Pelo impeachment do machismo

Por Sabrina Fernandes, Isabella Miranda, Layza Queiroz e Mariana Assis

Quando Dilma Rousseff foi eleita em 2010, algumas revistas e jornais falavam do fim do machismo, pois agora teríamos uma presidenta eleita. Os otimistas iam ainda mais adiante, postulando que Dilma representaria as mulheres e o status do patriarcado mudaria no Brasil. Dilma não representou as mulheres, indo ao ponto de deixar as políticas públicas para as mulheres sucateadas e jogadas às traças e recuado ainda durante a campanha sobre o direito ao aborto das mulheres. Porém, ela ainda é mulher e sua permanência na presidência até então tem sido marcada por machismo e misoginia naturalizados na política brasileira.

“Dilma, erotize-se.” “Dilma fica com fios dourados para parecer mais jovem.” “Sapa, satanás, vaca velha, gorda de capacete.” “Vagabunda.” “[Dilma] perde também as condições emocionais.” “Tchau, querida.”

Por mais que este processo de impeachment contra a presidenta seja movido a fascismo e o colapso da estratégia de conciliação de classes no governo, é o machismo que tem colorido os principais impasses e o vernáculo dos adversários de Dilma, dentro e fora do Congresso Nacional. O que Dilma está passando na presidencia homem nenhum jamais iria passar.

O machismo na Câmara dos Deputados vai além da desigualdade estarrecedora entre deputados e deputadas – por volta de apenas 9,9% dos representantes são mulheres, o percentual mais baixo da América do Sul.  O machismo se estende descaradamente ao comportamento dos deputados e à maneira como a população também machista enxerga essas representantes. A programação da votação pelo processo de impeachment de Dilma rendeu tanto grosserias contra a presidenta quanto a exposição do que há de pior no mundo machista e despolitizado. A deputada Sheridan, conservadora e eleita por sua ligação ao ex-governador de Roraima que é seu esposo, foi alvo de memes objetificadores após informar seu voto “sim” na tribuna. A deputada do PCdoB Jandhira Feghali apareceu em um dos memes da direita machista, o qual fazia uma comparação aos atributos físicos de cada deputada na defesa final do voto golpista.

Aliás, tão logo eleita, Dilma se assumiu enquanto “Presidenta da República”, e além de demarcar a ocupação do cargo por uma muher ao oficializar esse termo nas instâncias de governo, ela registrou, para todo o Brasil, que assim gostaria de ser chamada. E o que a direita e a grande midia fazem? Insistem em chamá-la de presidente.

Tal comportamento da base machista da direita – e também da esquerda –  apenas replica o que é visto dentro da Câmara. Em 2013, Manuela D’Ávila teve que se posicionar contra o deputado tucano Duarte Nogueira, que fez insinuações à vida pessoal da deputada e insinuou que ela agia emocionalmente, não diferente da capa de Istoé contra Dilma. Também não precisamos lembrar do vergonhoso episódio em que Jair Bolsonaro agrediu Maria do Rosário verbalmente com apologia ao estupro.

Aliás, Bolsonaro é um dos sujeitos responsáveis pela propagação do machismo odioso na Câmara e nas redes sociais, seja contra personalidades públicas ou contra todas as mulheres. Em seu discurso de voto, homenageou Brilhante Ustra, chefe do DOI-CODI que torturou Dilma e tantas outras mulheres, inclusive através de diversos atos de violência sexual.

“Um recado para a anta Dilma Rousseff: dá tempo ainda de sair daqui e depois contar historinha de que foram exilados. Fidel Castro te espera de braços abertos, Dilma. Eu só não sei quem vai carregar quem no colo no quarto nupcial” – Bolsonaro

Obviamente esse Congresso Nacional misógino e machista não ataca apenas a presidenta, mas a própria ideia de que mulheres possam fazer política. Ou ainda mais do que isso, os inúmeros projetos de lei que tramitam na Câmara e no Senado revelam que muitos “representantes do povo” são contrários à própria concepção de que as mulheres são sujeitas de direito pleno:

A Exemplo da PEC 99/2001, que sugere a alteração da constituição para que entidades de cunho religioso possam propor Ações de Constitucionalidade perante o STF; o PL 6583/2013 que institui o Estatudo da Família; o PL 478/2007 que institui o Estatuto do Nascituro e o PL 5069/2013 que prevê alterações ao código penal para criminalizar e ameaçar ainda mais os direitos sexuais, reprodutivos e a vida das mulheres; além de inúmeros ataques aos direitos trabalhistas que penalizam sobretudo mulheres, que em geral ocupam postos de trabalho mais precárizados.

Claro está que estes parlamentares e senadores não representam a nós, mulheres, e nem tem autoridade moral para votar o impeachment da presidenta. Se hoje eles ocupam cargos de representantes do povo é por que de fato existe uma enorme debilidade na nossa institucionalidade democrática.

Homens como Cunha, Temer, Bolsonaro, Serra e Aécio sequer podem ser considerados um “mal necessário”, como é veiculado nos meios de comunicação pró-impeachment. É um enorme equívoco a ideia de que qualquer saída para a crise possa passar pelos porta-vozes de 500 anos de patriarcado e dependência no Brasil. O que eles realmente querem é instaurar no Brasil uma agenda repleta de golpes contra o povo brasileiro e sobretudo contra nós mulheres.

A resposta a esses golpes, obviamente passa pela construção de uma resistência cívica que combata todas as formas de opressão e que sim, seja repleta de mulheres na política! Isso significa também defender a presidenta e qualquer outra mulher do machismo, ao mesmo tempo que devemos responsabilizá-las de forma interseccional pelas outras opressões que elas reproduzem ou silenciam.

#ChegadeGolpes contra Todas nós

#NenhumaAMenosNaPolítica

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