Por um mito brasileiro

Por André Luan Nunes Macedo

Nem a Razão nem a Ciência podem satisfazer toda a necessidade de infinito que há no homem. A própria Razão encarregou-se de demonstrar aos homens que ela não lhes basta. Que unicamente o Mito possui a preciosa virtude de preencher seu eu profundo.

[…]O mito move o homem na história. Sem um mito a existência do homem não tem nenhum sentido histórico. A história, fazem-na os homens possuídos e iluminados por uma crença superior, por uma esperança sobre-humana; os demais constituem o coro anônimo do drama. A crise da civilização burguesa mostrou-se evidente desde o instante em que esta civilização constatou a carência de um mito.

José Carlos Mariátegui- O Homem e o Mito

 

Entrando na vibe do Pedro Otoni e do Sansão, de codinome intelecto Fernando Nogueira, venho aqui para refletir sobre o sentido de maioria tão necessário para o combate das elites multinacionais que mandam e desmandam no solo da querida Pátria brasileira. E, pegando um gancho nos seus textos, onde refletem às suas respectivas maneiras sobre as massas, acredito que a falta de horizonte está justamente na incapacidade real da nossa inteligência subversiva refletir sobre o quão importante é a criação de um Mito Brasileiro.

Se os evangélicos hoje navegam numa boa nas periferias é porque conseguiram difundir sua perspectiva de mito. Conseguiram dar mais horizonte de expectativa para seus fiéis a partir da sua leitura sobre o Evangelho. Se alimentam da sua esperança, arquitetando uma utopia de consumo, da boa vida e da prosperidade material. Mesmo que a realidade objetiva não consiga trazer, por meio da fé, esse bem bom danado vindo dos pastores.

Mito é esperança. O mito se baseia no passado, mas sua construção maior está na experiência de futuro, nas expectativas criadas. Um projeto político que almeje a emancipação revolucionária precisa, de uma vez por todas, caminhar junto à construção de um futuro, captando os interesses subjetivos e objetivos das maiorias. Precisa-se de um mito, de uma solidez que guie as noções de solidariedade e contraponha-se à filosofia dominante, individualista, falocêntrica e babaca proposta tanto pela moçada high-cult, encastelada nas suas contemplações mundano-acadêmicas, quanto pelo burguesão cowboy latifundiário, que possui seus intelectuais para reproduzir a ideia de que sua propriedade é fruto da ralação dele e da sua família ao longo da história.

Fazendo uma leitura sobre o mito, percebemos que, do ponto de vista da construção política, ela se transfigura em um ser humano. Hugo Chávez tornou-se um mito, um paradigma histórico para a luta política na Venezuela. Uma peça do mito socialista bolivariano, que possui intelectuais e povo dispostos a defender os ensinamentos do projeto político que está em curso.

Razão sem emoção é coisa de europeu do século XVIII. Um país tropical e continental como é nossa Pátria Amada não vive sem a utopia do Espírito Santo, que um dia há de aparecer e constituir um Paraíso por essas terras. O problema é que quem se diz subversivo copiou e colou durante anos epígrafes de Lênin para resolver os problemas do Brasil. As palavras frias da Europa não dão conta sozinhas se nós não retornarmos a nossa originalidade pachamamística. O Mito Brasileiro precisa de projeto, mas também de sentimento de fé. Precisa de imagens e símbolos, precisa dialogar com as representações sociais do imaginário coletivo. Para ter futuro, é preciso ter fé. Ter fé significa se esperançar com algo. Precisa do toque romântico de que um dia nossa Pátria Amada vai ser melhor. E não é a fé do padreco sozinho que irá fazer a revolução. Precisamos de algo mais.

(Continua)

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2 comentários sobre “Por um mito brasileiro

  1. Fernando Nogueira 13/03/2016 / 20:43

    Mano, texto muito bacana, O tema é muito bom – e polêmico, em certo grau.

    Não sei se tu conheces, mas se não, tem que conhecer, pra discutir essa onda do mito emancipatório socialista: Georges Sorel (principalmente “Reflexões sobre a Violência”), de onde Mariátegui tira a referência teórica socialista para a questão do mito e; Lucien Goldmann (principalmente “El Dios Oculto”), onde Goldmann usa a mesma estrutura da aposta pascaliana na existência de Deus para ver a aposta revolucionária como algo sustentado meio que por um ato de “fé”.

    Nóix

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    • Andre Luan Nunes Macedo 17/03/2016 / 01:19

      Ainda não li o Sorel e o Goldmann, apesar de já ter ouvido falar. Sei que há algo de soreliano na constelação conceitual do Mariátegui, mas ouso dizer que o mito também pode ser interpretado como uma visão latino-americana do Príncipe Moderno do Gramsci. Talvez na parte dois faça essa aproximação, se caso veja que exista de fato um nexo.
      Valeu pelas dicas!
      Tamo junto!

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