Política, conjuntura e favela

Por Gabriel Siqueira

O Rio de Janeiro é um mosaico de pedra portuguesa, pintado de sangue com certeza! Esta primeira frase do texto lembra uma música quase atemporal na voz de Clara Nunes que serve de síntese para uma cidade de contradições profundas e violentas.

Primeiro, as favelas e/ou periferias representam hoje praticamente ¼ da cidade. Quiçá, se continuarmos com as atuais taxas de crescimento, estas áreas que o Estado chama de aglomerados subnormais serão 1/3 do Rio em breve. Nesse sentido, em 2010, a população residente em favelas representava 23% do total da população carioca, ou 1.443 mil habitantes. As proporções variavam significativamente entre as regiões da cidade, com amplo predomínio da Área de Planejamento – AP 1 (Central)[1]. Nela se localizam bairros como Rio Comprido, São Cristóvão, Santa Teresa, Catumbi, Mangueira e outros onde tradicionalmente estão muitas favelas. No Centro, a população das favelas soma 35% do total, ou seja, morar no Centro significa estar perto do trabalho e de mecanismos básicos da cidadania como escolas e instituições culturais e hospitais. Coisas simples, mas que faltam na periferia.

Em segundo lugar, quase não há documentos e discussões políticas sobre a conjuntura nas e com as favelas, estamos excluídos da política de diversas formas. As nossas favelas estão passando ao largo, mas não totalmente da política institucional, não porque não há participação dos nossos, mas sim pelo fato de não estarmos incluídos nas análises. Se por um lado “somos cidadão sem Estado”, como sempre afirma o presidente da Federação de Favelas do Estado do Rio de Janeiro – FAFERJ, Rossino Diniz, por outro, somos agentes políticos sem partido, uma vez que não estamos enquadrados num certo rol da política e da conjuntura tradicional. Por isso, decidi escrever esta breve reflexão.

Em terceiro plano, podemos perceber também o crescimento das favelas na Área de Planejamento – AP 4 (Barra/Jacarepaguá), região central da zona oeste para onde estão migrando várias instituições como, por exemplo, o Comitê Olímpico Brasileiro , sedes e instituições financeiras e governamentais. Ou seja, onde estão construindo outro centro da cidade, processo semelhante ao de São Paulo, onde também houve a migração do Centro e suas instituições da ‘XV de Novembro’ para ‘Avenida Paulista’.

Uma quarta observação é a de que a política de favela já vem acontecendo ao largo dos debates políticos centrais no país, as mesmas figuras políticas já se movimentam para bancar pequenos projetos, ações sociais nessas comunidades e cooptar lideranças com salários, uma vez que as associações e entidades de favelas vivem sem investimento e mendigando os tais projetos sociais prometidos pelo governo.

Para concluir, as favelas no Rio de Janeiro são o “fiel da balança” para qualquer eleição ou processo político. A direita histórica e orgânica já sabe disso e joga pesado nessa linha, óbvio que pra eles é mais fácil, pois tem o Estado na mão. Contudo, o campo popular de esquerda que acaba por considerar apenas plenárias e discursos como forma de fazer política deixa um enorme espaço em branco. É preciso pôr na agenda política as ações comunitárias contínuas, os projetos concretos, isto é, reformar uma praça, uma quadra de bairro, arrumar mais médicos para um posto de saúde, construir um pré-vestibular comunitário, produzir um baile funk, um campeonato de futebol e coisas deste tipo, pois tavez seja este o terreno onde poderíamos reverter a balança política carioca.

[1] Censo de 2010

Anúncios

Um comentário sobre “Política, conjuntura e favela

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s