As respostas que o PSOL precisa dar nas eleições municipais de 2016.

O PSOL se diz um partido programático. É, inclusive, reconhecido como tal por seus adversários, por seus correligionários e até (recentemente) por ministros do Supremo Tribunal Federal. Mas que programa é esse? Quais são as concordâncias mínimas que existem entre nós que nos distingue de outros partidos? Qual será a diferença de uma prefeitura do PSOL e uma prefeitura de um outro partido qualquer? Qual é nossa identidade, qual é nossa diferença? Quais são, afinal, nossos critérios compartilhados para uma ação conjunta?

Essas perguntas são importantes porque talvez tenha chegado a hora do PSOL. A hora de mostrar que uma alternativa real de poder existe. Que ela tem lugar, nome e endereço. E que ela é só o começo de uma nova estrutura social que tomará conta de todo o país, o continente, o mundo. Este, certamente, é o sonho longínquo de muitos de nós, militantes de esquerda, que – por muito tempo, tivemos que chorar nossas mágoas pelas reiteradas traições do projeto social-democrata petista. Muitos de nós nutrimos, é verdade, uma esperança sincera em tudo que estava por trás daquela grandiosa estrela vermelha. Ela se foi e está prestes a dar seu último suspiro. Mas é dela que nascem várias outras menores, porém aguerridas, estrelas. Uma dessas estrelas é o PSOL. Somos filhos desta esperança longínqua e, como tal, foi importante para nós um longo período de luto. Alguns de nós ainda estamos nesta luta (de fazer o luto), o que não é tarefa fácil, como já nos explicou Freud, mas é um ato necessário para evitar a melancolia.

Passado o luto, porém, e tendo destruído, simbolicamente, o objeto que foi o PT, o PSOL, aos poucos, tem se firmado como alternativa. Como um projeto que tem voo próprio. Que tem capacidades que o petismo talvez nunca tenha tido. Ou não faria sentido termos saído daquele projeto, certo? Certo.

É por isso, então, que precisamos nos fazer algumas perguntas e olharmos no espelho com franqueza, para que não repitamos, consciente ou inconscientemente, a história como tragédia, farsa ou barbárie.

Estas serão as eleições de maior importância para a vida e para a continuidade do PSOL, no meu entender. Muita coisa aconteceu e ainda está por acontecer neste ano, que completa 36 meses desde as manifestações populares mais volumosas e abrangentes do período da redemocratização. Foram vários os esquemas de corrupção abertos ao público geral. Foram vários os acordos politiqueiros que vieram à tona de maneira cristalina. Sem entrar no mérito dos métodos em que tais exposições nos apareceram, elas são um fato social incontornável. E fatos sobre os quais estão apoiadas as candidaturas do PSOL.

Nosso programa político nacional – aquele que já produziu dois vídeos dizendo que o PSOL “não é um partido qualquer” – nos dá pistas sobre a primeira pergunta que precisa ser respondida agora em 2016. Afinal, o PSOL é um partido “diferente” ? Se sim, por quais razões? O PSOL quer dar respostas efetivas aos problemas sociais? Quer tentar agir para sanar injustiças? Se sim, como? Ou não é isso e o PSOL é um partido que não tem respostas, mas pressupõe aquilo que Gramsci chamou de “princípio do erro”, onde os acertos e erros interessam pouco, já que estaríamos no “lado certo da história”? Nossa plataforma é “segurar a barra até que a revolução chegue”? Nós acreditamos numa mudança radical da sociedade – comumente chamada de revolução? Acreditamos que ela simplesmente virá ou que é preciso fazer algo para que ela aconteça?

Uma coisa que essas eleições demonstrará, sem dúvida alguma, é a pluralidade imensa do PSOL, pois, em cada prefeitura, em cada localidade, o PSOL terá respostas diferentes para perguntas que, ao meu ver, são fundamentais para uma coletividade unida. Afinal, acreditamos no socialismo? Se sim, em qual tipo de socialismo? Como ele deve ser construído e – mais importantemente – como que a eleição para a estrutura política do município nos ajudará a atingir nosso objetivo? Quais são os métodos, quais são os princípios e quais são os arranjos que tentaremos construir para atingir nossa finalidade? Como será o julgamento de nossos objetivos pela população? Como vamos poder dizer – internamente – que chegamos mais ou menos próximo de nossos objetivos?

Continuando na pragmaticidade que uma prefeitura exige, como serão distribuídos os cargos comissionados e de confiança? Qual será o critério? Como evitar a burocratização de quadros que comecem a viver materialmente da relação com a prefeitura? Quais seriam as alternativas? Ao governar, qual será a tática de funcionamento e de relação com o partido? Quais instancias vão se sobrepor às outras? Como vamos evitar os erros pragmáticos do PT?

Longe de querer adotar critérios ou índices quantitativos baratos, que mais reforçam o sistema do que elevam a discussão, essas perguntas precisam estar próximas da cabeça de quem se julga capaz de elaborar um projeto coletivo de alta complexidade, de imenso alcance e de ampla efetividade. Porque é impossível falar em “democratização radical” se não formos capazes de colocar à vista (aos olhos nus) tudo que desejamos alcançar. E, mais, expor como desejamos atingir tais objetivos. Mostrando isso ao público em geral, estes (assim como nós mesmos) poderão questionar com mais precisão. E dificultará respostas que mais “desconversam” do que “avaliam”, de fato, os feitos.

Responder tais perguntas, e – mais ainda – responder de tal maneira, nos obrigaria a responder outras que são tão fundamentais quanto as outras (ou mais) e que temos, vez ou outra, nos esquivado de responder na vida partidária. Do tipo: acreditamos em algum “sujeito” revolucionário? Este sujeito é o “partido” ? Este partido é o PSOL? Se não, qual é a função do PSOL? Qual é a função dos partidos em geral?

Essas são perguntas que, ao meu ver, estiveram presentes nas manifestações de junho de 2013. Eram perguntas – e não respostas. E me parece importante constatar isso. Porque, muitas vezes, a classe política (da esquerda à direita) age como se estivesse lidando com uma criança que sabe o que quer, mas não sabe verbalizar muito bem seu desejo. Como se ela – a classe política – fosse a mais legítima intérprete dessas vontades, dessas vozes, desses desejos. O PSOL se entende assim? O PSOL se entende apenas “mais capaz” de interpretar essas necessidades? É isso que nos diferencia? Nós somos sujeitos mais capazes? Mais eticamente compromissados? Mais moralmente adeptos de uma sociedade “justa” ? Somos os bonzinhos da história? É isso?

Porque muito do discurso em torno de nosso atual projeto está ancorado numa plataforma de direitos já descritos pela Constituição. Eles já estão lá, pelo menos em palavras –ainda que vazias. Nossa plataforma é, portanto, fazer valer esses direitos? É um projeto “em respeito aos direitos individuais e sociais de nossa carta política” ? É esse nossos projeto? Nosso projeto é fazer a reforma agrária, a reforma da previdência, a reforma trabalhista, a reforma urbana e todas as outras reformas de base? Se for isso – e apenas isso – precisamos afirmar tais plataformas com mais ênfase. Dizendo que elas, por si só, resolverão o problema. Apesar dos variados exemplos pelo mundo que demonstram o contrário.

Precisamos alinhar essas coisas sobretudo porque o amontoado de discursos que se encaixam num guarda-chuva genérico chamado “socialismo” já não engana muito as pessoas. E essas contradições virão à tona – sem muita solução, creio eu – quando começarmos a ter mais êxito eleitoral. Porque, vejam, o voto no PSOL raramente será em prol da repetição do mesmo. Será um voto esperançoso de que algo diferente e melhor pode vir. E qual será a diferença? Será a administração ética e moral das finanças públicas do capitalismo? Ou esse é só um primeiro passo?

É claro que cada um de nós vai ter uma resposta diferente para cada uma dessas perguntas e isso não necessariamente é ruim. Mas tem potencial para se tornar péssimo caso estes debates não estejam no centro da disputa eleitoral. Pelo menos para nós, socialistas. Não é só o voto que queremos. Isso é o que querem os partidos da ordem. Talvez, para um projeto socialista, a disputa eleitoral sirva sobretudo para tentar pensar e responder essas questões. Elaborar dúvidas, causar estranhamento em relação ao sistema posto. Talvez, uma eleição sirva mais para apresentar a ignorância coletiva sobre os rumos do que apresentar soluções mentirosas e que naturalizam o capitalismo.

Porque não se pode supor, como já aconteceu em alguns momentos, que nosso horizonte socialista, em geral, prevalecerá. Não podemos acreditar nisso. Nem pela crença num desfecho já desenhado para o movimento das engrenagens da vida; nem pela suposição de superioridade moral ou racional de nossa proposta. Como se, ao atingir determinado grau de consciência, todos, ou quase todos, irão concordar conosco. As consciências políticas não são una, são múltiplas. Supor que agindo “assim e assado” as pessoas terão uma única visão sobre a história e, mais, que essa visão será semelhante à nossa, é um tremendo equívoco.

Política não é isso. Política é disputa. E são vários os projetos em voga, várias organizações que tentam impor seus caminhos em detrimento de outros. Como estamos construindo as bases para nosso êxito?

Durkheim certa vez apontou que o socialismo era a expressão de um mal-estar vivido pela população. Um “grito de angústia coletivo”. Como se fosse um horizonte que se busca justamente pela sensação de estar imerso num sistema incapaz de providenciar justiça social. Num mundo complexo e hiper diferenciado, a solução para este sintoma (que é nítido) nao pode ser encontrada em um instante e pelo simples fato de que sua necessidade se faz sentir. É preciso organizar, delimitar e expor metodicamente os objetivos que se busca alcançar.

Queremos mais igualdade? Queremos a redução das desigualdades? A teoria liberal também diz querer diminuir as injustas disparidades sociais, mas ela jura que a lei da oferta e da demanda é a mais eficaz para solucionar tais problemas. Nossa diferença é não crer na lei da oferta e da demanda como diminuidora de desigualdade, então? E, se este for o caso, acreditamos que a estipulação de outras leis – no âmbito legislativo da política – será capaz de introduzir mais igualdade? É isso?

Não é isso, parece-me. Porque o mundo exige soluções muito mais elaboradas, que envolvem vários fatores conjugados. Mas quais são eles? Quais são os planos? Quais são os diagnósticos que alimentam esses planos? E quais são as atividades nas quais estamos empenhados para desenvolver e criar estes planos? O sistema capitalista será alterado pela mudança de quem ocupa as cadeiras de mando em sua estrutura? Se não for ciclano, mas for beltrano, aí sim, estaremos caminhando para o fim da produção de mais valia? Se sim, por que? O que faz deste “sujeito” alguém mais capaz e mais potente?

É claro que não precisamos responder tudo de antemão. Tem muita coisa que se responde enquanto se anda, enquanto se desenvolve. Mas é um erro incorrigível deixar de ter essas questões e essas pendengas em mente. É um equívoco do qual já fomos reféns. Precisamos perder mais sono do que já perdemos pensando nessas coisas. Porque a ditadura do cotidiano é o que nos leva (todos nós, não só alguns perdidos, canalhas, pragmáticos) a repetir erros e reproduzir o que criticamos.

É claro que muitos sectários dirão que talvez o PSOL seja só mais um partido da ordem liberal burguesa, que almeja operar com mais ética e mais moralidade, dando maior visibilidade a algumas injustiças sociais. Que talvez o PSOL queira apenas exercer o poder a luz do traído projeto democrático popular (petista). Dirão que, na melhor das possibilidades, este será nosso horizonte. Mas me parece que não. Parece-me que podemos mais e queremos mais.

É por conta dessa pressuposição que acredito ser importante elencar e buscar responder essas e outras perguntas. Caso contrário, estaremos mentindo para nós mesmos, e o projeto socialista nao pode se contentar com isso.

Temos, portanto, de parar de ver o socialismo (ou qualquer transformação séria) como mera utopia. As utopias normalmente são alimentadas por pessoas que julgam importante apenas um devaneio. Um devaneio que as tire da realidade para que o escapismo momentâneo resolva – no âmbito da consciência – alguns dos males que ela própria reproduz no cotidiano. Na utopia, a pessoa prova para si mesma que é capaz – em pensamento – de ser solidária e altruísta. E entende como suficiente expressar essa capacidade ou esse desejo longínquo de que sua quimera se torne realidade.

O socialismo precisa ser uma busca prática. Uma ciência. Um agir com métodos analisáveis, criticáveis e capazes de serem reelaborados. Porque somos um partido e não um grupo literário. Somos um partido e não um aglomerado de beatos indo à igreja. É necessário fazer essa distinção. Sob pena de sermos as primeiras vítimas desse engano escapista. Um engano que gera frustração, magoas e uma imensa quantidade de imobilismo.

Talvez as respostas mais sinceras que poderemos dar ao fim e ao cabo serão mais perguntas. E isso não parece um problema. A importância está no processo reflexivo que busca. Que vai atrás. Que, de fato, se preocupa em agir, não só reagir. Como apontou Maquiavel,“é preciso estar preparado para conservar o que a fortuna lhes depositou no regaço”.

 

 

 

 

 

 

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