O Dilema do Momento: denunciar o golpismo e não acumular para o governismo

Por Rodrigo Santaella

Há, na atual conjuntura, algumas coisas que devem ficar claras. Primeiro, se havia alguma dúvida sobre o caráter antidemocrático dos procedimentos e dos métodos adotados para, a qualquer custo, prender Lula e efetivar o impeachment da Dilma, agora não há mais. A divulgação pública do conteúdo privado das conversas de um investigado, a continuação dos grampos depois de ordem para suspendê-los e toda o fluxo de informações entre partes do judiciário e a Rede Globo deixam claro que está em curso no Brasil uma tentativa de mudar a direção do poder executivo nacional “à força”, sem respeitar necessariamente os procedimentos democráticos criados para isso. Isso, apesar de muito diferente de 1964, e apesar de muitos dos que defendem a saída a qualquer custo da presidente não acreditarem, é tentativa de golpe[1].

É verdade que Estado de Exceção sempre existiu no Brasil. Para os pobres desse país, nunca existiu democracia plena. A atuação das polícias nas periferias, a dinâmica financeira que rege as eleições e iniciativas antidemocráticas e unilaterais do executivo federal são bons exemplos. A diferença da situação atual é que ela é mais escrachada, nacionalizada (na medida em que envolve o governo federal) e busca derrubar uma presidenta eleita e prender o principal dirigente histórico do PT, partido mais importante do país. Setores da burguesia pularam fora do pacto com o petismo quando perceberam que ele não era mais necessário (ou possível?) em um contexto de profunda crise econômica internacional, e passaram a fortalecer as iniciativas em torno da destruição de seus líderes, ainda que estes tenham usado dos mesmos métodos que os governantes anteriores para governar. É verdade, também, que o PT se transformou ao longo dos anos para manter as coisas como estão, e no poder há 14 anos (em boa parte destes com ampla maioria para governar) é protagonista das contradições que o Brasil carrega consigo hoje. O modus operandi dos governos petistas, os aliados e interlocutores prioritários (empreiteiras, bancos, grandes corporações) e também a prática pessoal corrupta de muitos de seus dirigentes são demonstrações claras que esse é um partido que, há muito, mudou de lado. Os lampejos mais esquerdistas e populares vêm sempre em momentos de tensão, e logo são esquecidos quando os problemas se resolvem. As opções desse projeto nos trouxeram à situação atual, na qual não parece que os problemas serão resolvidos para o PT.

Chegamos a uma conclusão quase óbvia, que já tem sido debatida por bastante gente: em todo esse Fla x Flu instaurado, o desafio é fugir da polarização cega e buscar a construção de outras perspectivas. Mas como combater a direita que flerta com o golpe (seja a liberal, a reacionária fascista ou tudo o que está na intersecção entre elas) sem ser engolido pelo governismo? As mobilizações do dia 18, organizadas sobretudo pelos governistas e hegemonizadas por eles, mobilizaram mais gente do que eles mesmos. Muita gente foi às ruas em defesa da democracia, contra a Rede Globo, contra as arbitrariedades de um juiz que se acha no direito de fazer o que quer… Muita gente foi às ruas porque se deu conta de que a vertente reacionária-fascista do antipetismo têm crescido bastante, a ponto de tornar-se relevante no cenário político do país. Mesmo que muitas das falas e bandeiras nas principais capitais do país fossem em defesa do governo, havia um sentimento progressivo e ao mesmo tempo bastante crítico ao governo em muitas das centenas de milhares de pessoas que foram as ruas. Em manifestações como essas, ficar de fora pode implicar perder potencial de diálogo.

É tarefa de todas as lutadoras e lutadores sociais dialogar com esse sentimento, contribuir com sua politização cada vez maior. Há caminhos a serem percorridos da crítica à Rede Globo ao debate da democratização da mídia; da crítica a Moro às contradições de um judiciário elitizado típico da democracia burguesa; da crítica às práticas e ao discurso da direita reacionária à reflexão sobre o sentido da política e a importância da esquerda; da perplexidade com o que se tornou o projeto petista à percepção da necessidade da construção do novo. É nossa obrigação contribuir com a construção desses caminhos, na positiva.

O petismo seguirá preocupado em defender o governo e o projeto que nos trouxe até aqui: não há mais possibilidades objetivas (não dá) e nem subjetivas (eles não querem) para uma guinada à esquerda no projeto petista, por maior que seja o blá blá blá. Portanto, se estaremos nas ruas com os objetivos de construir os caminhos e dialogar com o sentimento progressivo existente (e resistente), é preciso diferenciar-se completamente do governismo. Em manifestações massivas como as que virão no dia 31, temos que estar presentes com cara própria, nossas faixas, nossos panfletos, nossos mecanismos de diálogo: isso demanda organicidade, preparação e trabalho. Mais do que isso, precisamos organizar uma intervenção “para cima”. Não podemos naturalizar a virulência cinzenta (ou verde e amarela?) das manifestações da direita ou o clima de beligerância instaurado. É preciso combater sem flexibilizar nos princípios, mas para convencer quem está fora da polarização, precisamos de mais sorrisos do que ódio.

Se queremos ser parte da construção de um ciclo de esquerda pós-PT no Brasil, é um erro grave omitir-se ou achar que é suficiente mobilizar a pequena base social que temos. Por outro lado, é um erro talvez ainda mais grave deixar confundir-se com o governismo. É no limiar entre esses dois desafios – estar nas ruas e não ser confundido ou acumular para o projeto petista – que está a questão chave da participação da esquerda na atual conjuntura, e que deve definir sua força pelos próximos anos no país. A equação possível para o momento é: organizar a intervenção e a unidade com os setores da esquerda para estar nas ruas com cara própria, disputando cada milímetro de uma sociedade que tem se politizado à revelia dos nossos projetos, enquanto vemos o bonde da história nos atropelar.

[1] O que não significa que impeachment é golpe. A questão é que até agora não há fatos que sustentem crime de responsabilidade.

Manifestante segura cartaz com "defesa da democracia e do Estado de direito"

Foto de Júlio César Guimarães, da UOL.

 

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Um comentário sobre “O Dilema do Momento: denunciar o golpismo e não acumular para o governismo

  1. katz22 20/03/2016 / 18:42

    O golpe não é contra Dilma, não é contra Lula nem contra o PT.
    O golpe é contra você!

    Aos que agora torcem pelo o golpe e aplaudem a ruptura do Estado de Direito:

    Quando o país voltar a ser a décima-sexta economia do mundo (se tanto);
    quando crianças voltarem a morrer de fome – centenas por dia;
    quando a indústria nacional deixar de existir e só nos restar a exportação de commodities e mão de obra barata;
    quando todas as nossas riquezas pertencerem ao capital estrangeiro, sem que o País ganhe nada com isso a não ser os estouros de barragem de rejeitos;
    quando voltarmos a ser mera colônia extrativista, habitada por centenas de milhões de miseráveis e meia-dúzia de senhores de engenho…

    De que lado da cerca vocês acham que vão acordar?

    Vocês acham que vão estar tomando champanhe na varanda gourmet ou pegando fila para uma vaga de gari – como no final dos anos 90 – apesar do seu precioso curso superior?
    Que defesa vocês acham que terão perante qualquer acusação injusta, quando a rotina de “delações premiadas” e “domínio do fato” estiver consolidada em jurisprudência?

    Tem algum vizinho que não vai com a sua cara? Cuidado…

    Se você não faz parte do “clubinho” do 0,1%, não se iluda: você é tão descartável e vulnerável quanto qualquer pessoa do povo que você tanto detesta. Tão vulnerável quanto qualquer “petralha” ou “esquerdopata”.

    Depois não vale dizer que a gente não tentou, que a gente não avisou.

    Curtir

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