O Brasil da zueira: 5 dicas para Dilma botar alguma ordem no barraco

Por Sammer Siman

Jacarezinho, avião, cuidado com o disco voador

Tira essa escada daí…eu vou chamar o síndico

Tim maia!

Já dizia o General De Gaulle, conforme a música de Rita Lee e Roberto de Carvalho, “esse país não é sério! Mais vale um homem de gol, que dois de araque no ministério. Mas que mistério!” A prova cabal é o desfecho que se desenha de uma cena patética, um impeachment sem crime de responsabilidade cujo objeto são atos triviais de administração pública, igualmente praticados pelo Senador Antônio Anastasia, mister das pedaladas fiscais nas Minas Gerais e relator do processo de impeachment.

É como se Dilma tivesse sido acusada de ter roubado uma bicicleta, as câmeras do prédio comprovado que não houve roubo (no caso concreto, as perícias do Ministério Público Federal e do próprio Senado), mas o juiz resolve condená-la por tirar má nota na escola e ter deixado o leite derramar da geladeira. Condená-la por um tal “conjunto da obra”, que na prática trata-se de uma política econômica restritiva que os golpistas não divergem e, muito pelo contrário, estão aplicando com muito mais profundidade e radicalidade, pois mais do que ajustes fiscais como os realizados por Dilma estão retirando direitos e garantias dos trabalhadores brasileiros, além da entrega do pré-sal.

O juiz, nesse caso, é um senado composto por notórios corruptos, tem até dono de helicóptero que foi encontrado com 450 kg de pasta base de cocaína e tratado pela polícia federal e pela justiça como se fosse um carregamento de barra de chocolates: Investigação zero, hipocrisia de sobra. No comando do picadeiro, um tal Ricardo Lewandowiski que, enquanto preside o processo de impeachment, faz lobby para aumentar o salário de R$ 33 mil para quase R$ 40 mil por mês dos “pobres” ministros do STF numa votação já marcada no Senado pro dia 8 de setembro, o que vai gerar um efeito em cascata nos salários da assim chamada “elite” do funcionalismo público. Sabe aquele papo de responsabilidade fiscal?? Definitivamente, a zoeira não tem limites.

No plenário, toda trama tem sido desvendada no detalhe. Constatou o Senador Randolfe Rodrigues que o ex-auditor do TCU, Antônio Carlos D´ávila, ajudou na elaboração do parecer das tais “pedaladas fiscais”, a mesma que lhe coube julgar depois. De outra parte, a Rede Globo segue noticiando a cena como se o país estivesse prestes a entrar no caminho da moralidade. Logo ela, filhote da ditadura militar, campeã da sonegação fiscal e da arte de manipular os destinos do povo brasileiro.

O drama é que, como já disse Mr. Catra, o bagulho fica sério. Quem viveu ou conheceu minimamente o golpe de 64 chega à conclusão que a tomada de poder daquele momento pareceu uma quartelada do exército de brancaleone, mas a “trapalhada” fruto de interesses diversos e inconfessáveis resultou num regime sangrento de 21 anos, em que pessoas como Dilma e tantos brasileiros – notórios ou não – foram mortas e torturadas.

Aliás, nessa trama toda, Dilma está se consagrando como uma mulher de caráter forte e moral inabalável, alguém que entrará para o panteão da história por defender valores democráticos arduamente construídos nas últimas 8 décadas, entre “idas e vindas”. E que, oxalá, não precisará sair da vida entrar pra história, terá assento in vitae.

Aqui faço a ousadia de dar a Dilma 5 dicas para botar alguma ordem no barraco caso seu imponderável retorno se verifique, para que vivamos uma espécie de transição entre a zoeira e a seriedade sem ter que para isso entrar numa provável guerra civil, caso o golpista Temer se confirme no poder.

  • Compre uma passagem para Henrique Meirelles para as ilhas Cayman, sem previsão de retorno. É lá que devem estar os banqueiros sociopatas que propõem descalábrios como a PEC 241, que promete congelar os serviços públicos por 20 anos, ou seja, dizimar com o SUS, a educação, etc. No comando da economia, coloque alguém do calibre do Senador Roberto Requião, quem já apresentou um programa exemplar para governar o Brasil em 2018 e poderá tomar medidas como a redução imediata dos juros, a exemplo do que tu fez no começo do seu governo em 2012 quando a taxa real de juros chegou próximo de 1% ao ano.
  • Mande o Pedro Parente para a casa de seus…parentes. Com o perdão do péssimo trocadilho, esse é outro campeão de entreguismo, que assumiu como bandeira a entrega da Petrobrás e do Pré-Sal pros gringos, como deseja seu chefe José Serra . Por sua parte, Serra conseguiu a proeza de conviver com uma greve inédita dos servidores do Itamaraty na última semana e recebeu, na última quinta-feira (25), os abutres da Shell que estão de olho no pré-sal . No lugar de Pedro Parente, coloque alguém que ame o Brasil e que coloque a Petrobrás a serviço de um projeto soberano.
  • Faça uma vaquinha e compre, enfim, um tríplex para o Lula no Guarujá. A propósito, o Sérgio Moro não conseguiu confirmar sua propriedade, mas o Lula precisa de um lugar mais distante de Brasília, do contrário é bem capaz de sugerir um “grande acordo” que envolva Calheiros, Calhordas e outros sujeitos que devem ser dizimados da vida pública nacional. Lula só sabe fazer política nos termos da conciliação de classes, mas o amor acabou, a Casa Grande brasileira não quer mais conciliar.
  • Pegue a caneta desmanipuladora e revogue todas as medidas do MimimiShell Temer que ferem de morte os direitos do povo, a exemplo daquela que aniquilou com o Ministério da Previdência e o Ministério da Ciência e da Tecnologia. E mantenha as raras e não menos importantes medidas positivas, a exemplo da negação da licença para construção da Usina Hidrelétrica de Tapajós realizada no governo do interino.
  • Dê de ombros e deseje a todas inimigas vida longa. Chame para governar contigo as mulheres desse país, os negros e todos os alvos preferenciais da Casa Grande patriarcal. Só as ruas podem sustentar um projeto de autonomia que condicione o congresso em favor de um projeto de maioria. E reconheça também o protagonismo dos movimentos sociais e de todas as organizações que atuaram de maneira decidida contra os golpistas, essas são as forças vivas mais consequentes desse país.

Enfim, dê ao Estado brasileiro o mínimo de seriedade que ele precisa. E se nada disso estiver ao seu alcance ou mesmo interesse, já teremos sido gratos de retomar com a constitucionalidade sequestrada por uma patota entreguista e anti-nacional, inimigos do povo brasileiro. A propósito, a luta não acaba agora, ela só está começando, seguiremos em busca da vocação de liberdade e da construção de uma Mátria Livre e soberana.

Obs: Fica o chamado para todos/as aqueles/as preocupados/as com o destino do Brasil a tomar amanhã (dia 29 de agosto) as ruas de Brasília, de São Paulo, Rio de Janeiro e outras tantas capitais do Brasil. Em São Paulo, o ato puxado pela Frente Povo Sem Medo e pela Frente Brasil Popular terá início as 17h, na praça do Ciclista, Avenida Paulista. No Rio, a concentração será na Candelária, também as 17h.

Obs 2: Denunciamos, neste exato momento (28 de agosto, 18 horas), o impedimento da realização do evento FUNK Sem Medo na Favela da Rocinha, que está bloqueado pela Polícia por determinação do governo do Estado do Rio de Janeiro (PMDB).

dilma ratos

Imagem retirada do facebook do Senador Lindbergh Farias

As respostas que o PSOL precisa dar nas eleições municipais de 2016.

O PSOL se diz um partido programático. É, inclusive, reconhecido como tal por seus adversários, por seus correligionários e até (recentemente) por ministros do Supremo Tribunal Federal. Mas que programa é esse? Quais são as concordâncias mínimas que existem entre nós que nos distingue de outros partidos? Qual será a diferença de uma prefeitura do PSOL e uma prefeitura de um outro partido qualquer? Qual é nossa identidade, qual é nossa diferença? Quais são, afinal, nossos critérios compartilhados para uma ação conjunta?

Essas perguntas são importantes porque talvez tenha chegado a hora do PSOL. A hora de mostrar que uma alternativa real de poder existe. Que ela tem lugar, nome e endereço. E que ela é só o começo de uma nova estrutura social que tomará conta de todo o país, o continente, o mundo. Este, certamente, é o sonho longínquo de muitos de nós, militantes de esquerda, que – por muito tempo, tivemos que chorar nossas mágoas pelas reiteradas traições do projeto social-democrata petista. Muitos de nós nutrimos, é verdade, uma esperança sincera em tudo que estava por trás daquela grandiosa estrela vermelha. Ela se foi e está prestes a dar seu último suspiro. Mas é dela que nascem várias outras menores, porém aguerridas, estrelas. Uma dessas estrelas é o PSOL. Somos filhos desta esperança longínqua e, como tal, foi importante para nós um longo período de luto. Alguns de nós ainda estamos nesta luta (de fazer o luto), o que não é tarefa fácil, como já nos explicou Freud, mas é um ato necessário para evitar a melancolia.

Passado o luto, porém, e tendo destruído, simbolicamente, o objeto que foi o PT, o PSOL, aos poucos, tem se firmado como alternativa. Como um projeto que tem voo próprio. Que tem capacidades que o petismo talvez nunca tenha tido. Ou não faria sentido termos saído daquele projeto, certo? Certo.

É por isso, então, que precisamos nos fazer algumas perguntas e olharmos no espelho com franqueza, para que não repitamos, consciente ou inconscientemente, a história como tragédia, farsa ou barbárie.

Estas serão as eleições de maior importância para a vida e para a continuidade do PSOL, no meu entender. Muita coisa aconteceu e ainda está por acontecer neste ano, que completa 36 meses desde as manifestações populares mais volumosas e abrangentes do período da redemocratização. Foram vários os esquemas de corrupção abertos ao público geral. Foram vários os acordos politiqueiros que vieram à tona de maneira cristalina. Sem entrar no mérito dos métodos em que tais exposições nos apareceram, elas são um fato social incontornável. E fatos sobre os quais estão apoiadas as candidaturas do PSOL.

Nosso programa político nacional – aquele que já produziu dois vídeos dizendo que o PSOL “não é um partido qualquer” – nos dá pistas sobre a primeira pergunta que precisa ser respondida agora em 2016. Afinal, o PSOL é um partido “diferente” ? Se sim, por quais razões? O PSOL quer dar respostas efetivas aos problemas sociais? Quer tentar agir para sanar injustiças? Se sim, como? Ou não é isso e o PSOL é um partido que não tem respostas, mas pressupõe aquilo que Gramsci chamou de “princípio do erro”, onde os acertos e erros interessam pouco, já que estaríamos no “lado certo da história”? Nossa plataforma é “segurar a barra até que a revolução chegue”? Nós acreditamos numa mudança radical da sociedade – comumente chamada de revolução? Acreditamos que ela simplesmente virá ou que é preciso fazer algo para que ela aconteça?

Uma coisa que essas eleições demonstrará, sem dúvida alguma, é a pluralidade imensa do PSOL, pois, em cada prefeitura, em cada localidade, o PSOL terá respostas diferentes para perguntas que, ao meu ver, são fundamentais para uma coletividade unida. Afinal, acreditamos no socialismo? Se sim, em qual tipo de socialismo? Como ele deve ser construído e – mais importantemente – como que a eleição para a estrutura política do município nos ajudará a atingir nosso objetivo? Quais são os métodos, quais são os princípios e quais são os arranjos que tentaremos construir para atingir nossa finalidade? Como será o julgamento de nossos objetivos pela população? Como vamos poder dizer – internamente – que chegamos mais ou menos próximo de nossos objetivos?

Continuando na pragmaticidade que uma prefeitura exige, como serão distribuídos os cargos comissionados e de confiança? Qual será o critério? Como evitar a burocratização de quadros que comecem a viver materialmente da relação com a prefeitura? Quais seriam as alternativas? Ao governar, qual será a tática de funcionamento e de relação com o partido? Quais instancias vão se sobrepor às outras? Como vamos evitar os erros pragmáticos do PT?

Longe de querer adotar critérios ou índices quantitativos baratos, que mais reforçam o sistema do que elevam a discussão, essas perguntas precisam estar próximas da cabeça de quem se julga capaz de elaborar um projeto coletivo de alta complexidade, de imenso alcance e de ampla efetividade. Porque é impossível falar em “democratização radical” se não formos capazes de colocar à vista (aos olhos nus) tudo que desejamos alcançar. E, mais, expor como desejamos atingir tais objetivos. Mostrando isso ao público em geral, estes (assim como nós mesmos) poderão questionar com mais precisão. E dificultará respostas que mais “desconversam” do que “avaliam”, de fato, os feitos.

Responder tais perguntas, e – mais ainda – responder de tal maneira, nos obrigaria a responder outras que são tão fundamentais quanto as outras (ou mais) e que temos, vez ou outra, nos esquivado de responder na vida partidária. Do tipo: acreditamos em algum “sujeito” revolucionário? Este sujeito é o “partido” ? Este partido é o PSOL? Se não, qual é a função do PSOL? Qual é a função dos partidos em geral?

Essas são perguntas que, ao meu ver, estiveram presentes nas manifestações de junho de 2013. Eram perguntas – e não respostas. E me parece importante constatar isso. Porque, muitas vezes, a classe política (da esquerda à direita) age como se estivesse lidando com uma criança que sabe o que quer, mas não sabe verbalizar muito bem seu desejo. Como se ela – a classe política – fosse a mais legítima intérprete dessas vontades, dessas vozes, desses desejos. O PSOL se entende assim? O PSOL se entende apenas “mais capaz” de interpretar essas necessidades? É isso que nos diferencia? Nós somos sujeitos mais capazes? Mais eticamente compromissados? Mais moralmente adeptos de uma sociedade “justa” ? Somos os bonzinhos da história? É isso?

Porque muito do discurso em torno de nosso atual projeto está ancorado numa plataforma de direitos já descritos pela Constituição. Eles já estão lá, pelo menos em palavras –ainda que vazias. Nossa plataforma é, portanto, fazer valer esses direitos? É um projeto “em respeito aos direitos individuais e sociais de nossa carta política” ? É esse nossos projeto? Nosso projeto é fazer a reforma agrária, a reforma da previdência, a reforma trabalhista, a reforma urbana e todas as outras reformas de base? Se for isso – e apenas isso – precisamos afirmar tais plataformas com mais ênfase. Dizendo que elas, por si só, resolverão o problema. Apesar dos variados exemplos pelo mundo que demonstram o contrário.

Precisamos alinhar essas coisas sobretudo porque o amontoado de discursos que se encaixam num guarda-chuva genérico chamado “socialismo” já não engana muito as pessoas. E essas contradições virão à tona – sem muita solução, creio eu – quando começarmos a ter mais êxito eleitoral. Porque, vejam, o voto no PSOL raramente será em prol da repetição do mesmo. Será um voto esperançoso de que algo diferente e melhor pode vir. E qual será a diferença? Será a administração ética e moral das finanças públicas do capitalismo? Ou esse é só um primeiro passo?

É claro que cada um de nós vai ter uma resposta diferente para cada uma dessas perguntas e isso não necessariamente é ruim. Mas tem potencial para se tornar péssimo caso estes debates não estejam no centro da disputa eleitoral. Pelo menos para nós, socialistas. Não é só o voto que queremos. Isso é o que querem os partidos da ordem. Talvez, para um projeto socialista, a disputa eleitoral sirva sobretudo para tentar pensar e responder essas questões. Elaborar dúvidas, causar estranhamento em relação ao sistema posto. Talvez, uma eleição sirva mais para apresentar a ignorância coletiva sobre os rumos do que apresentar soluções mentirosas e que naturalizam o capitalismo.

Porque não se pode supor, como já aconteceu em alguns momentos, que nosso horizonte socialista, em geral, prevalecerá. Não podemos acreditar nisso. Nem pela crença num desfecho já desenhado para o movimento das engrenagens da vida; nem pela suposição de superioridade moral ou racional de nossa proposta. Como se, ao atingir determinado grau de consciência, todos, ou quase todos, irão concordar conosco. As consciências políticas não são una, são múltiplas. Supor que agindo “assim e assado” as pessoas terão uma única visão sobre a história e, mais, que essa visão será semelhante à nossa, é um tremendo equívoco.

Política não é isso. Política é disputa. E são vários os projetos em voga, várias organizações que tentam impor seus caminhos em detrimento de outros. Como estamos construindo as bases para nosso êxito?

Durkheim certa vez apontou que o socialismo era a expressão de um mal-estar vivido pela população. Um “grito de angústia coletivo”. Como se fosse um horizonte que se busca justamente pela sensação de estar imerso num sistema incapaz de providenciar justiça social. Num mundo complexo e hiper diferenciado, a solução para este sintoma (que é nítido) nao pode ser encontrada em um instante e pelo simples fato de que sua necessidade se faz sentir. É preciso organizar, delimitar e expor metodicamente os objetivos que se busca alcançar.

Queremos mais igualdade? Queremos a redução das desigualdades? A teoria liberal também diz querer diminuir as injustas disparidades sociais, mas ela jura que a lei da oferta e da demanda é a mais eficaz para solucionar tais problemas. Nossa diferença é não crer na lei da oferta e da demanda como diminuidora de desigualdade, então? E, se este for o caso, acreditamos que a estipulação de outras leis – no âmbito legislativo da política – será capaz de introduzir mais igualdade? É isso?

Não é isso, parece-me. Porque o mundo exige soluções muito mais elaboradas, que envolvem vários fatores conjugados. Mas quais são eles? Quais são os planos? Quais são os diagnósticos que alimentam esses planos? E quais são as atividades nas quais estamos empenhados para desenvolver e criar estes planos? O sistema capitalista será alterado pela mudança de quem ocupa as cadeiras de mando em sua estrutura? Se não for ciclano, mas for beltrano, aí sim, estaremos caminhando para o fim da produção de mais valia? Se sim, por que? O que faz deste “sujeito” alguém mais capaz e mais potente?

É claro que não precisamos responder tudo de antemão. Tem muita coisa que se responde enquanto se anda, enquanto se desenvolve. Mas é um erro incorrigível deixar de ter essas questões e essas pendengas em mente. É um equívoco do qual já fomos reféns. Precisamos perder mais sono do que já perdemos pensando nessas coisas. Porque a ditadura do cotidiano é o que nos leva (todos nós, não só alguns perdidos, canalhas, pragmáticos) a repetir erros e reproduzir o que criticamos.

É claro que muitos sectários dirão que talvez o PSOL seja só mais um partido da ordem liberal burguesa, que almeja operar com mais ética e mais moralidade, dando maior visibilidade a algumas injustiças sociais. Que talvez o PSOL queira apenas exercer o poder a luz do traído projeto democrático popular (petista). Dirão que, na melhor das possibilidades, este será nosso horizonte. Mas me parece que não. Parece-me que podemos mais e queremos mais.

É por conta dessa pressuposição que acredito ser importante elencar e buscar responder essas e outras perguntas. Caso contrário, estaremos mentindo para nós mesmos, e o projeto socialista nao pode se contentar com isso.

Temos, portanto, de parar de ver o socialismo (ou qualquer transformação séria) como mera utopia. As utopias normalmente são alimentadas por pessoas que julgam importante apenas um devaneio. Um devaneio que as tire da realidade para que o escapismo momentâneo resolva – no âmbito da consciência – alguns dos males que ela própria reproduz no cotidiano. Na utopia, a pessoa prova para si mesma que é capaz – em pensamento – de ser solidária e altruísta. E entende como suficiente expressar essa capacidade ou esse desejo longínquo de que sua quimera se torne realidade.

O socialismo precisa ser uma busca prática. Uma ciência. Um agir com métodos analisáveis, criticáveis e capazes de serem reelaborados. Porque somos um partido e não um grupo literário. Somos um partido e não um aglomerado de beatos indo à igreja. É necessário fazer essa distinção. Sob pena de sermos as primeiras vítimas desse engano escapista. Um engano que gera frustração, magoas e uma imensa quantidade de imobilismo.

Talvez as respostas mais sinceras que poderemos dar ao fim e ao cabo serão mais perguntas. E isso não parece um problema. A importância está no processo reflexivo que busca. Que vai atrás. Que, de fato, se preocupa em agir, não só reagir. Como apontou Maquiavel,“é preciso estar preparado para conservar o que a fortuna lhes depositou no regaço”.

 

 

 

 

 

 

Depois da Rio 2016: haverá legado esportivo no Brasil do Golpe?

Por Roberto Santana Santos

Terminada a grande festa do esporte mundial no Rio de Janeiro, devemos realizar um olhar atento sobre o esporte brasileiro. Foi a melhor participação do país em Olimpíadas da história (7 ouros, 19 medalhas no total). O Brasil ficou entre os 15 melhores no quadro de medalhas (13° lugar). Medalhamos em esportes que nunca tivemos nenhuma tradição, como canoagem, tiro e taekwondo.

O esporte olímpico brasileiro nunca recebeu tantos incentivos e recursos como no último ciclo olímpico. Justiça seja feita, os governos de Lula e Dilma criaram uma série de programas (Segundo Tempo, Bolsa Atleta entre outros), que permitiram garimpar novos talentos e fazer com que os/as atletas de alto rendimento se dedicassem integralmente aos treinamentos e competições, além do investimento em instalações, intercâmbios e equipamentos. Um dos heróis olímpicos do Brasil, Isaquias Queiroz (3 medalhas na canoagem) começou a treinar justamente em um dos programas do Governo Federal.[1] Notório foi também a participação dos atletas junto às Forças Armadas, responsável por mais da metade das medalhas.[2]

O resultado histórico do Brasil mostra o quanto estamos aquém das nossas possibilidades. Se um investimento de quatro a seis anos nos permite ficar entre os quinze melhores e conseguir medalhas em 12 esportes diferentes, um país com recursos e população como Brasil tem tudo, a longo prazo, para figurar sempre entre os dez melhores dos Jogos.

Aí está o problema. O desafio é manter o nível. Mais do que isso. É alocar o esporte no seu espaço de direito, o de transformador social e gerador de um sentimento de coletividade para superar desafios. Isso perpassa pela valorização da educação física e seus profissionais em escolas e universidades, um trabalho de base de todas as federações esportivas (várias delas dominadas por verdadeiras máfias há décadas), e um programa olímpico sério do Governo Federal, desde o trabalho de base até o apoio ao esporte de alto rendimento. Nenhum país potência olímpica chegou a esse status sem uma política pública séria e constante.

O apagar das luzes da Rio 2016 nos preocupa, ao pipocar na imprensa os retrocessos do governo golpista de PMDB-PSDB que já prometem andar para trás também na área esportiva. O Ministério do Esporte, sem discussão e comunicação prévia, suspendeu vários editais para depois das Olímpiadas, deixando atletas sem futuro e confederações com planejamentos prejudicados.[3] O futebol feminino, uma das modalidades que mais sofrem com falta de investimento e preconceito, está com sua seleção principal permanente ameaçada, pois um dos dirigentes disse que a modalidade “não decolou”, mesmo tendo emocionado o país e lotado os estádios (mais do que o maltratado Brasileirão).[4]

O sucesso do Brasil na Rio 2016 pode ser o início de uma potência nos Jogos, ou uma enorme decepção, se o investimento feito até agora for paralisado. Os retrocessos na política e na sociedade brasileira ameaçam também o nosso esporte. Importante também o destino das instalações esportivas construídas para os Jogos, que podem ser importantes centros de treinamento para nossas atletas, ou virarem elefantes brancos.

Por fim, vale notar que poucos dos nossos medalhistas se encaixam no perfil homem-branco-heterossexual. Vimos as medalhas serem entregues a atletas negros, pardos, mulheres, homossexuais, nordestinos, com grandes histórias de superação e luta contra oponentes cruéis, como o racismo, preconceito e as adversidades do subdesenvolvimento brasileiro (Rafaela Silva e Maicon Andrade, por exemplo). Não há aqui nenhuma surpresa. Os/as medalhistas apenas refletem a diversidade do povo brasileiro, invisível apenas para uma fração arrogante e racista de nossa população, minoritária em números, mais grande em poderes e privilégios. [5]

Roberto Santana Santos é historiador, doutorando em Políticas Públicas pela UERJ. Secretário Executivo da REGGEN (Rede de Economia Global e Desenvolvimento Sustentável) da UNESCO. Autor do livro “Coronéis e empresários: da esperança da transição democrática à catástrofe neoliberal”.

[1] http://www.revistaforum.com.br/2016/08/21/atletas-da-canoagem-atribuem-medalha-a-projeto-de-lula-ao-vivo-na-globo/

[2] http://espn.uol.com.br/noticia/624634_r-18-milhoes-e-684-das-medalhas-forca-militar-impulsiona-podios-no-rio-2016

[3] http://olimpiadas.uol.com.br/noticias/redacao/2016/06/07/esporte-suspende-verba-para-pos-olimpiada-e-revolta-confederacoes.htm

[4] http://globoesporte.globo.com/blogs/especial-blog/bastidores-fc/post/cupula-da-cbf-discute-extincao-de-selecao-permanente-de-futebol-feminino.html

[5] http://espn.uol.com.br/post/624325_olimpicas-9-com-muito-orgulho-com-muito-amor

Paulinho da Viola e a emoção do hino nacional

Por João Telésforo

Como não se emocionar com a voz de Paulinho da Viola entoando o hino nacional brasileiro?
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Não é de hoje que a esquerda tem problemas com o nacionalismo, e por razões bastante justificadas: o sentimento nacional tem sido manipulado, ao longo de séculos, para legitimar guerras, invasões imperialistas, colonialismo interno e racismo, repressão ao pluralismo político e à expressão democrática dos conflitos sociais. Agora mesmo, vemos novamente um governo proclamar-se como de “salvação nacional” enquanto planeja a destruição de direitos trabalhistas, a aceleração da entrega do petróleo e das terras brasileiras para os gringos.
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Não só a “esquerda” (ao menos em sentido mais estrito); vários grupos historicamente oprimidos em nome do “interesse nacional” têm ainda mais razões para desconfiar do discurso patriótico ou patrioteiro de um projeto de integração nacional homogeneizador, que busca destruir ou domesticar as resistências coletivas de povos indígenas, negros/as, trabalhadores/as sem-terra, dissolvendo-as na impotente identidade individual do “cidadão”, súdito mais sofisticado do Estado e do mercado.
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Diante disso, um setor dogmático da velha esquerda afirma que o nacionalismo é ideologia, logo reduz-se a “falsa consciência”, “alienação” fabricada para justificar as relações sociais de exploração e opressão; portanto, deveríamos simplesmente esconjurá-lo, como arma do inimigo, e proclamar o “internacionalismo proletário”. Nesse caso, o que fazer com a emoção que sentimos ao ouvir Paulinho da Viola cantar o hino nacional, na abertura das Olimpíadas?  Tentar superá-la? Fingir que não existe? Desprezá-la, como se fosse mero assunto de foro íntimo?
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O problema maior da redução da ideologia à “falsa consciência”, condição “alienada” a ser superada, não está em sua extrema pobreza intelectual e explicativa; mais preocupante é sua inépcia política, evidenciada pelo isolamento dos grupos portadores dessa concepção sobre as ideologias, de forma geral, e o nacionalismo, em especial.
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As emoções que sentimos em comum, entre milhões e milhões de pessoas, vinculadas ao pertencimento a uma formação socioespacial – este Brasil que nós amamos -, são portadoras de uma potência política extraordinária. Por mais piegas que seja a afirmação, é preciso reconhecer o fato e retirar dele todas as consequências necessárias, para que a alma brasileira, com “muito orgulho e muito amor”, não continue a ser roubada por aqueles que atentam contra os interesses e direitos das amplas maiorias sociais do país, em toda a sua diversidade.
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É necessário construir outro projeto para o Brasil, um projeto de dignidade e soberania – não a velha “soberania” como meio para a afirmação do Estado contra comunidades e povos, mas sim de edificar a autonomia necessária para que tracemos nossa própria história, abandonando o caminho da subserviência, do entreguismo, do colonialismo.
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Outro projeto, no entanto, não basta, nem tampouco será gestado por obra de meia dúzia de especialistas ou dirigentes de alguma “vanguarda”. Seu amálgama depende do envolvimento de multidões aglomeradas por interesses, mas também por sentimentos, práticas culturais e vínculos afetivos; por um imaginário que deve avançar não a partir de alguma formulação abstrata de “consciência verdadeira” à qual a realidade deva encaixar-se (segundo um velho método idealista rechaçado por Marx), mas da observação de como se movem as tendências contraditórias da sociedade, também no plano ideológico, para que possamos intervir nela de forma (auto)crítica.
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Se a negação abstrata do sentimento nacional e de um projeto de país são contraproducentes, também o é a tentativa de apropriação acrítica das armas ideológicas do inimigo. Nossa defesa do Brasil e de suas gentes deve antagonizar com o discurso pseudo-nacionalista das classes herdeiras da Casa Grande, mas não apenas no conteúdo: deve encontrar também, no leito histórico de nossa produção comunitária, política e cultural subalternizada, sua própria forma, estilo, estética – seu próprio tom, como o de Paulinho da Viola. Não para reproduzir, uma vez mais, a história de apropriação e reciclagem das estruturas opressoras, mas como fermento dos processos de luta por emancipação que estão em marcha no andar de baixo, forjando um país para si no cotidiano de resistência e invenção coletiva.
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Mátria Livre, venceremos!
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PS: não pretendi fazer, aqui, uma análise geral das Olimpíadas nem de sua abertura. Recomendo assistir a este vídeo do Brasil de Fato. Assinalo, por fim, que este texto foi inspirado por esta afirmação  de Luiz Simas: “Desde Osório Duque Estrada o Brasil procura uma maneira de cantar o hino nacional. Paulinho da Viola achou ontem. É isso”. Obviamente, isso não o torna responsável pelas ideias e opiniões que emiti aqui.

O CONGRESSO DO GOLPE

Por Sammer Siman

O que parece ser o início do fim da novela Cunha a partir de sua renúncia da presidência da câmara ajudou a revelar um dado importante: Cunha não é a encarnação do mal do Brasil, pois o que não falta é parlamentar mau caráter e submisso para fazer o serviço sujo e cumprir a agenda do golpe conformada pela questão do Petróleo, da Renda e dos Privilégios, como bem sintetizou Pedro Otoni em artigo recente.

Outro dado, revelado pelas manifestações de ontem (31 de julho) reflete uma queda de prestígio da direita capitaneada pelos movimentos Vem pra Rua, Revoltados Online e outros aglomerados liberais que outrora conseguiram, junto com a mídia golpista, mobilizar setores sociais que legitimamente almejam o fim da corrupção, como deve ser.

Restou agora uns PATOS pingados que não hesitaram em botar a cara para defender o usurpador, golpista e informante da CIA Michel Temer, agora mais conhecido como MiShell Temer, dado sua subserviência às petroleiras internacionais comprovada na última quinta-feira por meio da sorrateira entrega de blocos de exploração do pré sal para a gringa norueguesa Statoil por uma ninharia de 2,5 bilhões de reais, um valor que corresponde a pouco mais de um dia do que o governo paga de juros da dívida pública para a Casa Grande e para a Casa Branca.

Já a mídia golpista parece ter descoberto as portas do paraíso e tele transportou todo o povo brasileiro para o mundo de Alice e suas maravilhas. O desemprego, que segue ampliando dramaticamente (11,4 milhões – conforme aponta esse artigo recente de Clemente Ganz Lúcio do DIEESE) e a crise econômica que outrora inundou os noticiários soa agora como um detalhe irrelevante, personagens eternos da TV como Willian Bonner e Willian Waack transformaram-se numa espécie de yorkshire frente ao governo Temer, abdicando da condição de pitbull do passado. A corrupção já parece não ser um problema nacional e os áudios vazados de golpistas confessos não causam nenhum tipo de comoção.

E agora, com as olimpíadas a vista, tudo indica que entraremos numa espécie de êxtase, em mais um megaevento que escancara a corrupção de prioridades de governos que sacrificam seu povo (a exemplo dos reiterados atrasos e cortes que vem sofrendo o funcionalismo público do Rio de Janeiro), nisso que promete ser um festival de nados e saltos enquanto que para a grande massa do povo brasileiro restará a vara, cravada em nossos bolsos.

A Casa Grande brasileira definirá, em breve, o ritmo da violenta luta de classes que promete se desenrolar no próximo período. Ao que tudo indica cerrou fileiras de maneira definitiva para garantir a aprovação do impeachment no Senado e apostará suas fichas no inóspito Temer, o vassalo sem voto e ficha suja que tem a cultura como inimiga e os banqueiros como aliados.

Quanto a nós, uma convicção é certa: O Temer VAZA!! Do contrário é meter fogo no engenho ou ver a revogação da lei áurea acontecer por meio do fim da CLT e do direito de aposentar. O retorno da Dilma trata-se da saída constitucional neste momento e, com plebiscito ou sem plebiscito, resta a nós construir de maneira decidida uma agenda popular que aponte saída para a crise independente de governo.

A propósito, daqui por diante a “condição para governar” de qualquer presidente deverá vir das ruas, pois o congresso do golpe só pode estabilizar os interesses da Casa Grande, não podemos esperar nada de um congresso conformado por uma maioria de playboys que tramam diuturnamente contra os interesses do povo brasileiro, a exemplo do PL 257 que está neste momento na pauta e promete arrasar com o serviço público no Brasil.

Está mais que provado também a saída não está nas mãos do PT, nem muito menos do PMDB e do PSDB, a saída está na superação deste regime político organizado pelo latifúndio, pelos monopólios, pelo imperialismo, pelo racismo e pelo patriarcado, a saída está na conformação de um amplo movimento de massas que consagre a soberania e o bem viver do povo.

Mobilizemos a esperança, aumentemos nossas apostas! O amor vencerá o ódio e o amanhã será maior.

31 julho

Ato Fora Temer, São Paulo, 31 de julho. Fonte: Frente Povo Sem Medo