Dia do Servidor Público: o único presente é a juventude #OcupaTudo

Por Rodrigo Santaella

Ontem, 28 de outubro “comemorou-se” o dia do servidor público. Nós, assim como as e os demais trabalhadores do Brasil, as estudantes, a juventude da periferia e todo o andar de baixo da sociedade brasileira, estamos sob ataque. Como se anunciava nos momentos anteriores à retirada ilegítima de Dilma Rousseff da Presidência da República, o que se seguiu àquilo foi a implementação de um governo golpista, montado com inúmeros quadros derrotados nas eleições de 2014 e que busca implementar às pressas um programa de desmonte do Estado e de transferência de renda dos setores mais pobres do país para os mais ricos.

Os golpes vêm de todos os lados, e tudo somado gera um panorama de retrocesso profundo na nossa já historicamente frágil democracia. Resumindo, temos um governo ilegítimo e não eleito, implementando um programa de retirada de direitos que não passou pelo crivo das urnas, reprimindo mobilizações, perseguindo juridicamente manifestantes, enquanto nossas instituições mais importantes do judiciário cumprem um papel nefasto, tendencioso e altamente sintonizado com o espírito do governo golpista. É nesse contexto que a famigerada PEC 241, que congela em termos reais o orçamento de toda a parte social do nosso Estado (sem mexer na metade do nosso PIB que vai para o pagamento da dívida ilegal que cultivamos) é aprovada na Câmara e segue para o Senado como PEC 55, apontando para a retirada de direitos dos servidores públicos Brasil afora e, mais importante, para a destruição dos direitos sociais mais caros à sociedade, especialmente assistência social, saúde e educação. Não à toa, um dia depois da aprovação da PEC em segundo turno na Câmara, o STF decide pela legalidade do corte de salário dos servidores públicos grevistas. Na prática, ao legitimar o não pagamento do salário, retira o direito de greve de um setor importante da classe trabalhadora brasileira.

                Esse é um ataque decisivo. Pode ser mortal para um dos setores historicamente mais combativos da classe trabalhadora. Como servidores públicos e, portanto, funcionários do povo, além de cumprir com ética, comprometimento e qualidade nossas obrigações profissionais, devemos lutar pela efetivação dos direitos dos quais somos agentes. Esvaziar a possibilidade de exercício do direito de greve é uma atitude antidemocrática, que atinge em cheio nossa capacidade de mobilizar os servidores pelo Brasil.

Entretanto, a principal potência dos setores oprimidos e da classe trabalhadora sempre veio de sua diversidade, da pluralidade de condições e grupos que a compõe. A geração da qual faço parte é a que foi formada na vitória ideológica do neoliberalismo e depois teve que aprender a militar e a lutar em um contexto de governos ambíguos como os petistas. Era uma militância por vezes solitária, pequena, em meio ao turbilhão contraditório (às vezes mais do que pensávamos) do que era o governismo. Em meio à nossa solidão, não esqueço que declamávamos sempre Thiago de Mello. O velho poeta amazonense nos ensinava, nos alertava, e dizia

“(…) É tempo sobretudo

De deixar de ser apenas

A solitária vanguarda de nós mesmos.

Se trata de ir ao encontro

(Dura no peito, arde a límpida

Verdade dos nossos erros.)

Se trata de abrir o rumo.

Os que virão, serão povo,

E saber serão, lutando.”

Pois bem. Parece que os que viriam chegaram, e chegaram forte. São uma juventude firme, formada em processos diferentes, educada na luta direta em ocupações. Tem muito aprender, é claro, mas têm muito mais a nos ensinar. E são povo. Vieram e são saber, porque lutam, como há muito não se via. As ocupações são totalmente legítimas, e mais do que isso são uma das principais esperanças na luta contra as medidas deste governo. Parar as aulas, adiar o ENEM, tudo isso é necessário para impedir o desmonte total de nossa educação pública e sua irradiação para outras esferas. São 20 anos de cortes, de destruição.

O que está em jogo no Brasil é o futuro de cada um e uma desses jovens e das gerações vindouras. Por isso é hora de essa juventude pegar a história com as mãos e escová-la a contrapelo. E nós, servidores públicos, precisamos deixar-nos levar pela radicalidade e pelo brilho nos olhos dessa turma. Precisamos apoiar, aprender com eles, trocar experiências, estar junto. Precisamos fortalecê-los. Se no dia do servidor público fomos presentados com mais um ataque aos nossos direitos fundamentais, não é hora de temer nem de lamentar. Nosso maior presente é poder ter esperança em uma juventude estudantil que luta. E nosso maior dever é retomar o brilho nos olhos, arregaçar as mangas e ir à luta. A hora é de construir sínteses entre o sindicalismo e a luta do funcionalismo, os movimentos sociais do país e a juventude que emerge nas lutas. Nossa resposta ao ataque mais recente do STF tem que ser simples: Querem nos tirar o direito de greve? Então #OcupaTudo. Não passarão.

escola-ocupada

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Um comentário sobre “Dia do Servidor Público: o único presente é a juventude #OcupaTudo

  1. Rubens Costa 29/10/2016 / 18:53

    Como sempre, brilhante Rodrigão!

    Curtir

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