Os desafios da esquerda e a “primavera secundarista”

Entrevista concedida por Guilherme Boulos a Marco Antônio Machado Lima Pereira*

Num artigo publicado em agosto de 2015 no Le Monde Diplomatique Brasil, intitulado “Uma frente para disputar as ruas”, Guilherme Boulos assinalou que com o avanço das pautas conservadoras (ampliação das terceirizações, contrarreforma política, redução da maioridade penal, entre outras medidas) somado à crise do governo petista, “unir forças tornou-se uma questão de sobrevivência para a esquerda brasileira”. Na entrevista a seguir, Boulos reiterou a necessidade da formação de uma frente que seja capaz de mobilizar as forças populares, “fazendo das ruas palco principal de um projeto político de esquerda”. O entrevistado também destacou a importância do movimento secundarista na conjuntura política atual, sem deixar de situá-lo num contexto mais amplo de ascensão das lutas populares no país.

Confira a entrevista.

1. Que papel os movimentos sociais de esquerda como Movimento Passe Livre (MPL) e Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) têm desempenhado nesse contexto de governos voltados para a espoliação dos direitos dos trabalhadores?

GB – Está colocado um desafio para os movimentos sociais no Brasil atual, que é o de construir um novo ciclo de mobilizações. Um ciclo que dê base social para um projeto de esquerda no país. O ciclo petista que se inicia nos anos 80 e chega ao governo em 2002 está esgotado. Não representa mais qualquer potencial de transformação popular no país. Ao contrário, incorpora de modo crescente as pautas conservadoras e assume o papel de aplicar reformas antipopulares, como no caso da Previdência. Mas reconhecer isso não basta. Precisamos criar condições para uma alternativa de esquerda com base social, reconstruir um ascenso na luta de massas. Caso contrário, a esquerda brasileira estará relegada ao ostracismo.

2. O historiador inglês Eric Hobsbawm assinalou no livro Estratégias para uma esquerda racional que os setores mais conservadores preferem que os revolucionários se isolem, isto é, quanto mais sectário o espírito, melhor! Historicamente essa não tem sido a principal dificuldade das esquerdas no Brasil, sair do isolamento e ganhar capilaridade social?

GB – Sem dúvida. Podemos dizer que a esquerda tem dois vícios opostos, mas que se retroalimentam. De um lado, um campo que em nome das exigências da realidade, abre mão dos princípios e incorpora o projeto da classe dominante. De outro, um campo que em nome da necessidade legítima de enfrentar este descaminho, abre mão do contato com a realidade e de fazer política para a massa. Uma esquerda que passa a fazer política para as outras organizações de esquerda, em geral muito pequenas. Posicionam-se para incidir na posição do outro, com ataques despropositados entre si. Uma política ensimesmada, distante da base popular e com pouca capacidade de mobilização. Cria-se uma bolha, com os mesmos de sempre, com dialeto próprio e tudo mais, que não consegue se relacionar com os trabalhadores.

3. Você concorda com a afirmação do geógrafo David Harvey de que os partidos tradicionais de esquerda tornaram-se incapazes de enfrentar o capitalismo?

GB – Os partidos se desgastaram muito nas últimas décadas, não apenas os de esquerda. Há uma tendência mundial de rechaço à chamada “velha política”, aos “mesmos de sempre”. Nem sempre este rechaço toma caminhos de esquerda, basta ver o fenômeno da Rede Sustentabilidade por aqui. Ou de Beppe Grillo na Itália. Em outros lugares este sentimento contra o sistema político foi capitaneado pela esquerda, como o Podemos. Acho que, mais do que os partidos, há um desgaste fortíssimo do sistema político representativo em seu formato capitalista. Daí o fortalecimento de alternativas de organização de luta direta, por fora da institucionalidade.

4. Levando em conta a distribuição das forças políticas do país, você considera possível viabilizar a formação de uma frente de esquerda que congregue partidos políticos e movimentos sociais? Na conjuntura política atual, quais seriam os principais obstáculos a um projeto político como esse?

GB – Não é possível construir uma alternativa política a frio, sem sustentação popular. As principais organizações políticas dos trabalhadores surgiram de processos importantes de luta de massas, a quente. Por isso, entendo que o principal desafio é a construção de uma frente de movimentos sociais, focada na retomada de amplas mobilizações e atenta aos movimentos espontâneos da classe. Um espaço capaz de agregar setores organizados, dialogar com os não organizados e apontar uma perspectiva de saída pela esquerda para a crise do capitalismo. Sem sectarismos nem atrelamento a governos. Este é o caminho que temos buscado construir com a frente Povo Sem Medo, que tem protagonizado mobilizações importantes desde o ano passado.

5. Como você vê os desdobramentos dessa discussão sobre o impeachment de Dilma Rousseff? Você concorda com a tese de que há algo em comum entre os que advogam pelo impedimento e os que encampam sua defesa, a saber, a continuidade do sistema empresarial-oligárquico que rege o país?

GB – O MTST é contra o impeachment. Não por termos qualquer ilusão com o governo Dilma, que tem atacado duramente os trabalhadores com um ajuste fiscal desastroso. Mas porque uma saída com Temer, arquitetada por Eduardo Cunha e por este Congresso Nacional, seria ainda mais antipopular e carente de legitimidade. Evidentemente há pontos comuns entre a política do PT, PMDB e PSDB, aliás cada vez maiores. O governo Dilma tem inclusive se esforçado para aproximar ainda mais estas perspectivas. Mas há também um contexto de ofensiva da direita mais tradicional e atrasada – que se volta contra o próprio governo petista, apesar de suas políticas pró-capital – e que atinge direitos sociais de forma geral. Basta ver a pauta parlamentar do país em 2015, que deve ser continuada neste ano. Basta ver o perfil das manifestações de rua convocadas por esses setores, um desfile reacionário como há muito não se via. Essa dimensão também precisa ser considerada para o posicionamento na conjuntura.

6. Gostaríamos de saber seu posicionamento sobre uma Assembleia Constituinte autônoma e extraparlamentar que poderia criar mecanismos de participação popular. Ou seja, é possível vislumbrar a criação de uma democracia direta entre nós? Mas como garantir um regime democrático real (poder popular) se os imperativos do ganho e da acumulação do capital ditam as condições mais básicas da vida social?

GB – Evidentemente é preciso transformar o sistema político brasileiro. Eliminar a hegemonia dos interesses privados, ampliar os canais de participação, definir regras para aumento da participação das mulheres e negros no parlamento, por exemplo. No entanto é temerário levantar hoje a bandeira de uma Assembleia Constituinte como saída imediata para a crise. Se ocorresse uma Constituinte hoje, nas regras atuais do sistema político, a tendência seria uma Constituição ainda mais atrasada que a de 1988 e um sistema político mais fechado. A não ser que este processo seja resultado de ampla mobilização popular, aí sim. Mas nas condições atuais reproduziria a composição do Congresso nacional.

7. E o projeto de lei do deputado Rogério Marinho (PSDB-RN) que visa enquadrar professores que estimulam o pensamento crítico como “crime de doutrinação ideológica”?

GB – É mais uma excrescência da ofensiva ultraconservadora. Abriram a caixa, saiu tudo o que não presta, que muitos deles guardavam cuidadosamente há muito tempo esperando uma ocasião favorável. Projetos como este precisam ser combatidos decididamente pelo conjunto da esquerda e dos movimentos populares.

8. O que as ocupações e a experiência de autogestão dentro das escolas públicas podem oferecer em termos de estratégias de luta para os movimentos sociais e, igualmente, para as instituições de ensino superior que também estão sofrendo com os cortes e, igualmente, com as políticas de ajuste fiscal?

GB – Experiências como a das ocupações das escolas fazem parte de um conjunto de iniciativas radicais em defesa do espaço público, do direito à cidade e de enfrentamento ao Estado. Nesta mesma direção estão lutas importantes contra a especulação imobiliária, como o Ocupe Estelita em Recife e as ocupações de trabalhadores sem-teto pelo país. No caso das ocupações das escolas, os jovens secundaristas deram um dinamismo fundamental para a luta e tiveram capacidade de angariar amplo apoio social. Certamente, as iniciativas de autogestão nas escolas ocupadas foram fundamentais para a disputa do apoio social, demonstrando os reais objetivos do movimento. A popularidade do Alckmin caiu. A legitimidade da luta forçou o governo a recuar. Este é um exemplo importante para motivar novas lutas.

9. Você acredita que a “primavera secundarista” (sobretudo em São Paulo e em Goiânia) poderá abrir um novo período de lutas propositivas em prol dos direitos sociais e da educação pública e gratuita?

GB – Sem dúvida, aponta um horizonte. Mas acho que o que vimos até aqui é apenas um ensaio do que poderá vir nos próximos anos. O país está numa das maiores recessões de sua história, o desemprego aumenta e os serviços públicos estão perto do colapso. Há atores que ainda não entraram em cena com toda força. As periferias urbanas já têm dado demonstrações de insatisfação e mobilização. Isso deve se acentuar no próximo período, abrindo caminho para lutas ainda mais fortes e contundentes.

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*Marco Antônio Machado Lima Pereira é Professor de História Contemporânea na Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR), campus de Paranaguá.

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