Nós, homens, e a luta contra a Cultura do Estupro

Por Rodrigo Santaella

Eu não luto o suficiente contra a cultura do estupro. Qualquer luta da qual eu faça parte terá suas limitações nesse sentido: sou homem, e por mais que tenha alguma criticidade, que tente problematizar o machismo, questionar o patriarcado, não consigo por minha própria conta me desfazer dos privilégios que tenho pela condição de ser homem. Nós, homens, somos os únicos responsáveis históricos pela criação das bases materiais e subjetivas que criam as condições para que tenhamos uma vítima de estupro a cada 11 minutos no Brasil, e somos os maiores responsáveis por sua reprodução cotidiana. Eu, você e todos os demais somos os responsáveis.

Mesmo que a maioria de nós ache o estupro uma coisa horrível, deplorável, etc., muitas de nossas atitudes cotidianas reproduzem a cultura que legitima ou que dá margem a esse tipo de ação. Desde muito novos, somos estimulados a tratar as mulheres como objetos – de desejo, de conquista, de uso, de autolegitimação. A mesma lógica que faz com que descartemos e desprezemos as meninas que nos dizem “não” em uma festa de adolescência – ou insistamos até o limite da força – orienta aqueles que se sentem no direito de divulgar fotos e vídeos íntimos de ex-companheiras nas redes sociais. A mesma cultura que legitima que nós olhemos para as mulheres como se fossem pedaços de carne nas ruas torna aceitável, em conversas “privadas entre amigos”, referir-se a mulheres como se fossem feitas para suprir nossos desejos. É essa, de forma muito resumida, a base cultural que está por trás de atitudes extremas como o estupro. O estuprador se sente, de uma forma ou de outra, legitimado e incitado a estuprar, às vezes a ponto de expor sua atitude em rede nacional, como Alexandre Frota, ou nas redes sociais, como alguns dos 33 estupradores da menina no Rio de Janeiro. E eles estão, de fato, legitimados! Via de regra, a culpabilização da vítima, “que não se deu ao respeito”, é parte importante das repercussões de casos de estupro. A linha entre tratar a mulher como um ser inferior, feito para atender nossos desejos sexuais, e efetivar o atendimento desses desejos à força, sem consentimento explícito, é tênue.

Você pode pensar que não faz parte dessa história. Eu já pensei assim. Mas quantas amizades você desfez ao longo de sua vida porque seus amigos eram machistas nojentos? Quantas relações de trabalho você sacrificou porque seus colegas fazem comentários cotidianos completamente absurdos? Quantas relações familiares você rompeu por isso? O que, na sua vida, você arriscou efetivamente, de verdade, para combater a cultura do machismo da qual você e eu somos parte? Pouco ou nada. Por isso somos responsáveis e não adianta pensar que não somos. Sabe aquele grupo de WhatsApp que os seus amigos do trabalho (ou da escola, ou de infância) formaram, só com homens? Já parou para pensar que aquilo é um antro de reprodução cotidiana da objetificação da mulher e da cultura do estupro, e que você não faz nada sobre isso que possa te causar nenhum transtorno? Sabe aquelas piadas ou comentários que se repetem sempre que homens se encontram sozinhos, que se referem às mulheres que convivem com vocês de forma completamente coisificada? Pois é. Isso somos nós, isso é o nosso cotidiano.

A única forma de contribuir com o fim do machismo e com o fim da cultura do estupro é entender que, se somos TODO O PROBLEMA, só podemos ser parte muito pequena da solução. Isso não significa que não devamos fazer nada, pelo contrário! É obrigação de todos os homens lutar todos os dias contra a reprodução dessa lógica. Mas, para isso, são necessários dois pressupostos, sob pena de fazermos exatamente o contrário: primeiro, saber que mesmo os mais críticos somos parte central do problema. Somos omissos, acomodados, por vezes indiferentes. Mesmo quando nos incomodamos com uma situação e sentimos certa vergonha alheia ou alguma repulsa de amigos machistas, por vezes não fazemos nada mais do que comentar baixinho com o outro amigo de esquerda, e seguir para a próxima cerveja às gargalhadas com os proferidores de absurdos. Nunca sacrificamos nada por isso, nem sequer o clima agradável de uma noite com os amigos.

Segundo, e mais importante, é preciso saber que a luta contra o machismo só terá êxito se as mulheres nos atropelarem constantemente. Nós nunca caminharemos no ritmo certo no combate aos nossos próprios privilégios, nunca compreenderemos o que é sofrer da opressão machista. O mínimo que podemos fazer é, quando a luta feminista passar por cima de nossos privilégios, agradecermos pelo mundo mais justo que cada uma das mulheres que lutou para construir, aprender com elas e ficarmos alertas para que não reconstruamos a opressão de outras formas.

Um homem só é parte da luta contra a cultura do estupro se tiver mulheres à sua frente, puxando-o para a luta e jogando seus privilégios constantemente no lixo. Esse é o único cenário que me permitiria dizer luto contra a cultura do estupro. Em mim, isso ainda está em construção.

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