Querida esquerda, ocupemo-nos de cultura

Por Clara Maragna*, em colaboração especial para o Brasil em 5

Em tempos cinzentos e altamente cibernéticos, nesses que ilustrariam algum pequeno poema de Bertold Brecht, camaradas da esquerda se propõe cotidianamente a estudar a complexidade conjuntural e a tentar analisar como sábios filósofos os erros cometidos em tempos, quase presentes.

Brecht, que nem é brasileiro, se estivesse cá comigo diria que “também gostaria de ser um sábio”, mas que não poderia o ser, porque suas batalhas sempre foram travadas no campo prático científico e criativo, assim como a arte que repudia o agir submisso e tão pouco obedece às regras secularmente estabelecidas.

Analisar a conjuntura é um esforço valoroso, necessário, e que não pode ser reduzida a argumentos objetivos, ortodoxos frutos de uma equação feita por práticas tradicionais de partidos fraticidas e sufocadores de pessoas.

Tudo tem um limite, inclusive nossa estupidez empírica de esquerda.

É preciso entender que a velha roupa desbotada dos partidos tradicionais não comportam a nova multiplicidade de desejos que existem nessa sociedade. Isso não está nos livros, nem nos manifestos, nem dentro dos partidos, está em junho de 2013, está nas ruas das cidades, nas ocupações culturais dos equipamentos do Ministério da Cultura, no carnaval de luta, nas expressões democráticas e nas resistências populares.

A luta das mulheres e de tantos oprimidos se constroem em assembleias populares horizontais, em criações de desfiles de mulheres negras, através de músicas e performances, onde a produção popular incube cada pessoa de uma função. Nos atos culturais as palavras de ordem são entoadas em ações artísticas, cirandas fecham as ruas e param o trânsito assim como atividades artísticas e políticas são ofertadas a cidade.

Se nós estamos perdendo de 7X1, a cultura- que sabe a quem serve o nosso conflito- retirou o seu placar para não competir com seus pares e vem realizando uma goleada na direita recatada e conservadora. Ocupa os espaços do Minc com propostas de resistências artísticas pela luta democrática, fortalece outras manifestações e lutas de moradia, constrói com os estudantes a possibilidade de uma educação libertária e constrange os setores conservadores por fazer mais política pública autogestionada na área cultural que o próprio Estado.

A cultura produz novas subjetividades e diferentes modos de fazer porque ela é altamente humana, não se limita a uma forma de expressão e seu sistema de reprodução da vida se faz nas ruas, com toda marginalidade posta como ferida aberta. As suas ressignificações e suas habitações insurgentes ou permanentes são necessariamente coletivas. A resistência é gerida no cotidiano criativo.

Portanto, camaradas da esquerda, parem de achar que a arte e a cultura só disputam o simbólico. Reafirmar isso é fechar os olhos para a realidade, renegar toda a singularidade que está posta nas ruas e se distanciar do trilho que coloca o nosso bonde na cidade. Uma coisa não exclui a outra, mas a nossa ignorância para tal, sim.

Não é obvio dizer que a cultura assim como a arte disputam um projeto de poder coletivo, sua maneira de construir os espaços das cidades refutam a necessidade imperiosa de compreendemos que o desejo de combater o aprisionamento dos bens comuns e das nossas vidas pode ser manifestado de diversas formas, inclusive combativas e criativas.

A cultura é o ponto subversivo e central de encontro das diversas formas de resistência e construção de poder popular na sociedade. Assim como a rua possui uma dimensão emancipatória, é na produção do espaço, de maneira artística, que as ações novas vão conquistando os olhares e braços cansados de milhares de brasileiras e brasileiros.

É preciso acessar um ponto comum com a nova maioria, realizar o exercício de despertar no outro o caminho estreito que nos colocará em revolução.

E já que falamos em revolução, que façamos enquanto esquerda o exercício da formulação da escuta pois a rua clama por nós há muito tempo. É chegada a hora de construirmos as ruas e os muros que já foram rompidos de maneira mais criativa, diversa e horizontal.

A arte exige coragem, e a revolução também.

 

* Clara Maragna é artista, advogada e militante das Brigadas Populares. Compõe o Espaço Comum Luiz Estrela e a Funarte Ocupada.

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Um comentário sobre “Querida esquerda, ocupemo-nos de cultura

  1. Gérson 07/06/2016 / 16:06

    Das suas primeiras linhas, percebi que: – não existe “oculpemos” – o nome de Brecht é Bertolt, com T – “ilustrariam” não tem acento.

    Depois, correndo o olho, vi “/a velha roupa… não *comportam*”./

    Acho que você precisa urgentemente contratar um revisor.

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