Depois da Rio 2016: haverá legado esportivo no Brasil do Golpe?

Por Roberto Santana Santos

Terminada a grande festa do esporte mundial no Rio de Janeiro, devemos realizar um olhar atento sobre o esporte brasileiro. Foi a melhor participação do país em Olimpíadas da história (7 ouros, 19 medalhas no total). O Brasil ficou entre os 15 melhores no quadro de medalhas (13° lugar). Medalhamos em esportes que nunca tivemos nenhuma tradição, como canoagem, tiro e taekwondo.

O esporte olímpico brasileiro nunca recebeu tantos incentivos e recursos como no último ciclo olímpico. Justiça seja feita, os governos de Lula e Dilma criaram uma série de programas (Segundo Tempo, Bolsa Atleta entre outros), que permitiram garimpar novos talentos e fazer com que os/as atletas de alto rendimento se dedicassem integralmente aos treinamentos e competições, além do investimento em instalações, intercâmbios e equipamentos. Um dos heróis olímpicos do Brasil, Isaquias Queiroz (3 medalhas na canoagem) começou a treinar justamente em um dos programas do Governo Federal.[1] Notório foi também a participação dos atletas junto às Forças Armadas, responsável por mais da metade das medalhas.[2]

O resultado histórico do Brasil mostra o quanto estamos aquém das nossas possibilidades. Se um investimento de quatro a seis anos nos permite ficar entre os quinze melhores e conseguir medalhas em 12 esportes diferentes, um país com recursos e população como Brasil tem tudo, a longo prazo, para figurar sempre entre os dez melhores dos Jogos.

Aí está o problema. O desafio é manter o nível. Mais do que isso. É alocar o esporte no seu espaço de direito, o de transformador social e gerador de um sentimento de coletividade para superar desafios. Isso perpassa pela valorização da educação física e seus profissionais em escolas e universidades, um trabalho de base de todas as federações esportivas (várias delas dominadas por verdadeiras máfias há décadas), e um programa olímpico sério do Governo Federal, desde o trabalho de base até o apoio ao esporte de alto rendimento. Nenhum país potência olímpica chegou a esse status sem uma política pública séria e constante.

O apagar das luzes da Rio 2016 nos preocupa, ao pipocar na imprensa os retrocessos do governo golpista de PMDB-PSDB que já prometem andar para trás também na área esportiva. O Ministério do Esporte, sem discussão e comunicação prévia, suspendeu vários editais para depois das Olímpiadas, deixando atletas sem futuro e confederações com planejamentos prejudicados.[3] O futebol feminino, uma das modalidades que mais sofrem com falta de investimento e preconceito, está com sua seleção principal permanente ameaçada, pois um dos dirigentes disse que a modalidade “não decolou”, mesmo tendo emocionado o país e lotado os estádios (mais do que o maltratado Brasileirão).[4]

O sucesso do Brasil na Rio 2016 pode ser o início de uma potência nos Jogos, ou uma enorme decepção, se o investimento feito até agora for paralisado. Os retrocessos na política e na sociedade brasileira ameaçam também o nosso esporte. Importante também o destino das instalações esportivas construídas para os Jogos, que podem ser importantes centros de treinamento para nossas atletas, ou virarem elefantes brancos.

Por fim, vale notar que poucos dos nossos medalhistas se encaixam no perfil homem-branco-heterossexual. Vimos as medalhas serem entregues a atletas negros, pardos, mulheres, homossexuais, nordestinos, com grandes histórias de superação e luta contra oponentes cruéis, como o racismo, preconceito e as adversidades do subdesenvolvimento brasileiro (Rafaela Silva e Maicon Andrade, por exemplo). Não há aqui nenhuma surpresa. Os/as medalhistas apenas refletem a diversidade do povo brasileiro, invisível apenas para uma fração arrogante e racista de nossa população, minoritária em números, mais grande em poderes e privilégios. [5]

Roberto Santana Santos é historiador, doutorando em Políticas Públicas pela UERJ. Secretário Executivo da REGGEN (Rede de Economia Global e Desenvolvimento Sustentável) da UNESCO. Autor do livro “Coronéis e empresários: da esperança da transição democrática à catástrofe neoliberal”.

[1] http://www.revistaforum.com.br/2016/08/21/atletas-da-canoagem-atribuem-medalha-a-projeto-de-lula-ao-vivo-na-globo/

[2] http://espn.uol.com.br/noticia/624634_r-18-milhoes-e-684-das-medalhas-forca-militar-impulsiona-podios-no-rio-2016

[3] http://olimpiadas.uol.com.br/noticias/redacao/2016/06/07/esporte-suspende-verba-para-pos-olimpiada-e-revolta-confederacoes.htm

[4] http://globoesporte.globo.com/blogs/especial-blog/bastidores-fc/post/cupula-da-cbf-discute-extincao-de-selecao-permanente-de-futebol-feminino.html

[5] http://espn.uol.com.br/post/624325_olimpicas-9-com-muito-orgulho-com-muito-amor

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