O “intercomunalismo revolucionário” dos Panteras Negras

Por João Telésforo

bpp
Conheça os “Programas de Serviço ao Povo” do Partido dos Panteras Negras: http://www.caringlabor.files.wordpress.com/2010/09/hilliard-ed-the-black-panther-party-service-to-the-people-programs.pdf

É provável que o Partido dos Panteras Negras (The Black Panthers Party, BPP) tenha sido a organização revolucionária mais importante da história dos Estados Unidos. Apesar disso, e por mais que tenhamos os olhos vidrados no que vem de lá, boa parte da militância de esquerda não conhece a fundo essa experiência, para além de sua estética marcante e sua prática de autodefesa popular armada, contra a violência sistemática de que a população negra era e é alvo. Dois elementos fundamentais de sua estratégia, mas que, tomados isoladamente, podem alimentar instintos esquerdistas, performances e símbolos, mas não necessariamente como partes de um compromisso e horizonte revolucionários.

A estratégia de construção de poder popular dos Panteras Negras era ampla e sofisticada. Diferente de parte da esquerda, não viviam apenas de fazer propaganda, “acompanhar” ou “apoiar” lutas (como fazem alguns dos nossos partidos, mantendo-se em posição exterior a elas), disputar eleições e aparatos. Seus impressionantes “Programas de Serviço ao Povo”, atrelados a uma estratégia de organização comunitária, têm muito a nos ensinar: redes de cafés-da-manhã, serviços de saúde, educação, advocacia, emprego, vestuário para as comunidades negras. Não se tratava de “assistencialismo”, mas de o povo construir sua própria organização política, mediante a qual avançava na solução de seus problemas, experimentava uma mostra de sua potência coletiva, forjava outra qualidade de poder, e se fortalecia, material e subjetivamente, para a luta revolucionária. É possível conhecer um pouco desses programas neste livro: http://www.caringlabor.files.wordpress.com/2010/09/hilliard-ed-the-black-panther-party-service-to-the-people-programs.pdf.

No prefácio à obra, Cornel West destaca três características do BPP: (i) ele falava para as necessidades e esperanças das comunidades locais, fazendo a conexão entre suas preocupações imediatas e a luta contra a opressão e exploração estruturais; (ii) tratava-se de uma organização interracial, aberta a alianças estratégicas e coalizões táticas com militantes progressistas de quaisquer cores; (iii) era internacionalista, pois “entendia o apartheid americano à luz das lutas anti-imperialistas ao redor do mundo, em especial na Ásia, África e América Latina”.

Sobre esse último ponto, o BPP criou a concepção teórico-estratégica do “intercomunalismo revolucionário”, que partia do reconhecimento de uma contradição entre “o pequeno círculo que administra e lucra do império dos Estados Unidos e os povos do mundo que querem determinar seus próprios destinos”. As palavras entre aspas são de Huey Newton, fundador e um dos líderes do BPP, segundo quem o partido evoluiu do “nacionalismo negro” para o “nacionalismo revolucionário”, então ao “internacionalismo” – ao se entender como parte das lutas por libertação nacional por todo o mundo, como destacou Cornel West – e, por fim, ao “intercomunalismo revolucionário”. Neste artigo, de onde retirei essas informações, é possível ler um pouco sobre as relações dialéticas desta trajetória com o maoísmo, tradição do marxismo que tomavam como uma de suas fontes destacadas, junto ao pensamento de Malcom X.

Vale a pena pensar as relações entre o “intercomunalismo revolucionário” do BPP e concepções que têm ganhado notoriedade em alguns círculos da esquerda, como a do “confederalismo democrático” do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), as do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), no México, bem como de uma infinidade de outros setores – povos indígenas, feminismo comunitário, e vários outros – que têm apostado na construção do poder comunal e, simultaneamente, em discursos e ferramentas de mobilização transnacionais.

A necessidade de repensar a estratégia da esquerda não deve nos conduzir a fazer tábula rasa do passado, movidos por uma busca desesperada pelo “novo”. Não se trata simplesmente de aderir às concepções anteriores e atuais, nem deixar de pensá-las criticamente, nos limites e insuficiências que possam ter; mas a crítica deve estar atenta também à positividade dessas experiências e formulações, em especial àquelas que nunca alcançaram a visibilidade merecida, muitas vezes devido a epistemologias racistas implícitas que nos condicionam.

Leia também, aqui no Blog: Por uma esquerda ‘assistencialista’; Pentecostalismo e luta popular.

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