Acordemos: nem Lula, nem Ciro! O momento é de reinventar-se.

Por Rodrigo Santaella

Momentos de crise, especialmente de convergência de crises, geram também oportunidades de reconstrução, de reorganização. Em países matizados, multifacetados e com grande segregação e desigualdade social como o nosso, as crises sempre trazem – por serem momentos de encontro – possibilidades de reinvenção. O conjunto de ataques que as classes subalternas sofrem hoje no Brasil e a profunda crise de legitimidade na qual se encontra o Estado brasileiro tendem a proporcionar momentos de condensação social, de encontro de diversos sujeitos coletivos que – apesar de terem espaços de intersecção e interesses comuns – pouco se cruzam nas lutas políticas do país. É importante ter isso em mente para pensar as formas concretas de enfrentar os ataques que já vieram e os que virão, e principalmente para entender o tamanho do desafio que as pessoas e organizações que querem uma transformação radical do país precisam enfrentar. Sinceramente, se não for agora a hora de ousar e buscar construir algo diferente do que foi tentado pelas esquerdas brasileiras nas últimas décadas, é muito possível que percamos o bonde novamente.

Nesse contexto, se torna assustador ver que boa parte dos setores progressistas do país apostam, mais ou menos timidamente, numa solução “Lula 2018” como sendo a melhor dentre as alternativas possíveis para uma resposta progressista à crise. Me desculpem, mas não é. É preciso discutir o legado dos anos de PT no poder no Brasil, e esse seguramente será um dos pontos importantes dos balanços que a esquerda precisará fazer para se reorganizar nos próximos meses e anos. É verdade que parte da esquerda teve – e tem – dificuldade em entender a complexidade dos 14 anos de governos do PT, e fechou os olhos para alguns avanços importantes[1]. Entretanto, quando olhamos a história como processo, é preciso reconhecer que o golpe de 2016, e portanto tudo o que ele trouxe consigo, é um dos principais legados desse período. O projeto petista, independente dos avanços parciais (e importantes) que trouxe, carregou consigo desde o princípio as suas contradições e os gérmens da sua própria derrocada. A opção pela governabilidade por cima em detrimento da mobilização social, somada à opção por entrar no jogo sujo do poder no Brasil ao invés de enfrentá-lo quando tinha base social para tal, limitava qualquer avanço estrutural duradouro: se hoje podemos perder boa parte do que foi conquistado nos últimos anos (a aprovação do teto de gastos já é um bom caminho para isso, sem falar no que virá em termos de reforma trabalhista e da previdência), é porque grande parte dessas conquistas foram, no mínimo, efêmeras. E isso é parte decisiva do legado lulista: negar isso é optar por cometer os mesmos erros. A opção pela conciliação de classes (em um momento em que a bonança internacional permitia isso) criou todas as condições para a consolidação de um governo como o de Temer: profundamente classista e agressivo. Isso não dependeu de atitudes individuais, é claro: como bem mostrou o excelente artigo de André Singer[2], quando Dilma tentou enfrentar parcialmente o capital financeiro, perdeu sua base política. Mas estranho seria se não perdesse, não é?  Se a Nova República está definhando, a solução “Lula 2018” poderia, no máximo, prolongar a agonia. Passaria longe de contribuir com uma reinvenção ou com uma reorganização tão necessária para os setores progressistas do país. Pelo contrário, provavelmente consistiria em mais uma barreira para isso.

Por outra parte, é ainda mais assustador observar parte de setores progressistas vibrarem e considerarem a viabilidade de uma alternativa “Ciro Gomes 2018”. É brincadeira, né?[3] Ciro e os Ferreira Gomes são talvez os maiores representantes da atualização do coronelismo no Ceará. Se suas origens estão no “coronelismo clássico” na bela cidade de Sobral, seus anos de governo demonstram a atualização dessas práticas e um pouco do que eles representam. Os governos dos Ferreira Gomes (primeiro com Ciro, depois com seu irmão Cid) foram marcados pela repressão aos mais diversos setores das classes trabalhadoras (de médicos a professores, passando, é claro, por estudantes), pela remoção forçada de milhares de famílias, por um “desenvolvimentismo” velho e nada arejado, banhado pelo veneno dos agrotóxicos e  pelas brilhantes ideias aquáticas de uma termelétrica (do Eike Batista, no começo) que consome a água de 500 mil pessoas e por um “Acquario” como principal atração turística da capital de um dos estados que mais sofre com a seca no país. Ciro é um cara muito perspicaz, muito inteligente, e encanta, em tempos de redes sociais e “oclinhos”, muita gente quando enfrenta interlocutores neoliberais em debates públicos reproduzidos nas redes sociais. Mas acreditar, com seu histórico, que isso basta para que ele seja uma alternativa viável, beira o absurdo para setores que se querem progressistas (imagina então para os revolucionários). Seria, sem dúvidas, o maior atestado de que não estamos à altura dos desafios que a história nos impõe.

É claro, não basta apontar os limites dessas supostas alternativas. É preciso que o conjunto das forças progressistas e da esquerda revolucionária faça suas autocríticas e se coloque em movimento com disposição a correr os riscos de novas articulações, de novos instrumentos políticos (que podem até caber dentro dos existentes, a depender de como caminhem as coisas). É preciso romper as barreiras que se impõem entre uma esquerda crítica, que não se rendeu ao sistema (e que por isso é fundamental para o momento atual), mas que se por vezes adotou posições mais cômodas, “de fora”, e fez análises mecânicas e maniqueístas, caindo no sectarismo em diversos momentos nos últimos anos, e uma esquerda pragmática e conformista, que não consegue pensar de forma diferente do que foi imposto pela dinâmica da Nova República no Brasil.

O êxito dessa construção ou de qualquer tipo de coisa, em termos de reorganização, que surja da crise que vivemos hoje no Brasil depende, por óbvio, da não repetição dos erros do passado recente. Mais do que em articulações de gabinetes parlamentares, esse processo só terá futuro se for construído a quente, nas ruas. Se nada de diferente do que temos hoje surgir, provavelmente seremos derrotados novamente. E, por isso, o pior erro que podemos cometer nesse momento é alimentar ilusões em soluções como “Ciros” e “Lulas”: isso seria contribuir, decisivamente, para que o futuro continue sendo uma repetição eterna do presente cinzento em que estamos colocados.

[1] O que não significa dizer que as críticas que fez foram injustas. Para citar apenas uma medida do primeiro ano de governo petista e uma do último, estão a reforma da previdência de 2003 e a sanção da lei antiterror em 2016. O problema, talvez, tenha sido dialetizar pouco as análises.

[2] “A (falta de) base política para o ensaio desenvolvimentista”. In: As contradições do Lulismo: a que ponto chegamos? São Paulo, Boitempo, 2016.

[3] Devo confessar que escrevo esse texto impactado pelas reações da plateia de jovens no debate realizado domingo, dia 29/01, na Bienal da UNE em Fortaleza, com Ciro Gomes, Luciana Genro, e outros.

Resultado de imagem para ciro gomes lula

Anúncios

2 comentários sobre “Acordemos: nem Lula, nem Ciro! O momento é de reinventar-se.

  1. Maria de Jesus Araújo Ribeiro 30/01/2017 / 18:41

    Rodrigo Santaella,
    Muito bom o seu texto. Uma reflexão e tanto.
    Era bom que a CNTE lesse, dentre outros.
    Beijos no coração,
    Jesus.

    Curtir

  2. Valter Soares 01/02/2017 / 07:33

    E qual o problema do coronelismo do Ciro? Tem uma galera ai querendo o Bolsonaro, se o jeito “postura forte” do Ciro é coronelismo, do Bolsonaro é o que então?! Sou Ciro 2018!!!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s