Contra as simplificações: a crise política na opinião pública

Por Bernardo Rocha Carvalho*, em colaboração especial

Navegar no Facebook em tempos de crise tem sido uma experiência bastante reflexiva, já que ali parecemos estar ainda mais sujeitos à velocidade dos acontecimentos e à pressa das posições conflitantes em se imporem sobre as ideias adversárias. A polêmica recente gerada pela atitude de excluir ou não os contatos que curtem e compartilham os conteúdos da página do deputado Jair Bolsonaro é um importante exemplo. O pano de fundo dessa e de outras polêmicas geradas pela crise se compõe, em parte, pelo que a argentina Beatriz Sarlo** disse numa frase sutil: “O passado está na moda”. E, mais que isso, na crise o passado se revela como um campo de batalhas dos mais decisivos para o debate público. Posicionamo-nos, muitas vezes, a partir de uma interpretação do passado; de uma leitura da história recente do país.

E apesar do debate por meios virtuais e, portanto, mais rápidos, ser de fato uma novidade na história e na política, ele não se compõe apenas por elementos novos. Beatriz Sarlo, no mesmo texto, faz uma analogia da Argentina do final dos anos 1990, que começava a conseguir expor os traumas da ditadura militar, com as conclusões do historiador Robert Darnton sobre o que influía na opinião pública durante a Revolução Francesa: “Darnton diz que não foram as grandes obras de filosofia política, nem as intervenções de Voltaire, mais amenas, que chegaram ao povo que pouco depois derrotaria o absolutismo do Antigo Regime, mas sim obras menores, muitas vezes panfletos escandalosos repletos de acusações de corrupção sexual e moral […]”. Ou seja, guardadas as diferenças entre os tempos históricos, não é difícil fazer um paralelo com o Facebook e demais redes sociais, onde um “meme” substitui outro de modo incessante, em tentativas permanentes – e sem muitos critérios, basta notar a quantidade de notícias falsas – de mobilização geral.

As dinâmicas da opinião pública devem ser observadas em qualquer análise de conjuntura que se pretenda mais aprofundada, principalmente em tempos de crise. É claro que, de modo geral, a mídia de massas tenta conformar a opinião pública para uma posição específica, mas seu êxito nunca é total, há sempre margens significativas de inflexões para outras direções. Além disso, citando ainda outra expressão utilizada por Darnton, a opinião pública é um verdadeiro “feixe de contradições”; o que, porém, não deve ser considerado como algo prejudicial, ao menos por quem possui convicções democráticas sinceras. Reproduzir posicionamentos políticos excessivamente simplificados só interessa a quem não quer mudar a realidade social.

Esta deve ser uma reflexão especialmente importante para a esquerda, ou, ao menos, para a esquerda que queira influir na opinião pública, e não ficar apenas restrita a um diálogo entre seus pares. Por certo, nosso posicionamento deve ser de convicção contra o golpe dos oportunistas que pretendem se consolidar como titulares do poder político, visando tanto aprofundar a condição de subordinação do Brasil às nações centrais, como impossibilitar definitivamente a ampliação e mesmo a manutenção de direitos sociais, como os trabalhistas. Porém, a complexidade da situação em que nos encontramos exige ainda mais de nós. Ser de esquerda é também, como escreveu mais uma vez Beatriz Sarlo, “intervir no espaço público e na política. É refutar os pactos miméticos. É negar os acordos de cumplicidade e resignação”. É, portanto, ir muito além do que atuar para sustentar um governo como o do PT, que, para dizer o mínimo, segue obediente à agenda do mercado mundial e opta por ajustes econômicos que afetam decisivamente a vida material do povo.

*Aluno de mestrado em História na UFJF.

**As passagens aqui citadas encontram-se em textos do livro “Tempo Presente – Notas sobre a mudança de uma cultura”.

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