A ilusão Temer: 5 pontos para entender um governo que nasce velho.

Por Rodrigo Santaella

Muita gente defendeu a saída de Dilma Rousseff da Presidência da República. Na grande massa, influenciada pela deterioração de sua capacidade de consumo, queda do emprego e pela cobertura midiática bastante parcial com relação aos inúmeros escândalos de corrupção, prevaleceu um discurso moralista associado a uma demonização do petismo: os governos Lula e especialmente Dilma teriam sido o suprassumo da incompetência e da corrupção no país*. Era preciso livrar-se deles para avançar, para melhorar a vida. Tudo isso, num contexto de crescimento de discursos conservadores e acirramento social, ganhou por vezes em alguns setores uma roupagem quase surrealista de, pasmem, combate a um imaginado “comunismo”. Essas pessoas, em sua enorme maioria da classe trabalhadora e da classe média, defenderam o impeachment de forma sincera.

Por outro lado, estão os setores protagonistas da articulação política e econômica do país, que dirigem o processo. A defesa do impeachment para eles foi baseada em interesses econômicos claros: empresários organizados e parlamentares que representam os mais diversos setores empresariais, além é claro das grandes corporações midiáticas, estavam convencidos de que era necessário, para parar de perder dinheiro com a crise econômica, transferir mais perdas para a classe trabalhadora, aplicando medidas duras de retirada de direitos, corte de gastos com setores sociais e uma adequação do Estado às diretrizes neoliberais mais clássicas. O PT vinha fazendo um ajuste, mas por vezes de forma mais vacilante, algo inconcebível para as elites em tempo de crises extremas.

Como um apêndice importante desse setor dirigente e diretamente ligado a seus interesses econômicos está um grupo um pouco diferente, movido por convicções ideológicas e religiosas conservadoras e com muita representação parlamentear, que aproveitou a oportunidade para esmagar um governo que sempre considerou uma ameaça (apesar de ter crescido a partir das alianças com ele) no que diz respeito a temas ‘culturais’, tais como racismo, sexismo, homofobia, direitos das mulheres, etc.

Não é preciso dizer que parte da população, num contexto de crise econômica, foi alvo fácil para os discursos ideológicos desses setores, o econômico e o ‘conservador’, na defesa do impeachment. Essa grande massa tende a desiludir-se a partir do momento que compreender e sentir na pele o que efetivamente esse governo representa. Nos primeiros dias já temos elementos claros para perceber que não se trata de um governo de “salvação nacional’ nem nada inovador, muito pelo contrário. Aponto aqui pelo menos cinco razões para isso.

  1. Velha política: toda a articulação para a montagem do governo Temer foi baseada no loteamento de ministérios entre os partidos políticos fisiológicos. A ideia de um governo de notáveis, competentes e técnicos, que contrastasse com a incompetência e a politicagem dos petistas foi desmontada muito rapidamente. O PMDB é mestre no jogo sujo da política brasileira, e deixou isso claro na conformação desse governo. Não à toa, emplaca seu terceiro presidente sem nunca ter encabeçado uma chapa para isso.
  2. Corrupção: se o mote para a retirada à força do PT do poder era o combate à corrupção, isso também foi rapidamente por água abaixo. Pelo menos 7 dos 23 ministros são investigados ou já condenados por corrupção. Sobre o próprio Temer pesam acusações graves de recebimento de propina no contexto da Lava-Jato. Não nos esqueçamos que todo o processo de impeachment foi conduzido por um delinquente como Eduardo Cunha (cujo ex-advogado agora é Ministro da Justiça) e consumado por um congresso que, entre Câmara e Senado, tem 80% de investigados por corrupção. Um processo totalmente corrompido deu origem a um governo corrupto da pior espécie.
  3. Neoliberalismo: o governo Dilma foi eleito com a promessa de que não aplicaria medidas de austeridade e ajuste, que não retiraria direitos. Tentou fazer o contrário e deu um primeiro golpe no eleitorado brasileiro. Agora, trata-se de um governo não eleito, composto com os partidos que perderam as eleições (PSDB e DEM), buscando implementar um programa radical de austeridade, que nunca ganharia nas urnas. Essa é a essência do duro golpe institucional sofrido por nossa democracia. Trata-se de um pacote de medidas que visam resolver a crise econômica para os de cima, piorando as condições de vida dos de baixo, aumentando a desigualdade social, fazendo com que os mais pobres paguem mais pela crise. Nunca deu certo em lugar algum do mundo do ponto de vista das maiorias sociais, mas sempre agradou aos interesses do empresariado. Se você é trabalhador e acha que sua vida vai melhorar sob o governo Temer, prepare-se, para você há muito o que temer.
  4. Conservadorismo: as crises econômicas sempre foram terrenos férteis para o crescimento do conservadorismo. Nós sempre tivemos uma sociedade profundamente conservadora, mas esse ‘sentimento’ agora aflora de forma mais agressiva e organizada em muitos setores. A percepção de que índios, negros, quilombolas e movimentos sociais são “inúteis” ou “vagabundos”, a ideia de que o tratamento aos movimentos e a mobilização – no limite aos discordantes – deve ser à base de porrada e violência, uma concepção privatista e atrasada de educação, a não separação entre Estado e religião… todos esses são aspectos que demonstram que esse governo dialoga muito mais com o crescimento do conservadorismo na sociedade brasileira do que com o combate a ele. Talvez se trate do governo mais à direita desde a redemocratização. Não à toa, o terreno para aventureiros fascistas como Bolsonaro na política tem crescido. O governo Temer fortalece esse processo.
  5. Legitimidade democrática: é um governo completamente ilegítimo. Não foi eleito, não tem popularidade, aponta um programa que claramente perdeu nas urnas encampado pelos partidos derrotados nas eleições. Vai buscar implementar esse programa de ataques a qualquer custo: um governo ilegítimo implementando um programa que retira direitos vai gerar muita resistência e mobilização. A resposta a elas será violenta, e nossa democracia corre sérios riscos ao longo do processo. O impeachment a partir de um processo atabalhoado e denunciado no mundo inteiro enfraquece a nossa democracia, e as respostas do governo aos embates sociais que virão podem sepultá-la.

Não tenho dúvidas de que os setores que acreditaram sinceramente que os problemas seriam resolvidos com a chegada de Temer ao poder passarão por um processo duro de desilusão. Os articuladores do golpe continuarão a defender o governo Temer ou qualquer outro que aplique o seu programa. O papel da esquerda, aquela que sempre fez oposição ao PT pelos motivos certos, é o de mostrar que a história não acabou.

Vivemos, como dizia Daniel Bensaid, ‘entre o passado não ultrapassado e a descoberta balbuciante de um novo mundo em gestação’. Nesse limbo, nesse espaço a ser ocupado entre o projeto petista e o que está por surgir, está o lugar da classe trabalhadora e de todos os explorados no Brasil. Das ocupações de escola Brasil à fora, da Frente Povo Sem Medo, da Frente de Esquerda Socialista, do Liberte-se, de movimentos e articulações que estão por vir e sobretudo do sentimento de resistência, luta e construção do novo que orienta todas e todos que buscam construir um mundo novo, surgirá um novo ciclo de lutas e um projeto popular para o Brasil. Cabe a nós – e a todos aqueles que chegaram a iludir-se – começar a construir o processo. De imediato, apenas uma certeza: o próximo passo nesse longo caminho é encher o peito para gritar “Fora Temer” e defender que o povo decida as melhores saídas para nossa crise política. Uma reforma política popular e um plebiscito para convocar eleições gerais com novas regras seriam um bom começo.

*A responsabilidade do PT com tudo o que vivemos é enorme. O caminho trilhado por eles e suas escolhas, em grande medida, nos trouxeram até a situação péssima em que nos encontramos. Não trato disso nesse texto, mas a próxima contribuição aqui deve ser sobre isso, discutindo a responsabilidade deles e as nossas.

temer ministros

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Um comentário sobre “A ilusão Temer: 5 pontos para entender um governo que nasce velho.

  1. Nosotros Aun 26/05/2016 / 20:05

    “…Estou entre a direita, que me explica que não dá para fazer as coisas que seriam certas porque falta dinheiro para isso, e a esquerda, que me diz que não dá para fazer as coisas que seriam certas porque, ao fazê-las, os eleitores fugiriam.

    Estava acostumado com a ideia de que a direita nos tratasse não como cidadãos, mas como consumidores: está podendo trocar de carro? Então não se queixe da miséria cultural, da democracia reduzida ao dia do voto etc.

    Não estava acostumado com a ideia de que a esquerda nos tratasse não como cidadãos, mas como eleitores: falar a verdade para o pessoal, por quê? Precisa falar o necessário para que a maioria continue votando na gente. Ou (chantagem) você não quer que a esquerda continue no poder? Uma coisa não perdoo à esquerda: ela criou uma situação em que só resta torcer para que mais um governo fisiológico dê certo…” Contardo Calligaris – FSP – 26/05/16

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