Vivemos uma rebelião das classes médias?

Por Alexandre Pimenta*em colaboração especial para o Brasil em 5 (participe também enviando seus textos aqui)

A tempestade perfeita chegou ao Brasil. O país é um dos alvos da vez na gigantesca crise do capitalismo que se arrasta desde 2008. Severa recessão, agudos conflitos institucionais e entre frações políticas dominantes (e emergentes), radicalização ideológica… Tudo parece indicar o fim de um ciclo econômico e de um bloco de poder e o início, nada sereno, de outro momento de nossa história.

A morte desse período histórico brasileiro – que se resume, grosseiramente, na era de ouro das commodities e proliferação de políticas de controle da miséria sob a liderança petista – não tem deixado espaço para o luto: a velocidade dos acontecimentos dos últimos dias mostra bem isso. Ou talvez a morte já estivesse anunciada em 2013 e não aceitamos. As massivas manifestações populares eram o sintoma de um descontentamento e esgotamento que ainda não tinham nem nome. E o que temos hoje seria a destilação desse funeral: de um lado, os governistas, que antes e agora falavam de golpe, mas aplaudindo a reestruturação do Estado de Exceção para os megaeventos; de outro, o exército verde-amarelo das classes médias e suas peculiaridades, que serão rapidamente analisadas aqui; e, por fim, o resto, os morros que desceram, os grevistas que foram às ruas, a juventude recém-“classe-c”- mascarada, para os quais foram e ainda são desferidos toda a infâmia midiática, a criminalização e vigilância governamental, e hoje se encontram difusos e aparentemente sem voz. Para esses, depois daquele junho, de fato a “paz” (no brutal sentido de pacificação das UPPs) foi total, como certeiramente disse Paulo Arantes.

Nessa convulsão social, de acirramento da luta entre as classes em toda sua complexidade e dispositivos, que, em nossa época, é espetaculatizada através de uma espécie de Big Brother Pay-Per-View, não podemos desviar os olhos das estrelas do momento: as ditas classes médias.

No último dia 13 de março, foram as classes médias que encheram as ruas do país e fecharam com chave de ouro a última ofensiva contra o governo federal e o PT, centralizada na muni pulite tupiniquim. E são elas que estão na tropa de choque contra aquela que parece ser a última cartada do governo: Lula.

Certamente o dia 13 e os seguintes não foram um raio em céu azul. Tanto pela genealogia de fatos que os antecederam, quanto pelas características estruturais desses setores nas formações sociais capitalistas. Faz-se necessário um esforço para compreender a atuação dessa enigmática “classe” na atual conjuntura. A meu ver, este parece ser um de seus elementos fundamentais.

Já que só temos 5 minutos, vamos a uma sociologia selvagem: em Poulantzas, vemos que as classes médias, possuidoras de pequenas propriedades e/ou “bons empregos”, por se encontrarem no intervalo entre as classes trabalhadoras e a “elite”, tendem a possuir uma posição social no mínimo ambígua. Suas relações politico-ideológicas são marcadas por uma rasteira crítica ao topo da pirâmide social, mas ao mesmo tempo pelo pavor de “proletarizar-se”, sobrevivendo assim através de distinções em relação às classes populares e por pretensões de ascensão. O mecanismo que articula essa ambiguidade é a fé na meritocracia: seus privilégios sociais são entendidos como fruto do esforço individual, da boa vontade e obediência cultural (como diria Bourdieu) e do bom uso dos aparelhos escolares (como diria Décio Saes). Quanto ao Estado, ela só espera uma coisa: que seja neutro, árbitro dos indivíduos que buscam “vencer na vida”. Ao olhar no espelho ela canta esperançosa “se todos fossem no mundo iguais a você”…

No Brasil, os programas de “inclusão social” do período petista começaram a ferir o narcisismo desses setores. Mas sua sobrevivência ainda parecia assegurada com uma gama penduricalhos materiais e simbólicos oferecidas pelo (de novo) país do futuro. No entanto, a crise trouxe a degradação das condições de vida da classe média (aumento do dólar, fim da redução do IPI, endividamento, inflação etc.), assim como o fantasma do desemprego, do “retorno” às classes baixas. Nesse contexto toda a ideologia dos think tanks libers e conservadores encontraram solo fértil para suas sementes e uma catarse específica, de direita, se formou contra o governo vigente e seu respectivo espectro de esquerda/desenvolvimentista.

Essa espécie de rebelião, não pode ser resumida a um teatro de manipulação, como boa parte da esquerda acredita. Essa rebelião, embora sustentada imaginariamente, possui bases materiais específicas, assim como detém certa autonomia às estratégias das classes de fato dominantes (cujo alguns representantes e líderes assistem assustados tais eventos atrás das grades – o grande troféu da rebelião: romper a impunidade da elite brasileira).

Façamos uma esquematização dessa rebelião:

1- os alvos: a ralé que vive de assistencialismo e seus supostos representantes políticos; os intelectuais que com um discurso hermético dissimulam um petismo enrustido; os movimentos sociais “vermelhos” que unem esses dois lados podres da sociedade; os políticos-empresários corruptos, último elo da cadeia alimentar, que são culpados em última instância por toda a crise – como se os 4% do PIB perdidos tivessem sido gastos em triplex e pedalinhos. Esses alvos, volta e meia, se condensam em arcaicos Judas, malhados ritualisticamente, como um passatempo: Lula ou Dilma infláveis, por exemplo, cuja punição moral-penal lavaria a alma do país e iniciaria uma nova era.

2- os aliados-representantes: o aparato jurídico-policial-midiático, únicos elementos “despolitizados” do cenário, capazes de por fim a esse horror sem fim sob o manto da técnica e legalidade, além de serem objetos reais de desejo, identificação e proximidade da classe média. O 13 de março deixou isso claro como água: o herói se tornou um juiz de primeira instância e outros servidores públicos justiceiros sem partido (como os policiais presentes, aplaudidos e companheiros de selfies)- e todo o espetáculo a passar no fiel espelho televisivo.

3- os métodos: coreografias, com suas camisas de marca e tênis de corrida; buzinaços, com sua dívida sobre quatro rodas; panelaços, em seus condomínios vigiados 24h; memes em suas timelines; manifestações, de indivíduos e não grupos; decisões judiciais que mais parecem colunas de revistas de grande circulação em busca de audiência e aceitação da opinião pública. Aqui temos uma presença constante de índices de distinção em relação às classes populares, como as manifestações ordeiras e o uso do seu arsenal de consumo como instrumento político, e de outro lado o uso da sua violência (ora anônima, ora messiânica) apenas sob o manto da “legalidade” e através de agentes investidos em cargos públicos (ou publicitários!).

4- o projeto: o maior dos enigmas. No mínimo a volta à normalidade, quer seja, ao cotidiano, às prestações, aos cursinhos – as viagens nas férias. Custe o que custar, nem que seja repetir o remédio que fez adoecer o doente: “austeridade neles!”. Tudo, menos o agora sem futuro.

Claro que esse tipo ideal tosco não comporta toda a complexidade dessa catarse: temos a velha guarda que aspira por um repeteco da ditadura militar. Pequenos grupos que agora se especializaram em depredar centrais sindicais e partidárias e agredir transeuntes avermelhados. Ou mesmo os que aguardam um Bonaparte (Bolsonaros ou outro pária do mainstream politicamente correto) que aparentemente diminuirá sua despossessão e sentimento de desorganização moral. Da mesma forma, esconde elementos difusos de revolta das classes populares no meio do mar verde-amarelo.

De todo o jeito é possível tirar uma lição de fundo: nesses 15 minutos de fama da classe média, onde ela sente o poder de certo protagonismo, sua seletividade “irracional” com o petismo, na verdade, é o que há de mais “racional” em sua revolta: o petismo simboliza, ao mesmo tempo, a elite impune no topo e um complemento profano, a ralé-militante que o defende. E mais importante, o curto-circuito disso tudo: a figura de operários e militantes que chegaram ao topo sem “mérito”. Toda a audácia será castigada, ninguém é um super-homem!

O PT combatido é em parte real e em parte virtual. A virtualidade é a simbologia de esquerda, de organização popular. O real é essa máquina que hoje governa o país com alianças das mais escusas e toca as políticas de sempre que deterioram a vida da maioria da população. Os governistas evocam essa virtualidade para ganharem aliados na esquerda – mas “esquecem” que eles foram os primeiros a tornar essa simbologia uma mera virtualidade.

A rebelião conservadora da classe média é um dos elementos da crise brasileira.  Assim como a resposta governista que começa a se ensaiar. Ambos possuem suas configurações ideológicas, seus não-ditos, seus desconhecimentos. Ambos estão nas ruas, mas a eles pertencem as ruas? Para quebrar o eixo dessa balança é preciso se perguntar onde está o resto de 2013 e quando este fará de novo sua rebelião. Talvez ela já tenha começado e novamente só notaremos depois de anos: nas escolas de Goiás e São Paulo, na resistência no campo e na periferia, e outros eventos não luminosos, mas que trazem o germe da única luz que teremos pela frente.

*Alexandre Pimenta é sindicalista e mestre em sociologia.

Protestos_de_15_de_março_de_2015_em_Brasília

Anúncios

2 comentários sobre “Vivemos uma rebelião das classes médias?

  1. Emanoel Schimidt 23/03/2016 / 12:16

    Querido Alexandre, como sempre, você realizou uma análise política de singular originalidade, acho brilhante e bem fundamentada sua análise da “classe média”, mas gostaria de fazer duas ressalvas em temas transversais que perpassam seu texto: 1- a centralização das manifestações de 2013 como momento original da rebelião social, como que preenchida de legitimidade para conduzir este processo; primeiro ressalto que esta massa como sabemos não é homogênea, segundo que ela se compôs de indivíduos orgânicos dos dois lados desta moeda, que se diluíram entre o verde-e-amarelo e o vermelho, somados da vanguarda esclarecida e iluminada anarquista, e de indivíduos autônomos, que também em partes hoje compõe um lado ou outro, dos que vão a rua; 2 – a simplificação de quem se levanta contra o golpe a noção de “os governistas, que antes e agora falavam de golpe, mas aplaudindo a reestruturação do Estado de Exceção para os megaeventos”; há quem se oponha ao golpe, entendendo que o que está em disputa é o poder ideológico de nossa sociedade, ao que a classe média se dedica com todas as suas forças para preservar, não sendo este engajamento de forma alguma acrítico ao governo, creio que este reducionismo é resultado da carência de um aprofundamento sobre a ideologia hoje hegemônica. Meus votos de que continue escrevendo e enriquecendo o debate político.

    Curtir

  2. Marcos Oliveira 26/03/2016 / 22:21

    Parabéns Alexandre!
    Em um curto espaço de tempo você consegue trazer bastante elementos sobre o atual contexto político brasileiro.
    É muito bom poder ver um texto como este seu, num momento em que circulam por aí muitos textos partidários (pró Impeachement X pró Dilma/PT). Você mostra bem o caráter conservador e reacionário presente em grande parte da classe média, inclusive o que a Marilena Chauí chama de sonho impossível (se tornar burguesia) e o pesadelo bem possível (se tornar classe trabalhadora) desta classe.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s