Nós, homens, e a luta contra a Cultura do Estupro

Por Rodrigo Santaella

Eu não luto o suficiente contra a cultura do estupro. Qualquer luta da qual eu faça parte terá suas limitações nesse sentido: sou homem, e por mais que tenha alguma criticidade, que tente problematizar o machismo, questionar o patriarcado, não consigo por minha própria conta me desfazer dos privilégios que tenho pela condição de ser homem. Nós, homens, somos os únicos responsáveis históricos pela criação das bases materiais e subjetivas que criam as condições para que tenhamos uma vítima de estupro a cada 11 minutos no Brasil, e somos os maiores responsáveis por sua reprodução cotidiana. Eu, você e todos os demais somos os responsáveis.

Mesmo que a maioria de nós ache o estupro uma coisa horrível, deplorável, etc., muitas de nossas atitudes cotidianas reproduzem a cultura que legitima ou que dá margem a esse tipo de ação. Desde muito novos, somos estimulados a tratar as mulheres como objetos – de desejo, de conquista, de uso, de autolegitimação. A mesma lógica que faz com que descartemos e desprezemos as meninas que nos dizem “não” em uma festa de adolescência – ou insistamos até o limite da força – orienta aqueles que se sentem no direito de divulgar fotos e vídeos íntimos de ex-companheiras nas redes sociais. A mesma cultura que legitima que nós olhemos para as mulheres como se fossem pedaços de carne nas ruas torna aceitável, em conversas “privadas entre amigos”, referir-se a mulheres como se fossem feitas para suprir nossos desejos. É essa, de forma muito resumida, a base cultural que está por trás de atitudes extremas como o estupro. O estuprador se sente, de uma forma ou de outra, legitimado e incitado a estuprar, às vezes a ponto de expor sua atitude em rede nacional, como Alexandre Frota, ou nas redes sociais, como alguns dos 33 estupradores da menina no Rio de Janeiro. E eles estão, de fato, legitimados! Via de regra, a culpabilização da vítima, “que não se deu ao respeito”, é parte importante das repercussões de casos de estupro. A linha entre tratar a mulher como um ser inferior, feito para atender nossos desejos sexuais, e efetivar o atendimento desses desejos à força, sem consentimento explícito, é tênue.

Você pode pensar que não faz parte dessa história. Eu já pensei assim. Mas quantas amizades você desfez ao longo de sua vida porque seus amigos eram machistas nojentos? Quantas relações de trabalho você sacrificou porque seus colegas fazem comentários cotidianos completamente absurdos? Quantas relações familiares você rompeu por isso? O que, na sua vida, você arriscou efetivamente, de verdade, para combater a cultura do machismo da qual você e eu somos parte? Pouco ou nada. Por isso somos responsáveis e não adianta pensar que não somos. Sabe aquele grupo de WhatsApp que os seus amigos do trabalho (ou da escola, ou de infância) formaram, só com homens? Já parou para pensar que aquilo é um antro de reprodução cotidiana da objetificação da mulher e da cultura do estupro, e que você não faz nada sobre isso que possa te causar nenhum transtorno? Sabe aquelas piadas ou comentários que se repetem sempre que homens se encontram sozinhos, que se referem às mulheres que convivem com vocês de forma completamente coisificada? Pois é. Isso somos nós, isso é o nosso cotidiano.

A única forma de contribuir com o fim do machismo e com o fim da cultura do estupro é entender que, se somos TODO O PROBLEMA, só podemos ser parte muito pequena da solução. Isso não significa que não devamos fazer nada, pelo contrário! É obrigação de todos os homens lutar todos os dias contra a reprodução dessa lógica. Mas, para isso, são necessários dois pressupostos, sob pena de fazermos exatamente o contrário: primeiro, saber que mesmo os mais críticos somos parte central do problema. Somos omissos, acomodados, por vezes indiferentes. Mesmo quando nos incomodamos com uma situação e sentimos certa vergonha alheia ou alguma repulsa de amigos machistas, por vezes não fazemos nada mais do que comentar baixinho com o outro amigo de esquerda, e seguir para a próxima cerveja às gargalhadas com os proferidores de absurdos. Nunca sacrificamos nada por isso, nem sequer o clima agradável de uma noite com os amigos.

Segundo, e mais importante, é preciso saber que a luta contra o machismo só terá êxito se as mulheres nos atropelarem constantemente. Nós nunca caminharemos no ritmo certo no combate aos nossos próprios privilégios, nunca compreenderemos o que é sofrer da opressão machista. O mínimo que podemos fazer é, quando a luta feminista passar por cima de nossos privilégios, agradecermos pelo mundo mais justo que cada uma das mulheres que lutou para construir, aprender com elas e ficarmos alertas para que não reconstruamos a opressão de outras formas.

Um homem só é parte da luta contra a cultura do estupro se tiver mulheres à sua frente, puxando-o para a luta e jogando seus privilégios constantemente no lixo. Esse é o único cenário que me permitiria dizer luto contra a cultura do estupro. Em mim, isso ainda está em construção.

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As perguntas que precisam de respostas a partir das conversas gravadas de Jucá

 

Por Roberto Santana Santos

O Brasil acordou atônito hoje (23/05) com a revelação de conversas gravadas de Romero Jucá (ministro do planejamento de Temer e senador licenciado pelo PMDB de Roraima) com o ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado. As gravações já transcritas por todos os veículos de imprensa do país são uma confissão de um membro do alto escalão do governo Temer de que realmente o processo de impeachment de Dilma foi um golpe de Estado. É dito claramente por Jucá que derrubar Dilma era imprescindível para frear a Lava-jato, pois essa já estava prestes a incriminar figuras do PMDB e PSDB. Os áudios são um escândalo nacional, pois ligam ao golpe e à obstrução da Justiça, ministros do STF e as Forças Armadas.

O Povo Brasileiro tem o direito de saber as respostas para as seguintes perguntas:

1 – Jucá será preso por obstrução da Justiça?

A conversa é uma confissão de que uma grande operação de abafamento da Lava-jato está em curso e que Romero Jucá é parte importante nela. Diz o ministro que uma “mudança” de governo era necessária para “estancar a sangria” da Lava-jato. Isso é obstrução da Justiça. Delcídio do Amaral foi preso da noite para o dia por isso. Romero Jucá tem que seguir o mesmo caminho. Quem tomará a iniciativa de fazer isso? Moro? o STF?

2 – Quem são os ministros do STF envolvidos no golpe de Estado e que querem barrar a Lava-jato?

Jucá relata ter acesso fácil a “alguns” (no plural) ministros do STF. Estes teriam dito que travar a Lava-jato só seria possível se Dilma caísse, se não a imprensa continuaria em cima. Isso significa que “alguns” ministros da Suprema Corte estão envolvidos não só no golpe, mas na obstrução da Lava-jato. Jucá diz que era necessário criar um pacto envolvendo o Supremo e aí “parava tudo”. Quais são os ministros do STF envolvidos na obstrução da própria Justiça? Temos o direito de saber!

3 – Qual é o esquema de Aécio e como o alto escalão do PMDB e do PSDB sabem disso e nada fizeram?

O ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, diz na conversa: “quem não conhece o esquema do Aécio?”, mostrando que o alto escalão do PMDB tem ciência do envolvimento do senador Aécio Neves (PSDB/MG) em um esquema de corrupção e cita outras lideranças do PSDB que também teriam conhecimento do fato: o ministro das relações exteriores José Serra, e os senadores  Aloysio Nunes (SP) e Tasso Jereissati (CE).
Que esquema é esse? Quando ele será investigado? Se todo mundo conhece, são todos cúmplices! Essas pessoas precisam prestar depoimentos e serem investigadas. O Povo Brasileiro não sabe dos esquemas do Aécio, mas temos o direito de saber os dele e dos demais!

4 – Qual o envolvimento de parte das Forças Armadas com o golpe? Por que monitoram o MST?

Jucá relata estar “conversando com os generais” que iam “garantir” e estariam “monitorando o MST para não perturbar”. Que generais? O que as Forças Armadas têm a ver com o golpe? Que tipo de ingerência um líder do PMDB como Jucá tem nas Forças Armadas? E porque as Forças Armadas gasta nosso dinheiro para monitorar um movimento público e legalizado como o MST. Mesmo se houvesse alguma suspeita de crime por parte do MST, isso seria caso de polícia e não de Exército. Temos algo a temer das Forças Armadas em pleno século XXI, monitorando movimentos sociais como na época da Ditadura? O Povo Brasileiro tem o direito de saber qual é o envolvimento de oficiais das Forças Armadas com as tramas políticas em Brasília e o que afinal eles iriam “garantir”.

5 – Qual o envolvimento de Eduardo Cunha no governo Temer?

Jucá diz que Renan Calheiros, presidente do Senado e também do PMDB, falava que “Michel Temer é Eduardo Cunha”. Se pessoas do próprio partido de Temer dizem que Cunha e Temer são a mesma coisa, qual é a influência de Cunha no governo? Está claro que seu afastamento da presidência da Câmara não significa seu afastamento do governo ilegítimo.

Não há meias palavras no grampo de Jucá. É uma confissão de que realmente o impeachment da presidenta Dilma foi um golpe e com objetivo claro: salvar o PMDB e o PSDB das investigações da Lava-jato. Um golpe de Estado para obstruir a Justiça com o objetivo de salvar as ratazanas que corroem a política brasileira na já esgotada Nova República. O Povo Brasileiro tem o direito de saber as respostas para essas perguntas, que revelam uma institucionalidade podre, à margem da Constituição.

Aos brasileiros e brasileiras comprometidas com seu país e com a democracia só resta uma opção: ir às ruas e inviabilizar esse governo golpista, como a Frente Povo Sem Medo fez no último domingo (22/05). Temer Jamais!

Roberto Santana Santos é historiador, doutorando em Políticas Públicas pela UERJ. Secretário Executivo da REGGEN (Rede de Economia Global e Desenvolvimento Sustentável) da UNESCO. Autor do livro “Coronéis e empresários: da esperança da transição democrática à catástrofe neoliberal”.

Volver a los 80? Ou três motivos para libertar-se das velhas ideias.

Por Vitor Hugo Tonin

Todos já ouviram algo parecido. A dificuldade não está em aceitar ideias novas, mas em libertar-se das velhas formas de pensar. Ser modista, estar em todas, é fácil, não é fácil ser livre.

O atual momento político do Brasil é, sem dúvida, angustiante. O que nos leva a buscar saídas rápidas a essa situação. Diante do que alguns, como eu, acreditam ser um governo ilegal e ilegítimo uma saída se apresenta nitidamente: que o povo decida, eleições diretas já!

Nada mais evidente, nada mais aparente. Também nada mais mecânico e anacrônico!

1) Convocar eleições significa admitir a legalidade do impeachment e não reconhecer que a vitória na última eleição foi de Dilma e para um mandato de 4 anos. Que Temer e seus comparsas não se importem mostra o quanto são golpistas e a eles caberá esse lugar na história. Mas que os democratas, justamente os defensores da “democracia como valor universal” transem tão facilmente com o rompimento da legalidade é sinal de que o fisiologismo avançou em nossas fileiras. É colocar-se, no julgamento da história, ao lado dos golpistas.

2) Significa não entender a principal lição do golpe: a direita está em melhores condições para a luta política. Nós, os progressistas juntos, todos juntinhos, não conseguimos barrar um golpe de Estado! Se em unidade fomos facilmente derrotados, imagine em um processo eleitoral em que a fragmentação será certamente mais acentuada! Quem você imagina que sairá vitorioso? É de um otimismo ingênuo acreditar que a direita só pode chegar ao poder através do golpe. Basta olhar para o novo presidente eleito da Argentina, para o novo parlamento eleito venezuelano, ou mesmo para o nosso congresso, também eleito, em eleições gerais! Será forçoso demais lembrar que Hitler também foi eleito?

3) Novas eleições, qualquer que seja seu caráter, é um chamado oriundo da velha forma de se fazer política, forma criada nos anos 1980 no bojo do confronto contra a ditadura, forma que criou a nova república, o atual sistema de representação política, os atuais partidos políticos, os atuais instrumentos de luta. Esse sistema todo se esgotou. Revelou-se insuficiente. A Nova República faliu. Sequer as classes dominantes, que é justamente sustentada por este sistema, a respeita mais. Se o novo ainda não nasceu não sejamos nós a reforçar o velho, o antigo sistema de dominação. Pois antecipar novas eleições é isso: uma tentativa desesperada de resgatar o falido sistema eleitoral e representativo, é apostar na velha forma de se fazer política (eleitoral), é lançar água no moinho da falida república.

Voltemos aos 80? Sim, mas com os 30 anos de experiência acumulada. Para resgatar o que aquele processo teve de virtuoso: as organizações de base, comunitárias e eclesiais; para resgatar a força das organizações coletivas e populares, e principalmente para resgatar a esperança de que em comunhão podemos construir um país soberano e popular. Apostemos nas ruas, na organização e no protagonismo popular nos campos e no asfalto. É lá onde as flores estão brotando. Talvez suas cores não estejam nítidas, mas são flores e estão brotando fora das atuais jardineiras.

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A ilusão Temer: 5 pontos para entender um governo que nasce velho.

Por Rodrigo Santaella

Muita gente defendeu a saída de Dilma Rousseff da Presidência da República. Na grande massa, influenciada pela deterioração de sua capacidade de consumo, queda do emprego e pela cobertura midiática bastante parcial com relação aos inúmeros escândalos de corrupção, prevaleceu um discurso moralista associado a uma demonização do petismo: os governos Lula e especialmente Dilma teriam sido o suprassumo da incompetência e da corrupção no país*. Era preciso livrar-se deles para avançar, para melhorar a vida. Tudo isso, num contexto de crescimento de discursos conservadores e acirramento social, ganhou por vezes em alguns setores uma roupagem quase surrealista de, pasmem, combate a um imaginado “comunismo”. Essas pessoas, em sua enorme maioria da classe trabalhadora e da classe média, defenderam o impeachment de forma sincera.

Por outro lado, estão os setores protagonistas da articulação política e econômica do país, que dirigem o processo. A defesa do impeachment para eles foi baseada em interesses econômicos claros: empresários organizados e parlamentares que representam os mais diversos setores empresariais, além é claro das grandes corporações midiáticas, estavam convencidos de que era necessário, para parar de perder dinheiro com a crise econômica, transferir mais perdas para a classe trabalhadora, aplicando medidas duras de retirada de direitos, corte de gastos com setores sociais e uma adequação do Estado às diretrizes neoliberais mais clássicas. O PT vinha fazendo um ajuste, mas por vezes de forma mais vacilante, algo inconcebível para as elites em tempo de crises extremas.

Como um apêndice importante desse setor dirigente e diretamente ligado a seus interesses econômicos está um grupo um pouco diferente, movido por convicções ideológicas e religiosas conservadoras e com muita representação parlamentear, que aproveitou a oportunidade para esmagar um governo que sempre considerou uma ameaça (apesar de ter crescido a partir das alianças com ele) no que diz respeito a temas ‘culturais’, tais como racismo, sexismo, homofobia, direitos das mulheres, etc.

Não é preciso dizer que parte da população, num contexto de crise econômica, foi alvo fácil para os discursos ideológicos desses setores, o econômico e o ‘conservador’, na defesa do impeachment. Essa grande massa tende a desiludir-se a partir do momento que compreender e sentir na pele o que efetivamente esse governo representa. Nos primeiros dias já temos elementos claros para perceber que não se trata de um governo de “salvação nacional’ nem nada inovador, muito pelo contrário. Aponto aqui pelo menos cinco razões para isso.

  1. Velha política: toda a articulação para a montagem do governo Temer foi baseada no loteamento de ministérios entre os partidos políticos fisiológicos. A ideia de um governo de notáveis, competentes e técnicos, que contrastasse com a incompetência e a politicagem dos petistas foi desmontada muito rapidamente. O PMDB é mestre no jogo sujo da política brasileira, e deixou isso claro na conformação desse governo. Não à toa, emplaca seu terceiro presidente sem nunca ter encabeçado uma chapa para isso.
  2. Corrupção: se o mote para a retirada à força do PT do poder era o combate à corrupção, isso também foi rapidamente por água abaixo. Pelo menos 7 dos 23 ministros são investigados ou já condenados por corrupção. Sobre o próprio Temer pesam acusações graves de recebimento de propina no contexto da Lava-Jato. Não nos esqueçamos que todo o processo de impeachment foi conduzido por um delinquente como Eduardo Cunha (cujo ex-advogado agora é Ministro da Justiça) e consumado por um congresso que, entre Câmara e Senado, tem 80% de investigados por corrupção. Um processo totalmente corrompido deu origem a um governo corrupto da pior espécie.
  3. Neoliberalismo: o governo Dilma foi eleito com a promessa de que não aplicaria medidas de austeridade e ajuste, que não retiraria direitos. Tentou fazer o contrário e deu um primeiro golpe no eleitorado brasileiro. Agora, trata-se de um governo não eleito, composto com os partidos que perderam as eleições (PSDB e DEM), buscando implementar um programa radical de austeridade, que nunca ganharia nas urnas. Essa é a essência do duro golpe institucional sofrido por nossa democracia. Trata-se de um pacote de medidas que visam resolver a crise econômica para os de cima, piorando as condições de vida dos de baixo, aumentando a desigualdade social, fazendo com que os mais pobres paguem mais pela crise. Nunca deu certo em lugar algum do mundo do ponto de vista das maiorias sociais, mas sempre agradou aos interesses do empresariado. Se você é trabalhador e acha que sua vida vai melhorar sob o governo Temer, prepare-se, para você há muito o que temer.
  4. Conservadorismo: as crises econômicas sempre foram terrenos férteis para o crescimento do conservadorismo. Nós sempre tivemos uma sociedade profundamente conservadora, mas esse ‘sentimento’ agora aflora de forma mais agressiva e organizada em muitos setores. A percepção de que índios, negros, quilombolas e movimentos sociais são “inúteis” ou “vagabundos”, a ideia de que o tratamento aos movimentos e a mobilização – no limite aos discordantes – deve ser à base de porrada e violência, uma concepção privatista e atrasada de educação, a não separação entre Estado e religião… todos esses são aspectos que demonstram que esse governo dialoga muito mais com o crescimento do conservadorismo na sociedade brasileira do que com o combate a ele. Talvez se trate do governo mais à direita desde a redemocratização. Não à toa, o terreno para aventureiros fascistas como Bolsonaro na política tem crescido. O governo Temer fortalece esse processo.
  5. Legitimidade democrática: é um governo completamente ilegítimo. Não foi eleito, não tem popularidade, aponta um programa que claramente perdeu nas urnas encampado pelos partidos derrotados nas eleições. Vai buscar implementar esse programa de ataques a qualquer custo: um governo ilegítimo implementando um programa que retira direitos vai gerar muita resistência e mobilização. A resposta a elas será violenta, e nossa democracia corre sérios riscos ao longo do processo. O impeachment a partir de um processo atabalhoado e denunciado no mundo inteiro enfraquece a nossa democracia, e as respostas do governo aos embates sociais que virão podem sepultá-la.

Não tenho dúvidas de que os setores que acreditaram sinceramente que os problemas seriam resolvidos com a chegada de Temer ao poder passarão por um processo duro de desilusão. Os articuladores do golpe continuarão a defender o governo Temer ou qualquer outro que aplique o seu programa. O papel da esquerda, aquela que sempre fez oposição ao PT pelos motivos certos, é o de mostrar que a história não acabou.

Vivemos, como dizia Daniel Bensaid, ‘entre o passado não ultrapassado e a descoberta balbuciante de um novo mundo em gestação’. Nesse limbo, nesse espaço a ser ocupado entre o projeto petista e o que está por surgir, está o lugar da classe trabalhadora e de todos os explorados no Brasil. Das ocupações de escola Brasil à fora, da Frente Povo Sem Medo, da Frente de Esquerda Socialista, do Liberte-se, de movimentos e articulações que estão por vir e sobretudo do sentimento de resistência, luta e construção do novo que orienta todas e todos que buscam construir um mundo novo, surgirá um novo ciclo de lutas e um projeto popular para o Brasil. Cabe a nós – e a todos aqueles que chegaram a iludir-se – começar a construir o processo. De imediato, apenas uma certeza: o próximo passo nesse longo caminho é encher o peito para gritar “Fora Temer” e defender que o povo decida as melhores saídas para nossa crise política. Uma reforma política popular e um plebiscito para convocar eleições gerais com novas regras seriam um bom começo.

*A responsabilidade do PT com tudo o que vivemos é enorme. O caminho trilhado por eles e suas escolhas, em grande medida, nos trouxeram até a situação péssima em que nos encontramos. Não trato disso nesse texto, mas a próxima contribuição aqui deve ser sobre isso, discutindo a responsabilidade deles e as nossas.

temer ministros

Em defesa do Brasil: Por uma saída popular para a crise!

Por Sammer Siman

O golpe de Estado no Brasil, ao que tudo indica, está prestes a ser consumado. No que depender do Senado sua confirmação se dará na próxima quarta, dia 11 de maio, mas o dia de hoje (9 de maio) mostrou que “a zoeira não tem limites”, a decisão de Renan Calheiros de ignorar a decisão do presidente da câmara Waldir Maranhão de anular o impeachment foi mais uma demonstração de que a lei é um mero acessório retórico no golpe em curso.

No entanto, se existe uma vítima nessa história, ela não é o Partido dos Trabalhadores. A propósito, as condições ideais para a ofensiva da direita odiosa começou a ser dada pelo próprio partido, logo depois que Dilma foi reeleita por um voto popular que decididamente rejeitou a plataforma privatista e neoliberal de Aécio Neves. E, como resposta, o governo elevou Kátia Abreu à ministra do agrobusiness, colocou um banqueiro no comando da economia e botou a conta da crise no lombo do trabalhador, especialmente com os malditos ajustes.

É frágil a tese de que a urna é garantidora de legitimidade, dizer que os 54 milhões de votos deveriam garantir Dilma ad eterno é uma balela. A legitimidade é conferida no cotidiano da política e o governo foi o principal responsável por perder seu lastro a cada medida antipática ao povo, a cada afago para a Casa Grande que hoje se volta com todo ódio contra seu governo, com direito a grampo presidencial em rede nacional, investigação seletiva e ameaça constante de prisão a uns, em detrimento de outros.

No entanto, o mimimi golpista está com seus dias contados. Pois a ampla aliança para a derrubada do governo (que envolve partidos nada ilibados como PMDB e PSDB, Rede GOLPE de Televisão, FIESP, setores do judiciário e do ministério público, sem falar das multinacionais do petróleo como a norte-americana Chevron e ainda de centrais de trabalhadores pelegas como a Força Sindical) fez, a todo momento, uma promessa para as massas trabalhadora brasileiras: a queda do governo será o primeiro passo para saída da crise econômica.

Essa promessa é falsa e vem recheada de cinismo. Aqui e acolá começa a surgir a velha cantilena de que “os trabalhadores terão que ter paciência”, que terão que “fazer sacrifícios”, pois para sair da crise deverá ser adotada medidas “duras”. E é justamente aí que reside o “ié ié, glu, glu”…a “pegadinha do malandro” dos golpistas, a velha promessa do “futuro por vir”: Suas medidas só servirão para aprofundar a crise, pois o que está na agenda dos golpistas é a retirada de direitos (como a reforma da previdência), privatizações (a Petrobrás e o pré-sal estão na mira!), bem como a preservação dos velhos privilégios, como o corrupto sistema da dívida pública e a manutenção de um sistema tributário regressivo e concentrador de riqueza, tudo isso expresso na proposta de Michel Temer em sua ponte para o inferno!!

O impasse brasileiro é que não existe nenhuma saída real para a crise colocada neste momento. O que está colocado é uma disputa entre a manutenção de um governo fraco, com baixa capacidade de iniciativa, e o governo biônico e impopular de Michel Temer que promete nos levar a passos largos para o passado. Independente do desfecho, seguimos com a tarefa de construir uma linha de defesa que coloque o povo brasileiro em movimento, como a recente iniciativa das Brigadas Em defesa do Brasil que propõe pelo menos cinco pontos para tirar o Brasil da crise, a exemplo da auditoria da dívida pública, da taxação das grandes fortunas, da defesa da Petrobrás e de um programa de emprego garantido. A propósito, para evitar o retorno ao passado devemos mobilizar a esperança de nossa gente e seguir em busca do sonho de construção de uma pátria que ainda há de ser livre!

#chegadegolpes

#emdefesadobrasil

#porumasaidapopularparacrise

BDB

Pelo impeachment do machismo

Por Sabrina Fernandes, Isabella Miranda, Layza Queiroz e Mariana Assis

Quando Dilma Rousseff foi eleita em 2010, algumas revistas e jornais falavam do fim do machismo, pois agora teríamos uma presidenta eleita. Os otimistas iam ainda mais adiante, postulando que Dilma representaria as mulheres e o status do patriarcado mudaria no Brasil. Dilma não representou as mulheres, indo ao ponto de deixar as políticas públicas para as mulheres sucateadas e jogadas às traças e recuado ainda durante a campanha sobre o direito ao aborto das mulheres. Porém, ela ainda é mulher e sua permanência na presidência até então tem sido marcada por machismo e misoginia naturalizados na política brasileira.

“Dilma, erotize-se.” “Dilma fica com fios dourados para parecer mais jovem.” “Sapa, satanás, vaca velha, gorda de capacete.” “Vagabunda.” “[Dilma] perde também as condições emocionais.” “Tchau, querida.”

Por mais que este processo de impeachment contra a presidenta seja movido a fascismo e o colapso da estratégia de conciliação de classes no governo, é o machismo que tem colorido os principais impasses e o vernáculo dos adversários de Dilma, dentro e fora do Congresso Nacional. O que Dilma está passando na presidencia homem nenhum jamais iria passar.

O machismo na Câmara dos Deputados vai além da desigualdade estarrecedora entre deputados e deputadas – por volta de apenas 9,9% dos representantes são mulheres, o percentual mais baixo da América do Sul.  O machismo se estende descaradamente ao comportamento dos deputados e à maneira como a população também machista enxerga essas representantes. A programação da votação pelo processo de impeachment de Dilma rendeu tanto grosserias contra a presidenta quanto a exposição do que há de pior no mundo machista e despolitizado. A deputada Sheridan, conservadora e eleita por sua ligação ao ex-governador de Roraima que é seu esposo, foi alvo de memes objetificadores após informar seu voto “sim” na tribuna. A deputada do PCdoB Jandhira Feghali apareceu em um dos memes da direita machista, o qual fazia uma comparação aos atributos físicos de cada deputada na defesa final do voto golpista.

Aliás, tão logo eleita, Dilma se assumiu enquanto “Presidenta da República”, e além de demarcar a ocupação do cargo por uma muher ao oficializar esse termo nas instâncias de governo, ela registrou, para todo o Brasil, que assim gostaria de ser chamada. E o que a direita e a grande midia fazem? Insistem em chamá-la de presidente.

Tal comportamento da base machista da direita – e também da esquerda –  apenas replica o que é visto dentro da Câmara. Em 2013, Manuela D’Ávila teve que se posicionar contra o deputado tucano Duarte Nogueira, que fez insinuações à vida pessoal da deputada e insinuou que ela agia emocionalmente, não diferente da capa de Istoé contra Dilma. Também não precisamos lembrar do vergonhoso episódio em que Jair Bolsonaro agrediu Maria do Rosário verbalmente com apologia ao estupro.

Aliás, Bolsonaro é um dos sujeitos responsáveis pela propagação do machismo odioso na Câmara e nas redes sociais, seja contra personalidades públicas ou contra todas as mulheres. Em seu discurso de voto, homenageou Brilhante Ustra, chefe do DOI-CODI que torturou Dilma e tantas outras mulheres, inclusive através de diversos atos de violência sexual.

“Um recado para a anta Dilma Rousseff: dá tempo ainda de sair daqui e depois contar historinha de que foram exilados. Fidel Castro te espera de braços abertos, Dilma. Eu só não sei quem vai carregar quem no colo no quarto nupcial” – Bolsonaro

Obviamente esse Congresso Nacional misógino e machista não ataca apenas a presidenta, mas a própria ideia de que mulheres possam fazer política. Ou ainda mais do que isso, os inúmeros projetos de lei que tramitam na Câmara e no Senado revelam que muitos “representantes do povo” são contrários à própria concepção de que as mulheres são sujeitas de direito pleno:

A Exemplo da PEC 99/2001, que sugere a alteração da constituição para que entidades de cunho religioso possam propor Ações de Constitucionalidade perante o STF; o PL 6583/2013 que institui o Estatudo da Família; o PL 478/2007 que institui o Estatuto do Nascituro e o PL 5069/2013 que prevê alterações ao código penal para criminalizar e ameaçar ainda mais os direitos sexuais, reprodutivos e a vida das mulheres; além de inúmeros ataques aos direitos trabalhistas que penalizam sobretudo mulheres, que em geral ocupam postos de trabalho mais precárizados.

Claro está que estes parlamentares e senadores não representam a nós, mulheres, e nem tem autoridade moral para votar o impeachment da presidenta. Se hoje eles ocupam cargos de representantes do povo é por que de fato existe uma enorme debilidade na nossa institucionalidade democrática.

Homens como Cunha, Temer, Bolsonaro, Serra e Aécio sequer podem ser considerados um “mal necessário”, como é veiculado nos meios de comunicação pró-impeachment. É um enorme equívoco a ideia de que qualquer saída para a crise possa passar pelos porta-vozes de 500 anos de patriarcado e dependência no Brasil. O que eles realmente querem é instaurar no Brasil uma agenda repleta de golpes contra o povo brasileiro e sobretudo contra nós mulheres.

A resposta a esses golpes, obviamente passa pela construção de uma resistência cívica que combata todas as formas de opressão e que sim, seja repleta de mulheres na política! Isso significa também defender a presidenta e qualquer outra mulher do machismo, ao mesmo tempo que devemos responsabilizá-las de forma interseccional pelas outras opressões que elas reproduzem ou silenciam.

#ChegadeGolpes contra Todas nós

#NenhumaAMenosNaPolítica

Contra as simplificações: a crise política na opinião pública

Por Bernardo Rocha Carvalho*, em colaboração especial

Navegar no Facebook em tempos de crise tem sido uma experiência bastante reflexiva, já que ali parecemos estar ainda mais sujeitos à velocidade dos acontecimentos e à pressa das posições conflitantes em se imporem sobre as ideias adversárias. A polêmica recente gerada pela atitude de excluir ou não os contatos que curtem e compartilham os conteúdos da página do deputado Jair Bolsonaro é um importante exemplo. O pano de fundo dessa e de outras polêmicas geradas pela crise se compõe, em parte, pelo que a argentina Beatriz Sarlo** disse numa frase sutil: “O passado está na moda”. E, mais que isso, na crise o passado se revela como um campo de batalhas dos mais decisivos para o debate público. Posicionamo-nos, muitas vezes, a partir de uma interpretação do passado; de uma leitura da história recente do país.

E apesar do debate por meios virtuais e, portanto, mais rápidos, ser de fato uma novidade na história e na política, ele não se compõe apenas por elementos novos. Beatriz Sarlo, no mesmo texto, faz uma analogia da Argentina do final dos anos 1990, que começava a conseguir expor os traumas da ditadura militar, com as conclusões do historiador Robert Darnton sobre o que influía na opinião pública durante a Revolução Francesa: “Darnton diz que não foram as grandes obras de filosofia política, nem as intervenções de Voltaire, mais amenas, que chegaram ao povo que pouco depois derrotaria o absolutismo do Antigo Regime, mas sim obras menores, muitas vezes panfletos escandalosos repletos de acusações de corrupção sexual e moral […]”. Ou seja, guardadas as diferenças entre os tempos históricos, não é difícil fazer um paralelo com o Facebook e demais redes sociais, onde um “meme” substitui outro de modo incessante, em tentativas permanentes – e sem muitos critérios, basta notar a quantidade de notícias falsas – de mobilização geral.

As dinâmicas da opinião pública devem ser observadas em qualquer análise de conjuntura que se pretenda mais aprofundada, principalmente em tempos de crise. É claro que, de modo geral, a mídia de massas tenta conformar a opinião pública para uma posição específica, mas seu êxito nunca é total, há sempre margens significativas de inflexões para outras direções. Além disso, citando ainda outra expressão utilizada por Darnton, a opinião pública é um verdadeiro “feixe de contradições”; o que, porém, não deve ser considerado como algo prejudicial, ao menos por quem possui convicções democráticas sinceras. Reproduzir posicionamentos políticos excessivamente simplificados só interessa a quem não quer mudar a realidade social.

Esta deve ser uma reflexão especialmente importante para a esquerda, ou, ao menos, para a esquerda que queira influir na opinião pública, e não ficar apenas restrita a um diálogo entre seus pares. Por certo, nosso posicionamento deve ser de convicção contra o golpe dos oportunistas que pretendem se consolidar como titulares do poder político, visando tanto aprofundar a condição de subordinação do Brasil às nações centrais, como impossibilitar definitivamente a ampliação e mesmo a manutenção de direitos sociais, como os trabalhistas. Porém, a complexidade da situação em que nos encontramos exige ainda mais de nós. Ser de esquerda é também, como escreveu mais uma vez Beatriz Sarlo, “intervir no espaço público e na política. É refutar os pactos miméticos. É negar os acordos de cumplicidade e resignação”. É, portanto, ir muito além do que atuar para sustentar um governo como o do PT, que, para dizer o mínimo, segue obediente à agenda do mercado mundial e opta por ajustes econômicos que afetam decisivamente a vida material do povo.

*Aluno de mestrado em História na UFJF.

**As passagens aqui citadas encontram-se em textos do livro “Tempo Presente – Notas sobre a mudança de uma cultura”.