Volver a los 80? Ou três motivos para libertar-se das velhas ideias.

Por Vitor Hugo Tonin

Todos já ouviram algo parecido. A dificuldade não está em aceitar ideias novas, mas em libertar-se das velhas formas de pensar. Ser modista, estar em todas, é fácil, não é fácil ser livre.

O atual momento político do Brasil é, sem dúvida, angustiante. O que nos leva a buscar saídas rápidas a essa situação. Diante do que alguns, como eu, acreditam ser um governo ilegal e ilegítimo uma saída se apresenta nitidamente: que o povo decida, eleições diretas já!

Nada mais evidente, nada mais aparente. Também nada mais mecânico e anacrônico!

1) Convocar eleições significa admitir a legalidade do impeachment e não reconhecer que a vitória na última eleição foi de Dilma e para um mandato de 4 anos. Que Temer e seus comparsas não se importem mostra o quanto são golpistas e a eles caberá esse lugar na história. Mas que os democratas, justamente os defensores da “democracia como valor universal” transem tão facilmente com o rompimento da legalidade é sinal de que o fisiologismo avançou em nossas fileiras. É colocar-se, no julgamento da história, ao lado dos golpistas.

2) Significa não entender a principal lição do golpe: a direita está em melhores condições para a luta política. Nós, os progressistas juntos, todos juntinhos, não conseguimos barrar um golpe de Estado! Se em unidade fomos facilmente derrotados, imagine em um processo eleitoral em que a fragmentação será certamente mais acentuada! Quem você imagina que sairá vitorioso? É de um otimismo ingênuo acreditar que a direita só pode chegar ao poder através do golpe. Basta olhar para o novo presidente eleito da Argentina, para o novo parlamento eleito venezuelano, ou mesmo para o nosso congresso, também eleito, em eleições gerais! Será forçoso demais lembrar que Hitler também foi eleito?

3) Novas eleições, qualquer que seja seu caráter, é um chamado oriundo da velha forma de se fazer política, forma criada nos anos 1980 no bojo do confronto contra a ditadura, forma que criou a nova república, o atual sistema de representação política, os atuais partidos políticos, os atuais instrumentos de luta. Esse sistema todo se esgotou. Revelou-se insuficiente. A Nova República faliu. Sequer as classes dominantes, que é justamente sustentada por este sistema, a respeita mais. Se o novo ainda não nasceu não sejamos nós a reforçar o velho, o antigo sistema de dominação. Pois antecipar novas eleições é isso: uma tentativa desesperada de resgatar o falido sistema eleitoral e representativo, é apostar na velha forma de se fazer política (eleitoral), é lançar água no moinho da falida república.

Voltemos aos 80? Sim, mas com os 30 anos de experiência acumulada. Para resgatar o que aquele processo teve de virtuoso: as organizações de base, comunitárias e eclesiais; para resgatar a força das organizações coletivas e populares, e principalmente para resgatar a esperança de que em comunhão podemos construir um país soberano e popular. Apostemos nas ruas, na organização e no protagonismo popular nos campos e no asfalto. É lá onde as flores estão brotando. Talvez suas cores não estejam nítidas, mas são flores e estão brotando fora das atuais jardineiras.

txt vitor

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Um comentário sobre “Volver a los 80? Ou três motivos para libertar-se das velhas ideias.

  1. Nosotros Aun 28/05/2016 / 20:29

    Em busca da ditadura perdida.

    A economia política do lulopetismo foi decifrada pela revisão da meta fiscal aprovada no Congresso. O rombo de R$ 170 bi nas contas públicas, fruto da doutrina econômica abraçada por Dilma Rousseff, não inclui as futuras, incontornáveis, capitalizações da Petrobras, da Eletrobras e da Caixa, devastadas por um governo que sempre acusou seus críticos de nutrirem um projeto de destruição das estatais. Submetidas à colonização partidária, as empresas em estado falimentar sustentaram o bloco de poder articulado em torno do PT, financiando a maioria parlamentar governista. Mas, posta diante do impeachment, a esquerda brasileira brada contra um golpe imaginário e convoca o espectro de 1964.

    Dilma deu a largada, falando em “tortura” e na “resistência” à ditadura militar. Samuel Pinheiro Guimarães recolheu o bastão, assegurando que o impeachment nasceu dos “mesmos golpistas históricos de 1964”. O jornalista Mino Carta, um entusiasta de Emílio Médici e da maquinaria de tortura em 1970, percorreu o trecho seguinte, escrevendo que “em 64, a casa-grande chamou os soldados para executar o trabalho sujo, desta vez os tanques são substituídos por uma Justiça politizada”. No mesmo diapasão, o efêmero ministro da Justiça Eugênio Aragão sugeriu que o juiz Sergio Moro faz uso de “extorsão” e, quase, de “tortura”. Finalmente, na inevitável hora dos artistas, as análises “históricas” e “jurídicas” cederam lugar à folia carnavalesca dos paralelismos: Caetano Veloso identificou nas manifestações anti-Dilma a alma da Marcha da Família e Wagner Moura comparou os escândalos descritos pela Lava Jato à “cruzada pela moralidade” que aureolou o golpe militar.

    A nota musical do “retorno ao passado” embala igualmente a esquerda argentina desde o triunfo eleitoral de Mauricio Macri. No país vizinho, os órfãos do kirchnerismo manuseiam a expressão “direitos humanos”, uma senha traumática que remete à “guerra suja”, sempre que se referem ao novo governo. O jornalista Horacio Verbitsky, ex-dirigente dos Montoneros, profetizou ainda antes da posse que “o governo de Macri violará fortemente os direitos humanos”. De lá para cá, a profecia converteu-se em acusação sistemática, disseminada por variadas agências de propaganda e sob os mais diversos pretextos.

    O presidente teria feito uma “prisioneira política”, na figura de Milagro Sala, fundadora da organização esquerdista Túpac Amaru, mesmo se a controvertida ordem de prisão partiu de um governador provincial que não pertence ao partido de Macri e foi confirmada pelo tribunal competente. Segundo um manifesto de intelectuais e artistas, o presidente seria um traidor do compromisso argentino “com a verdade, a memória e a justiça” porque um gestor cultural ligado à sua antiga gestão em Buenos Aires sugeriu que o número de desaparecidos políticos durante a ditadura está sujeito a debates históricos. De acordo com Hebe de Bonafini, líder das Mães da Praça de Maio, uma neo-kirchnerista que se rebaixou a ponto de aplaudir os atentados de 11 de setembro de 2001 e os sequestros das Farc, “Macri é um ditador criado pelo voto”, que “tira o emprego do povo” e “mata de fome”.

    A esquerda corre em busca da ditadura perdida para escapar dos dilemas do presente. Numa ponta, o regime cubano anuncia a legalização de empresas que empregam trabalho assalariado e aposenta o tabu mais sagrado, explicando que “a propriedade privada em certos meios de produção contribui para a eficiência econômica”. Na outra, sob o “socialismo bolivariano”, a Venezuela desce rumo ao caos, ilustrando as implicações extremas do lulopetismo e do kirchnerismo. Mas os espantalhos de 1964 e da “guerra suja” desviam os olhares, adiando o encontro com a realidade.

    É uma pena. Brasil e Argentina precisam da voz de uma esquerda lúcida, curada da maldição do sonambulismo.

    Demétrio Magnoli, FSP, 28/05/2016

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