; vamos lamentar a corrupção e esquecer o desaparelhamento ainda incompleto da PF e do MP; vamos lamentar a política de troca de favores e vamos esquecer a diminuição da desigualdade.

      Vamos fingir que tudo isso que esquecemos são fenômenos espontâneos, que aconteceriam de qualquer jeito, que não dependem de vontade política, nem de acordos sujos. Vamos ser sonháticos, ficar imaginando um outro mundo possível enquanto o mundo real nos funga às costas.

      Tem gente que acha que é isso o que se deve fazer.

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  4. Luciano 07/03/2016 / 13:02

    Na minha juventude tinha dúvidas das reais pretensões de Lula e do PT. Afinal, eles eram comunistas ou não? Mesmo com esta dúvida nunca deixei de nutrir muita simpatia pelo operário e o partido. A Carta ao Povo Brasileiro, em 2002, esclareceu que o objetivo não era lutar contra o capitalismo, e isto ficou claro logo no primeiro ano de governo Lula. A criação do PSOL em 2004 já foi o sinal de que o PT não era e jamais seria o partido de esquerda de que sempre se sonhou, que buscasse o caminho do socialismo, ainda que não saibamos como se chega lá e que tipo de socialismo se está buscando. Lula fez valer a máxima de Joãozinho Trinta: “pobre gosta é de luxo, quem gosta de miséria é intelectual”. E assim partimos no governo Lula e Dilma para o consumismo desenfreado que o neoliberalismo prega no mundo todo, só que agora com os miseráveis participado do banquete, pelo menos enquanto durou a fartura. Esgotados os recursos artificializados pelo sistema financeiro, caiu-se na real que a política econômica era de vida curta, e Dilma acabou por destroçar a economia insistindo em acreditar nas boas intenções do setor privado e no PMDB, além de manter uma posição que chamam de republicana com a oposição, a mídia e o judiciário.
    O PT fez o que estava ao seu alcance, fez o que o sistema permitiu que fosse feito, ocupou o centro da política, jogou o PSDB à direita, e deixou um vazio à esquerda. Vazio esse que não sabemos ocupar, não sabemos dialogar com pobres e trabalhadores. Ficamos no que pode-se chamar de masturbação intelectual, ambiental e política. Os 1,5% de votos de Luciana Genro nas eleições mostram muito bem o que é a esquerda brasileira: insignificante. Se tirarmos a militância petista das lutas sociais, o Brasil vira um país fascista em pouco tempo.

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  5. comofoiqueeufiz 07/03/2016 / 14:32

    A opção pela luta armada em combate à ditadura foi heroica, mas não trouxe a vitória desejada e, mais grave, não mobilizou a sociedade. A ideia de que uma vanguarda revolucionária poderia, com sua iniciativa, disparar a reação popular e a consequente queda do regime não se confirmou. Ainda assim, seria precipitado condenar pura e simplesmente os companheiros que deram suas vidas a essa empreitada. Os dias eram de repressão total e, portanto, de isolamento absoluto da militância. Trancafiada em aparelhos, exausta pela sucessão infinda de reuniões e debates teóricos, com o corpo bombardeado pela adrenalina do medo e do sentimento de revolta, nesse quadro era natural que qualquer leitura da conjuntura pudesse falhar. Se pudessem andar pelas ruas e avaliar de perto o sentimento popular, aqueles companheiros teriam, provavelmente, percebido que a massa trabalhadora estava longe do ponto de aderir a uma guerra civil, revolucionária ou não, pela reconquista da liberdade. Os heróis morreram ou foram presos e torturados, e aqui deixo a eles minha admiração e meu respeito. Mas é preciso, também, aprender com os erros.
    Vivemos dias difíceis, conturbados, ameaçadores. Mas hoje é possível, ao menos, e por enquanto, andar pelas ruas e conversar com o povo. É possível avaliar os sentimentos da sociedade. Qualquer encaminhamento de luta, portanto, que opte pelo isolamento será julgado pela história como o que é de verdade: elitismo intelectual, o que não é diferente de nenhuma outra forma de elitismo.
    A ideia de dirigir o movimento popular é tão tacanha quanto presunçosa. Contribuir para a conscientização da classe trabalhadora, e lutar por sua emancipação, não é sinônimo de vê-la como incapaz de escolher suas próprias prioridades. A ignorância circunstancial acerca dos movimentos da história não desqualifica nem o protagonismo e nem a sagacidade da grande massa anônima de brasileiros submetidos à estratificação social.
    Em recente debate, um experiente companheiro lembrou, muito pertinentemente, que a vida social é a prática. De minha parte, complemento lembrando que abstrair-se do processo histórico, ainda que por injunções derivadas de convicções de esquerda, é negar, na prática, a luta de classes.
    A pauta é da classe trabalhadora. E é com essa pauta que se deve nortear a própria prática, sob pena de descambar para um dirigismo estéril que, muito possivelmente, mascara a pior face de um militante: a vaidade de se achar melhor que a massa, mais capaz que ela de saber a verdade e mais preparado que ela para determinar os rumos do movimento.
    A postura dos companheiros do PSOL, atirando Lula e seus aliados na mesma lixeira em que jogam os partidos que representam diuturna e exclusivamente os interesses da burguesia, é um exemplo claro de isolacionismo e, espero que não, pode ser o sintoma de um oportunismo muito pior que qualquer coligação ou conchavo que, erroneamente, o PT tenha feito em sua fase de governo. Fica ainda pior quando, ao se escusar da luta contra os ataques ao estado de direito, usa em vão o nome dos movimentos sociais, cuja maioria tem a mesma pauta que a massa trabalhadora e, pior, onde o PSOL tem pálida representatividade exatamente por sua insistência em crer mais na própria clarividência do que na história.
    Lula não é um mito. É uma liderança histórica dos trabalhadores, nascido das lutas sindicais contra os patrões e contra a Ditadura Militar. É uma liderança popular inequívoca, reconhecido como tal pela grande maioria da sociedade brasileira, incluindo-se aí seus adversários e detratores. Lula não é um mito. Ele está vivo, comprova a cada dia sua representatividade e, como sempre, espelha os sentimentos do verdadeiro cidadão médio brasileiro.
    Só o delírio ou a megalomania podem estimular a suposição de que do combate entre a direita e o governo do PT, o PSOL e suas propostas possam sair vencedores. Se de fato ocorrer uma vitória da direita, toda a esquerda será, sistematicamente, tirada do mapa pela perseguição, pela difamação e pela ilegalidade. Se, ao contrário, a vitória for das forças que hoje se solidarizam ao companheiro Lula, será a vez do PSOL conhecer o fundo da lata de lixo onde pretende, de forma soberba, atirar milhares de militantes e milhões de cidadãos brasileiros que lutam, lutaram, votam, votaram, defenderam e defendem as conquistas sociais da gestão petista e, acima disso, não aceitam que a lei seja rasgada em favor dos interesses daqueles que, desde sempre, exploram o país como se deles fosse.
    Muitos dos fundadores do PSOL têm um passado honrado e corajoso na luta contra o arbítrio e na defesa da igualdade social. É em nome desse passado que o movimento popular espera que o PSOL seja capaz de autocrítica e não manche sua história nem com o isolacionismo, nem com o oportunismo e, muito menos, com a covardia.

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  6. Pedro 07/03/2016 / 15:34

    Awn, que meigo, alguém que quer ao mesmo tempo implementar uma agenda de esquerda pela via democrática-eleitoral e não fazer jogo sujo. Basicamente um chamado para a eleição apenas dos justos, honrados e virtuosos.

    Sentá lá, Cláudia, senta e espera. A esquerda purista e principista é a que a direita mais ama, porque fala bonito e não ganha eleição.

    E realmente PT e PSDB devem ser a mesma coisa, né? A perseguição política ao primeiro, promovida por mídia e judiciário, e a falta de investigação sobre o segundo devem ser fruto de, sei lá, uma preferência estética, numerológica, astrológica…. Já que o projeto é o mesmo, que as práticas são as mesmas, que os objetivos são os mesmos, só posso concluir que a Globo gosta mais de azul que de vermelho, e essa é a única razão para esconderem FHC, Serra, Aécio e Alckimin enquanto ficam atrás de pedalinhos e mini-cristo do Lula.

    Larga a mão de ser banana! Esse blá-blá-blá marinasilvista é bom em jardim de infância de escolinha construtivista. No mundo real o sistema é bruto, colega, e do pescoço pra baixo é tudo canela.

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    • Rodrigo Santaella Gonçalves 09/03/2016 / 12:06

      Caro Pedro, não o conheço, porque você não se identificou. Não disse se milita em algum partido ou movimento, nem nada. De qualquer forma, a despeito do seu tom gratuitamente arrogante, te respondo aqui brevemente.
      Primeiro, é da sua cabeça que surge a ideia de que estou propondo implementar uma agenda de esquerda pela via “democrática-eleitoral”. Releia o último parágrafo do texto. Se “criar nova plataforma dos movimentos” e “ocupar os espaços políticos que devem se abrir” são sinônimo de disputar eleições para você, para mim não são. Estou falando de mobilização social, trabalho de base, atuação por baixo.

      Com esse mote, chego à ideia “da esquerda que a direita mais gosta”. Meu amigo, a esquerda que a direita mais gosta é aquela que chega no poder e mantém o status quo, aliás, que faz os acordos necessários para que fique claro que o status quo será mantido antes de chegar ao poder. É aquela que abandona prontamente justamente o que estou defendendo, em nome de uma estabilidade, de uma governabilidade, do “possível”. É essa a esquerda que o Maluf adora. É essa a esquerda que Kátia Abreu e o agronegócio curtem. Há setores das elites que serão mais beneficiados (os “campeões nacionais”), e setores que serão menos, e por isso há uma disputa, e é uma disputa por cima. Quando a crise política e econômica chega num patamar em que é preciso derrubar um governo para que os investimentos voltem a crescer (obviamente com todo o ideológico por trás disso), os setores da burguesia que sempre foram mais críticos vêm para cima, e criam-se as condições até para uma unificação da burguesia e das elites em geral em torno dessa pauta, o que pode estar acontecendo agora (mesmo que vários setores da burguesia sejam muuuuito cautelosos com relação à possibilidade de impeachment ainda).

      PT e PSDB não são iguais. Procure um texto meu em que isso está dito e me mostre. Não há, e isso é óbvio. Mas o PT esforçou-se para se tornar cada vez mais parecido, e isso é um fato. Daí que na macroeconomia, em momento de crise, as soluções sejam as mesmas: a velha e revisitada receita neoliberal. Sem falar em ataques outros aos direitos sociais, repressão a movimentos, etc etc etc etc etc.

      O “sistema é bruto”, e “do pescoço pra cima é tudo canela”. Concordamos aqui. E justamente por isso eu não tenho ilusões de que vamos resolver as coisas via eleições, ou fazendo acordos espúrios, alianças com a direita no país inteiro, buscando uma ‘governabilidade’ que emperra qualquer projeto de transformação. Não vamos romper com um sistema bruto entrando no jogo, recebendo financiamento de grandes corporações. Não se passa impune quando se disputa na mesma lógica: o sistema subverte o projeto, e ele passa a perder o sentido. Você, tão sábio, devia saber disso.

      Se o sistema é bruto, respondamos com a brutalidade de não adequar-se. Esse foi o erro do PT, sob a justificativa de que “amansar-se seria a única forma de combater esse bruto sistema”. Pois é, deu no que está dando.

      Não tenho as respostas prontas, mas não me meça com sua régua.

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  7. Pedro 10/03/2016 / 09:07

    Pois é, ninguém tem as respostas. E enquanto uns ficam filosofando de papo pro ar, outros vão lá e fazem O QUE É POSSÍVEL FAZER tendo em vista a conjuntura, o contexto, as regras do jogo. Isso NÃO SIGNIFICA que a conjuntura, o contexto e as regras do jogo devam ser mantidas e não possam ser criticadas. Podem. Quer buscar um outro caminho? Ótimo. Quer pressionar qualquer governo, PT ou PSDB, pela reforma agrária, direitos indígenas, inclusão social, desenvolvimento sustentável, etc.? EXCELENTE!

    Mas por enquanto, a aplicação de projetos, políticas e ideais só pode se dar dentro de determinados parâmetros, e até para mudar os parâmetros é preciso se adequar a eles. Tem gente que acha que não. O pessoal da Rede dizia que não, mas a Marina foi correndo fundar… UM PARTIDO POLÍTICO! Claro! Certa ela! Não é com divagações e discursos esquisitos que se conquista o poder. Nunca foi, desde a Roma Antiga, e até antes.

    Mobilizar as bases é importante, mas não basta. É preciso que haja um porta-voz dessa mobilização DENTRO do sistema, senão não há comunicação entre as bases e aqueles que podem aplicar as reivindicações da base.

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  8. Pedro 10/03/2016 / 09:17

    O PT ficou 20 anos com esse discurso de “não vamos nos adequar”. O que eles fizeram durante esses 20 anos? NADA! Porque não ganhavam eleições, logo, não tinham acesso às ferramentas para fazer alguma coisa.

    Em 2002 o PT se adequou? Sim. Deu no que está dando? Também. Mas deu também na inclusão social de MILHÕES de brasileiros, no fim da miséria extrema, nos negros nas Universidades, em projetos de infraestrutura importantíssimos… cara, você joga fora o bebê com a água do banho.

    “Ah, mas se aliou com a burguesia, mimimi, blá, blá, blá”… Tem razão, o melhor era voltar a ser principista, decretar o calote da dívida logo em 1° de janeiro de 2003, jogar o país num caos econômico e deixar a direita governar sozinha até hoje.

    Você diz “É preciso explicitar as semelhanças estruturais entre o que parecem projetos distintos”. Colega, se você acha que os projetos só PARECEM distintos, então nosso papo acaba aqui.
    Se você não entende a diferença entre deixar a direita governar sozinha e o PT se aliar à direita para implementar, na medida do possível, a sua agenda, eu não posso fazer nada, a não ser esperar que um dia o senso de realidade lhe bata a porta e te faça descer do muro.

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  9. José Francisco de Oliva Neto 19/03/2016 / 19:13

    A mim parece, por tudo que estou acompanhando e após tantas questões complicadas colocadas, que a quebra naquele momento, da hegemonia do neoliberal no Brasil, está sob risco de voltar a estaca zero e é eminente. Estamos entre as maiores economias do mundo e com a maior das desigualdades social. A quem isso interessa que se mantenha? Àqueles que controlam o fluxo de capital e lucros, portanto esta nossa economia não pode se libertar.
    Mais uma vez, pelas nossas reservas naturais e intelecto nacional, o Brasil encontra meios de decretar sua independência e participar no clube. Mas, os poderosos a qualquer custo, vão tentar impedir.
    Não sei como, e me parece que somente o POVO UNIDO, convencidos e consciente que não é ou será com sectarismo das posições partidárias, que poderemos estabelecer novo pacto político social que priorize a riqueza do Brasil para os brasileiros com redução da desigualdade social.
    Isso não é o que os corruptos e corruptores, políticos ou não, querem. Não é o que aqueles a serviço de forças reacionárias, inclusive nossa mídia, querem, porque menos sobraria para eles.
    Tenho convicção de que todos aqueles que são verdadeiramente brasileiros querem isso, a riqueza do Brasil para os brasileiros com redução da desigualdade social, nas muitos estão cegos e influenciados, servem como massa de manobra.
    Mas, se não rompermos com o que se está anunciando, o que é que teremos. Portanto, alguém tem que acordar o povo brasileiro. O quanto antes porque ainda é tempo.

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