Qual a natureza da miséria do Haiti?

Por Gabriel Siqueira

Nem só os Franceses lutaram por liberdade, aliás, podemos dizer que desde Palmares descoberto pelos brancos portugueses em 1604, a luta negra por liberdade era traduzida em outro palavra: LIBERTAÇÃO. O eldorado negro existiu, desde Palmares até São Domingos. Vários nomes foram dados a luta da negrada nesses mais de 500 anos, uns chamaram de “Tróia Negra” o caso brasileiro, outros disseram que os haitianos pioneiros eram os “Jacobinos Negros”.

Portanto, onde houve escravidão, houve quilombos e luta negra. Em diversos casos, a luta dos negros e negras neste continente é que serviu de base para as revoluções europeias, que nos empurram como nossas através da palavra mágica “universal”.

Toussaint L’Ouverture, por exemplo, é uma das figuras mais importantes da história de libertação do Haiti, negro, filho de um chefe africano, mas a derrota final das dezenas de milhares de soldados das tropas francesas de Napoleão Bonaparte, foi realizada por homens que haviam estado sob seu comando. Ele morreu na prisão da metrópole no começo do século XIX.

Aquela ilha presenciou uma luta racial violentíssima, com execuções de brancos e de negros, onde grandes queimadas destruíram o país. A escravidão acabou, ao mesmo tempo que o Haiti deixou de ser uma colônia francesa. Consequentemente, as bases econômicas permaneceram (como a agricultura de subsistência) e religiosas de origem africana – praticadas pelos líderes da revolta, uma mitologia afro-latina única. Em 1804, ao se libertar, o Haiti era a colônia mais produtiva da América Latina e a primeira a conquistar a Independência nacional.

Até Simon Bolívar se exilou no Haiti e na Jamaica, tendo recebido amplo apoio em ambas às nações. Contudo, ao organizar um intenso combate às forças escravistas nacionais e internacionais como, por exemplo, atacar e libertar navios negreiros pelas Antilhas, os haitianos foram perseguidos pelas elites do nosso continente e da Europa.

Enquanto os Estados Unidos foram, até metade do século XIX, um dos principais pilares da escravidão na América e no mundo, a revolução haitiana, ao contrário, foi o fator decisivo que acelerou a decadência do tráfico negreiro e do sistema escravista no período.

A insurreição vitoriosa dos escravos na antiga São Domingos francesa acendeu o pavio de outras grandes revoltas no Caribe (Jamaica, Guiana, etc) que forçaram, por exemplo, decisão da Grã-Bretanha em abolir a escravidão nas suas colônias na década de 1830. Antes da revolução haitiana, o abolicionismo na Europa e, principalmente, nas Américas era um pequeno e frágil movimento de uma minoria de cristãos humanistas.

O Haiti era joia da coroa, uma grande plantação de açúcar, com mão de obra escrava. Os alicerces do que vemos no mundo hoje, inclusive nos espaços daqueles considerados justos e democráticos é obra do povo negro afro-latino. No Espírito das Leis, Montesquieu havia explicado sem pudor:

“O açúcar seria demasiado caro se os escravos não trabalhassem na sua produção. Os referidos escravos são negros desde os pés até à cabeça e têm o nariz tão achatado que é quase impossível deles ter pena. Torna-se impensável que Deus, que é um ser muito sábio, tenha posto uma alma, e sobretudo uma alma boa, num corpo inteiramente negro”. 

É dessa natureza brutal e histórica que advém o desastre que vivemos naquela pequena e rebelde ilha.

Sem mais.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s