O pós-Golpe

O impeachment aconteceu e não tem mais volta. Foram muitos dias de tensão, de divergências políticas, de chutes acadêmicos, jornalísticos e poéticos sobre o que aconteceria. Mas, no fim, aconteceu o que sempre aconteceu em nosso país, convenhamos. A força da mídia hegemônica, dos conglomerados industriais e do conservadorismo venceu a batalha. Foi uma disputa, mas eles venceram. Isso é uma análise que inclusive o PT fez lá em 2002 quando, para ser eleito, entendeu que teria que fazer aliança com essas pessoas. Esqueceu, porém, de, quando estava na crista da onda, cortar vínculos, fazer reformas mais profundas e ir para o pau com mais força. Não fizeram, agora pagamos.

O recrudescimento dos direitos sociais já vinha acontecendo no governo neoliberal do petismo, claro, mas acredito que esse projeto se fortaleça pós-impeachment. Porque algum interesse vigora na destituição da presidenta. E não é o combate à corrupção ou a limpa de “castas políticas”. Além do avanço do projeto neoliberal – que se apropria de nossas riquezas naturais e de nossos projetos de soberania – há a tentativa de se salvar dos processos em voga na Lava Jato. Simplesmente porque os conchavos existentes não auxiliam esses deputados que, hoje, buscam sua salvação da justiça. Não referendo a força punitiva e nem acredito que ela seja a solução para qualquer coisa, mas esse medo existe.

Falando em Lava-Jato,  acredito que, em verdade, há um avanço das forças impositivas e punitivas do Estado que clamam por uma sociedade mais silenciosa, mais conformada e mais endireitada. Esse avanço, ao que tudo indica, continuará. Mas com mais veemência, sem parcimônia e com apoio popular, diga-se de passagem. Afinal, incluir pelo consumo fortalece o discurso moralista e individual que enxerga em alguns “cidadãos de bem” e, em outros, tudo que há de abominável. Ele (o discurso) acaba fortalecendo a idéia de que é preciso fazer uma limpeza desses “pesos” para a sociedade. Sociedade movida a consumo, a visões individualistas de ganho que, em última instância, justificam – ideologicamente – as alianças fisiológicas típicas de nosso presidencialismo. Porque não vivemos vidas distintas das que vivem os deputados. E se tudo que buscamos se ampara em ganhos individuais, seja no campo moral, seja no campo cultural, seja no campo ideológico, é mais compreensível que outros vivam dessa forma. Nós precisamos nos entender também para entender os outros. Todo conhecimento é, também, reconhecimento. Não acredito, em suma, que seja mera coincidência que vivemos nessa selva: quando você vira as costas, te apunhalam sem qualquer crise de consciência.

Agora, tudo isso que nos acomete tem que servir de lição. Principalmente para aqueles que pensam num regime societário diferente. A radicalidade, ou o ataque às raízes dos problemas, precisa ser considerado com mais seriedade. Com mais franqueza, com mais esforço. Porque já tentamos os caminhos mais brandos, já tentamos a parte do Cristo que só que “dar a outra face”, sem nos lembrarmos que o outro lado do rosto estava revestido de radicalidade e mudanças estruturais. Parece evidente que o reformismo não funciona. Não para criar uma alternativa de poder. A nossa moral não é a deles, já alertava Brecht.

Claramente, não estou referendando os sectarismos típicos de uma moralidade burguesa que se traveste de revolucionária. Esta quer mais a manutenção do sistema (para continuarem se sentindo “os/as escolhidas”) do que uma efetiva mudança. Até porque esses atores sabem que, num eventual levante, não estariam a frente dele. E isso faz toda a diferença para esta vanguarda de si mesma. Até porque, a realidade é muito mais suja que o purismo e a sobrevalorização própria. Inclui se entender falho, inclui se entender incapaz de compreensão, inclui se entender parte do processo(e do problema) e não sujeito único dele. Então não há muito que se falar do esquerdismo sectário que, como diz o nome, está mais preocupado em realçar suas seitas.

Mas aqueles que se “sujam” na contradição precisam repensar a forma de operá-la. Como poderemos viver com a pluralidade imensa que existe entre nós e, ao mesmo tempo, combater um inimigo impositivo de maneira unitária? Como devemos nos portar nas eleições já que reconhecemos os limites dela? Qual fé vamos depositar na democracia liberal se já reconhecemos as dificuldades da democracia representativa? Quais são nossos horizontes? Parece que precisamos voltar à mesa de discussão e de convivência para que possamos disputar seriamente a sociedade. Esse me parece um diagnóstico compartilhado pela esquerda em geral. O que falta para iniciativas com mais fôlego acontecerem?

Porque é um fato que essas divisões – junto com nossas incapacidades de diálogo – já haviam prenunciando um possível retrocesso. Claramente, isso também se deve a “apostas” e escolhas da corrente majoritária do PT, que causaram imensos danos à esquerda social como um todo. Isso é um fato. Mas ao invés de apenas apontarmos dedos, é importante entendermos que nossa desfaçatez também se deve à completa e total ausência de um projeto alternativo real. A esquerda viveu nas sombras de projetos passados tanto no Movimento Estudantil, quanto no Movimento Sindical, no Movimento Sem Terra e em tantos outros que não conseguiram propor algo que nos retirasse desse marasmo que naturaliza o capitalismo e os modos de fazer política. Não é a toa que a maquina ideológica do capitalismo embutiu em nossas vidas o costume de nos fragmentarmos e de achar isso bonito, bacanoso e um “estilo de vida”. Nossas pautas foram compradas e revendidas pelo consumismo individualista para tirar da esfera política o embate e coloca-lo na esfera privada revestindo-o da ideologia da “escolha”, da “tolerância” e do isolamento. Cada um no seu quadrado. A fragmentação virou regra devido à operação e inteligência da atual fase do capitalismo. É a lógica do “divide and conquer” – dividir para conquistar. E tem funcionado.

Daí a importância da auto-crítica política e pública de alguns de nossos erros, de algumas das práticas problemáticas nas quais incorremos diária e cotidianamente. Mas sobretudo de entendermos nossa dificuldade real de lidar com o capitalismo e suas diversas facetas. Nós temos essa dificuldade. Não temos conseguido levantar experiências e alternativas concretas a esse sistema universal, integralizado e global. Os ataques do sistema capitalista são precisos, avassaladores e implacáveis. Até as reorganizações pelo mundo afora, seja na Espanha, na Grécia, em Portugal, na Venezuela e no Chile tem sofrido com as investidas do Capitalismo. Basta lembrar que, hoje, os aparatos de controle são muito mais precisos, invasivos e destrutivos que os de antes. O Estado Punitivo serve o capitalismo e nos enfraquece quando não possuímos estratégias precisas para comabtê-lo.

Bem ou mal, acredito que estamos todos e todas em barcos semelhantes. E isso tem que ser entendido a luz das minhas crenças e dos meus preceitos, que certamente permeiam todo o texto. Tendo a não acreditar que seja possível melhorar as coisas parcialmente. Ou seja, não acredito que a história tem nos dado razão para confiar em “reformas brandas”. Porque a lógica do sistema é de exploração. E continuará sendo. A cada momento, cria-se um novo patamar para fazê-lo, com novos adjetivos, novos predicados, que poderão justificar uma exploração maior. Nação, cor, gênero, religião, etnia, ideologia, cada um a seu momento, é usado e reutilizado para legitimar a super exploração. O que parece imperativo é notar como essa lógica de funcionamento social, esse sistema social, não tem nos auxiliado a resolver problemas. Pelo contrário, tem servido para incrementá-los. Inclusive, tem contribuído para dificultar nossas tentativas de produzir alternativas sociais ao capitalismo, ao enaltecer uma ideologia individualista que dificulta projetos em comum e contra-hegemonicos.

Uma das coisas mais belas da revolução russa – que não temos que repetir, mas com a qual precisamos efetivamente aprender – foi a criação de poderes alternativos reais à estrutura de poder da época. Os sovietes eram verdadeiros órgãos representativos da classe trabalhadora em oposição ao congresso czarista. É um equívoco, ao meu ver, preocupar-se demasiadamente com os espaços criados para e pela burguesia, como se fossem eles que legitimassem nossa existência. O estado nacional foi criado pela burguesia, as estruturas de poder foram desenhadas pela burguesia e o funcionamento da democracia representativa foi também idealizado por eles. Longe de fazer uma crítica “originalista” desses poderes, como se eles fossem essencialmente ruins somente pela sua origem, apenas digo que essas estruturas não nos bastam, não nos contemplam e – sobretudo – não tem nos representado. Não é uma crítica a priori, portanto, é uma crítica ao que temos visto na história. As alianças com a burguesia tem nos traído há mais de 100 anos já. A tese da conciliação e classe não trouxe ganhos reais para a população. Os discursos da ética e da moral também se mostram completamente insuficientes para romper com as práticas legalizadas de compra de votos. Ou alguma empresa doa dinheiro para a campanha de candidatos por puro altruísmo?

Por isso, defendo que a reorganização da esquerda não se paute pela institucionalidade. Não se julgue pelas vitórias nas “urnas” compradas. Mas esteja disposta a lidar com a dificuldade que é criar poder popular e – sim – paralelo. Porque o que está aí já nos foi tomado em diversas ocasiões. Alguns diriam, até, que nunca nos pertenceu. Não podemos ter medo de fracassar, não podemos ter medo dos sacrifícios, do esforço e da disputa concreta. Mas, sobretudo, não podemos ter medo da verdade. De sua construção diária, ideológica e agregadora. Não podemos, pois, entregar de mão beijada aos 1% o que pertence, também, aos outros 99%.

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Um comentário sobre “O pós-Golpe

  1. Abc 21/04/2016 / 23:47

    Dá uma olhada no significado de “recrudescimento”. Usar palavras e estruturas de escrita menos elite acadêmica é mais certeiro para evitar esse tipo de gafe, além de ser mais coerente com o objetivo de alcançar o leitor comum. A quem interessa a pompa no discurso do escritor de esquerda?

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