A farsa democrática

Por Helder Gomes

Talvez fique mais explícito o sentido das atuais crises para quem vive e trabalha em uma região do Brasil reconhecida como a periferia da periferia. Como capixaba, parece ficar mais nítida a manifestação concreta daquilo que os clássicos do pensamento social brasileiro chamaram de resquícios de nosso passado colonial, da acumulação primitiva, tanto no que tange aos efeitos do acirramento das contradições em nossa sociedade, como no que se refere às tentativas de solução para os impasses daí derivados.

Momentos como este que vivemos sempre tornam ainda mais evidentes algumas marcas dessa situação, que sempre se apresentam como heranças malditas: a incapacidade interna de se propor e levar adiante um projeto soberano de nação; a necessidade de tapar o sol com a peneira diante da perspectiva vã de preservar a falsa imagem de Brasil potência (do futuro); a proposição e a implantação de políticas reacionárias sob o argumento de que ainda não chegou o momento de avançar rumo ao primeiro mundo prometido.

Depois de tentarem esconder as trágicas consequências da politica de estabilização monetária oriunda do tal Consenso de Washington, com as comemorações dos 20 anos do Plano Real, as elites brasileiras se veem novamente compelidas a recuperar antigos instrumentos de repressão às contestações, diante do desemprego crescente, do arrocho salarial e da incapacidade de manter as políticas públicas essenciais. Parte-se para uma nova seleção de prioridades, exigida pelas metas de cumprimento dos compromissos com o grande capital sediado nas potências imperialistas efetivas.

Até alguns anos atrás, a tsunami econômica foi tratada como marolinha, porque foi possível atrair alguns investimentos estrangeiros em fusões e aquisições de empresas, motivados pela flexibilização da legislação trabalhista, pela desregulação da política ambiental, pelo acirramento da regressividade tributária, pela abertura de linhas de financiamento público subsidiado e de participação direta via BNDES, Banco do Brasil e Caixa.

O capital precisa de mais que isso na medida em que as crises se aprofundam em escala mundial e as disputas políticas internas são motivadas pela busca de oportunidade de negociar, a um bom preço, as condições em que os próximos governantes irão entregar o que as grandes empresas estão demandando do Estado brasileiro.

Independente do desenlace da atual tentativa de golpe em Brasília, os governantes tenderão a manter a entrega do patrimônio estatal e a deterioração dos instrumentos de regulação sobre as atividades privadas, nas três esferas administrativas (União, Estados e Municípios), como forma de abrir ainda mais oportunidades para a acumulação diante das dificuldades de investimentos em novas unidades produtivas.

A experiência mostra que haverá resistência popular. Ao lado das formas draconianas de acumulação primitiva, sempre se mostra necessário recuperar o instrumental aparentemente ultrapassado de fazerem as coisa funcionar. Daí a repressão via lei antiterrorismo, o uso da violência descarada sobre os estratos sociais desprotegidos, as drásticas alterações nas bases curriculares na educação básica e no ensino superior, as restrições às atividades docentes, promoção ideológica da preservação da docilidade nos comportamentos e costumes, etc.

Não resta dúvidas que estamos em guerra e que o inimigo já decidiu usar de todas as armas. Resta saber até quando vamos continuar dormindo com ele.

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