O medo e o fracasso da esquerda

“O assim chamado medo do erro é, antes, medo da verdade”

– Hegel.

É interessante perceber que a história das idéias é a história do fracasso. Até os pensadores mais marcantes e mais influentes acabaram a vida sentindo que nao conseguiram terminar suas obras de maneira satisfatória. De certa forma, isso parece marcar o que é “pensar o mundo”. Tal atividade requer um agir engajado que se debruça constantemente sobre limites: seja o limite do sujeito, seja o limite do(s) objeto(s). É o eterno falhar.

Nao parece ser por acaso que num mundo onde cada vez mais somos levados a pensar no ganho, na vitória, no sucesso, estamos cada vez menos capazes de refletir, de produzir, de construir ousadamente. Quem teme falhar não falha porque nao tenta. Mas também não faz nada de relevante. E passa a vida toda feliz com a estabilidade típica do que é medíocre.

Por isso que é importante fazer uma distinção entre a falência que decorre da incapacidade de tentar daquela que decorre do efetivo engajamento produtivo em construir alternativas. O fracasso russo, o fracasso chinês, o fracasso parisiense, o fracasso mexicano, o fracasso de Prestes são os que nos faltam. Não em seus símbolos e nem na busca pelo seu eterno retorno. As perspectivas que tentam simular o que já aconteceu ou que buscam reviver o passado apenas revelam a preguiça mental e material de se inserir no contexto e se arriscar nas contradições que denotam os avanços sociais.

Parece cada vez mais claro que o medo de fato ganhou uma batalha importantíssima na sociedade, já que todos vivem o êxtase de apontar dedos e crucificar erros enquanto poucos ainda se sentem capazes de se jogar no abismo do nada que requer os pequenos blocos de construção do novo. Novo porque inocente, novo porque destemido, novo porque contraditório também. O purismo é o pior inimigo dos acontecimentos relevantes.

Não é por outra razão que hoje a esquerda tem se visto num canto, acuada, tendo que defender um governo corrupto, ineficiente e – o que é pior – contrário a todas as bandeiras tradicionais da esquerda. Não distribui renda (desculpa, nao distribui), nao melhora o sistema educacional, não melhora o sistema de saúde, não melhora o sistema econômico, não melhora o sistema de justiça, não melhora o sistema da previdência. Somos obrigados a defender, ainda, o sistema da democracia liberal que, estamos todos cansados de saber, não funciona. É estado democrático de direito pra cá, liberdades individuais para lá, como se isso ainda nos resguardasse de algum avanço conservador. É realmente muito limite.

O pior é que tem sido o discurso possível. Não é capitulação, não é interesse direto na manutenção do governo dilma, mas é, sobretudo, um medo. Ou um medo misturado com uma preguiça. Ou um medo misturado com uma preguiça e uma incapacidade imensa de se auto-criticar. De ver na incapacidade geral, a nossa própria. De ver no discurso da manutenção uma real e vivida manutenção das nossas próprias vidas. Do nosso cotidiano. Do nosso fazer-se contínuo.

Faltam categorias, faltam projetos, mas falta muita audácia também. A audácia, por incrível que pareça, de fracassar. Fracassar feio. Como fracassaram tantas outras pessoas que efetivamente mudaram o rumo e a história do mundo. Porque, no fundo, esse medo de fracassar revela um medo talvez nao tao imediato, mas deveras presente: o medo de, inevitavelmente, ao tentar, acabar acertando.

O que parece permear a esquerda brasileira, às vezes, é uma vontade extrema, ainda que inconsciente, de manter tudo exatamente como está.

Anúncios

Um comentário sobre “O medo e o fracasso da esquerda

  1. batista filho 27/03/2016 / 21:32

    Excelente artigo. Que venham mais.
    Deixo um abraço fraterno.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s