A Nova República acabou, e agora?

Roberto Santana Santos

Com o fim da Ditadura em 1985, se iniciou o período atual da história do Brasil, batizado como Nova República. O centro de sua ideia original seria a construção da democracia, como antítese da sua predecessora. A Constituição de 1988 marcou as regras do jogo pela disputa do poder, e assim foi assimilada, tanto à direita quanto à esquerda. Quem quisesse disputar o poder deveria seguir estritamente as regras constitucionais estabelecidas na Carta Magna.

Se por um lado isso garantiu a livre organização política para a esquerda (que na Ditadura, não tinha o direito de sequer existir), por outro a prendeu no jogo institucional liberal-burguês. A Nova República é um regime liberal, pertencente, portanto, à visão do inimigo. As conquistas alcançadas dentro desse jogo não foram poucas, mas não podem servir de pretexto para abraçá-la acriticamente. Esse foi o erro cometido pela experiência de esquerda no período, principalmente pelo seu mais potente instrumento, o Partido dos Trabalhadores.

O golpe sobre Dilma Rousseff, no entanto, anuncia aquilo que já vem sendo apontado pelos comentaristas e forças políticas mais atentos: A Nova República está esgotada e perto do fim. Nenhuma força política fruto dela (PT, PMDB, PSDB) possui propostas para renovar o arranjo e reconciliar os diversos interesses sociais. Abre-se no Brasil um longo período de instabilidade e confrontação social. O golpe disfarçado de impeachment é o seu começo, não o seu fim, como quer colocar de maneira mentirosa a grande mídia. O golpe significa o rompimento das regras do jogo, e, uma vez consumado, não haverá chance de reconciliá-lo.

A pergunta vital deve ser refeita: quem será capaz de superar a Nova República? Como sempre, o povo já saiu na frente, e os indícios para responder essa questão já aparecem nas ruas. A resposta está na juventude, que não fez parte do arranjo de forças que concebeu a institucionalidade atual, nem se vê representada por nenhuma delas. Uma juventude que, à revelia das cabeças políticas, lotou as ruas em junho de 2013 por transporte público de qualidade, ocupa escolas em prol da educação, debate feminismo e racismo como “nunca antes na história desse país”, que vem sendo educada à base de grandes manifestações praticamente semanais em sua vida.

Qual será a postura dessa juventude quando começar a receber as “medidas impopulares” do governo ilegítimo de Temer e Cunha, patrocinadas pela Globo e a FIESP? Quando o salário-mínimo não subir mais acima do nível da inflação, quando a aposentadoria dos seus pais e avós não subir mais junto com o salário-mínimo, quando o curso técnico, as universidades e os programas sociais tiverem suas fontes secadas? Quando o futuro prometido pelo pré-sal for todo para a mão dos gringos?[1]

O sujeito para a mudança radical que o Brasil precisa já está aí. O dilema é organizá-lo e a certeza é que não será por meio do que existiu nas últimas três décadas. A Nova República acabou moralmente no golpe de 2016, mas para deixar de existir materialmente, ela precisa ser derrubada e um novo regime construído sobre ela. Nenhum apelo a esta institucionalidade é mais válido. “Não temos nada a perder, a não ser nossos grilhões”.

Roberto Santana Santos é historiador, doutorando em Políticas Públicas pela UERJ. Secretário Executivo da REGGEN (Rede de Economia Global e Desenvolvimento Sustentável) da UNESCO e ONU. Autor do livro “Coronéis e empresários: da esperança da transição democrática à catástrofe neoliberal”.

[1] Todas propostas do PMDB em seu documento “Ponte para o futuro” <http://pmdb.org.br/wp-content/uploads/2015/10/RELEASE-TEMER_A4-28.10.15-Online.pdf&gt;

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Brasília – Manifestantes pró (à direita) e contra (à esquerda) o impeachment ocupam a Esplanada dos Ministérios durante o processo de votação na Câmara dos Deputados ( Juca Varella/Agência Brasil)
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