Golpe: o dia depois de amanhã.

Por Rodrigo Santaella

É golpe. Podemos debater por horas se as pedaladas fiscais configuram crime de responsabilidade ou não. Juristas e especialistas por todo o país têm opiniões diferentes sobre isso, ainda que os mais confiáveis repitam exaustivamente que não se trata de crime de responsabilidade. Mas do ponto de vista que aqui quero abordar, essa não é a questão central. São as razões políticas que caracterizam o golpe. A crise econômica faz diminuir a taxa de lucro, os principais setores das elites e da burguesia perdem dinheiro e as condições para qualquer política de conciliação terminam. Então esses setores exigem que um programa de ajuste seja aplicado de forma rápida e radical, reorganizando o Estado para atender ainda mais diretamente a seus interesses. Os governos petistas nunca deixaram de aplicar esses ajustes, mas com vacilações e titubeios em momentos importantes, ocasionados especialmente pelas pressões de sua base social organizada. Pois bem, as elites brasileiras perceberam – antes do próprio PT e do governo – que agora não há mais margem para ambiguidades. É preciso aplicar o ajuste sem mediações, e para isso o PT não serve. Trocando em miúdos: querem tirar uma presidenta eleita pelo voto popular para colocar em seu lugar alguém que aplique um outro programa, justamente aquele derrotado nas urnas, que em parte vinha sendo aplicado pela própria presidenta.

O programa está claro no documento “Uma Ponte Para o Futuro”, apresentado pelo PMDB ainda em outubro do ano passado. É um ajuste neoliberal radical, sem vergonha de mostrar a sua cara: propõe privatizações e concessões, desvinculação de gastos com saúde e educação e, pasmem, “que as convenções coletivas prevaleçam sobre as normas legais” no que diz respeito ao campo trabalhista. Bye, bye, CLT. O programa visa organizar o país para que o povo pague sozinho pela crise. Para aplicá-lo, Temer já anunciou que comporá seu eventual Ministério com quadros do PSDB: os que não venceram pelo voto popular chegam ao governo a partir de uma ruptura institucional capitaneada por gente como Eduardo Cunha, que dispensa comentários. Golpe!

Como pano de fundo de tudo isso está uma sociedade completamente dividida, como se verá na votação do impeachment na Câmara amanhã. Hoje, o principal fator de divisão é o apoio ou não ao impeachment. Amanhã, independente do que aconteça, essa divisão continuará. Caso o impeachment não seja aprovado, ela se arrastará nos mesmos moldes por mais um tempo, já que as tentativas de tirar o PT do poder a qualquer custo continuarão. Caso o golpe se consolide, a divisão será aprofundada: ela se dará entre os que estão sendo prejudicados pelo ajuste econômico efetivado por um governo completamente ilegítimo, perdendo direitos constantemente e vendo sua vida piorar, e aqueles que do andar de cima são beneficiários do ajuste, que embora minoritários na sociedade, terão todo o aparato repressivo do Estado à sua disposição. Com esse embate concreto nas ruas, só há uma maneira de garantir o ajuste econômico de interesse do empresariado: reprimir cada vez mais violentamente as manifestações, e fazer retroceder paulatinamente a democracia no Brasil.

A luta de classes é o motor da história, dizia um velho barbudo. No Brasil, os últimos 14 anos foram uma tentativa constante por parte do grupo dirigente do Estado, especialmente do PT, de mostrar que isso não era verdade. Acreditaram piamente na ideia de conciliação, de que a história poderia caminhar via negociações de gabinetes e acordos de cúpula. À sua maneira, o PT se rendeu à tese do “fim da história”. Quando tinha uma base social ampla e consolidada, em nome da manutenção da estabilidade (para quem?), da governabilidade e da paz social, evitou grandes confrontos, não buscou construir reformas estruturais, não ameaçou os interesses do andar de cima em nenhum momento. Fez concessões ao povo, avançou em um aspecto ou outro, mas nunca em conflito direto com o grande capital. Pois bem, se os conflitos fundamentais foram apaziguados e adiados por 14 anos, a hora deles chegou. A luta de classes se dará de forma direta e explícita nos próximos anos no Brasil, e em condições piores do que poderiam ter sido há uma década, já que uma direita – no viés conservador e no neoliberal – que parecia morta no país foi ressuscitada (em grande medida pelas próprias opções do governo) e ganhou força organizada em uma sociedade que sempre foi conservadora. O PT cavou a cova de seu próprio projeto com as opções que fez, e quem o está enterrando são os piores setores da sociedade.

O dia depois de amanhã será o primeiro de uma nova era, na qual ficará absolutamente claro que a disputa pelos rumos da sociedade se dá nas ruas. Onde você vai estar? O tempo das negociatas e das ilusões com as discussões de gabinete acabou. O desafio dos setores progressistas e da esquerda radical é, com ou sem golpe, ir às ruas com uma plataforma de defesa dos direitos sociais e de avanços, com um programa para o Brasil. Auditoria da dívida, taxação de grandes fortunas e heranças, reforma agrária, reforma urbana, reforma política e democratização da mídia constituem o alicerce desse programa. Os sujeitos desse bloco são os movimentos que conhecemos, com a Frente Povo Sem Medo tendo papel fundamental de articulação, mas o aquecimento da luta de classes deve gerar cenários para novos instrumentos organizativos e políticos que surjam dos já existentes e daquelas e daqueles que estão de fora desses.

É hora de a esquerda voltar a discutir a totalidade, sabendo que a história não acabou e que os rumos do país dependem, mais do que nunca, da nossa capacidade de organização e disputa. Tempos sombrios parecem aproximar-se, e a única forma de lidar com eles é aceitar a convocação da História e fazer girar, com cada vez mais força, o seu motor. É tempo de luta.

dia depois temer

Fica clara a falta de talento deste que vos digita para as montagens. Na atual conjuntura, é o de menos.

Anúncios

Um comentário sobre “Golpe: o dia depois de amanhã.

  1. Rudival 19/04/2016 / 18:50

    O Brasil precisa mudar sua forma de fazer política, assim como seu modelo educacional de formação da sociedade.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s